Declaração contrasta com promessa de picanha feita pelo presidente durante a campanha de 2022
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na quinta-feira (1º), durante entrevista ao Flow Podcast, que brasileiros que não têm dinheiro para comprar carne podem optar por outros alimentos, como ovos e salada.
Durante a conversa, Lula declarou: “Se não tem dinheiro pra comprar carne, a gente come ovo. Se não tem dinheiro pra ovo, come salada”. Na sequência, o presidente relembrou sua trajetória profissional e afirmou que, quando trabalhava em uma fábrica, também teria passado por períodos em que se alimentava apenas de arroz e feijão.
A declaração ganhou repercussão por ocorrer em meio à campanha eleitoral de 2026 e quatro anos depois de o próprio Lula ter transformado a picanha em um dos principais símbolos de seu discurso econômico durante a campanha presidencial de 2022.
A promessa da picanha
Durante a campanha de 2022, Lula associou a recuperação do poder de compra dos brasileiros ao retorno do consumo de alimentos que, segundo ele, haviam se tornado mais difíceis de colocar à mesa.
Naquele período, o então candidato afirmou que os brasileiros voltariam a consumir picanha e fazer churrasco, utilizando o corte de carne como símbolo de uma melhora no poder de compra da população.
A promessa não ficou restrita a uma única declaração. Lula também voltou ao tema durante a campanha e associou picanha e cerveja à recuperação das condições econômicas dos brasileiros.
Naquele período, Lula também relacionava a picanha à capacidade de produção do agronegócio brasileiro. O argumento era que um dos maiores produtores de carne bovina do mundo deveria conseguir oferecer o produto também ao mercado interno.
A picanha passou, assim, a ocupar espaço importante na comunicação eleitoral daquele ano, frequentemente acompanhada da referência à cerveja.
Quatro anos depois, o discurso é outro
A declaração feita no Flow ocorre em um contexto diferente daquele apresentado durante a campanha de 2022.
Em vez de falar sobre a volta da picanha à mesa dos brasileiros, Lula afirmou que quem não consegue comprar carne deve buscar alternativas mais baratas.
A sequência apresentada pelo presidente foi direta: carne, depois ovo e, se não houver dinheiro para comprar ovo, salada.
O contraste entre as duas falas é o principal elemento político da declaração. Em 2022, o consumo de picanha foi utilizado como símbolo de melhora das condições econômicas. Agora, diante da discussão sobre o custo dos alimentos, Lula apresentou a substituição da carne por outros produtos como uma alternativa para quem não consegue arcar com o preço.
Isso não significa, por si só, que o governo tenha proibido ou impedido o consumo de carne, mas coloca em evidência a mudança no discurso presidencial sobre o poder de compra das famílias.
Lula já havia voltado ao assunto da picanha
A promessa de 2022 não desapareceu completamente do discurso de Lula depois da eleição.
Em abril de 2024, durante um encontro com jornalistas, o presidente afirmou que não havia esquecido a promessa relacionada à picanha e à cerveja. Na ocasião, declarou que o preço da carne havia diminuído, mas que ainda precisava cair mais.
O histórico mostra que a picanha continuou sendo utilizada pelo próprio presidente como referência para discutir o preço dos alimentos e o poder de compra da população.
O preço da carne continua no centro do debate
Dados divulgados recentemente mostram que a discussão sobre o preço da carne permanece relevante.
Segundo levantamento baseado no IPCA, a picanha acumulou alta de 7,8% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. O preço médio da carne de primeira em São Paulo chegou a R$ 50,49 em agosto de 2026, contra R$ 42,54 em 2022.
Os números reforçam que o preço da carne continua sendo uma questão importante para o orçamento das famílias brasileiras, especialmente em um momento em que o próprio presidente volta a falar sobre a substituição de alimentos para quem não consegue comprar determinados produtos.
A discussão também recoloca no centro do debate o poder de compra da população e a promessa feita durante a campanha de 2022, quando Lula utilizou a picanha como símbolo da recuperação econômica.
Da promessa de consumo à adaptação do consumidor
A fala de Lula no Flow recoloca em discussão uma questão que esteve presente na campanha de 2022: o que significa, na prática, melhorar o poder de compra da população.
Na campanha daquele ano, a imagem apresentada era a de que o brasileiro poderia voltar a fazer churrasco e consumir picanha e cerveja. Agora, diante da pergunta sobre quem não consegue comprar carne, a resposta apresentada pelo presidente foi a substituição do produto por ovos ou salada.
A diferença entre os dois discursos é objetiva e pode ser verificada nas próprias declarações públicas feitas pelo presidente em momentos distintos.
A fala mais recente não apresenta uma nova promessa de redução do preço da carne nem uma explicação detalhada sobre medidas específicas para tornar o produto mais acessível. O presidente, na entrevista, tratou a substituição de alimentos como uma possibilidade para quem enfrenta restrições financeiras.
A questão vai além da picanha
Embora a picanha tenha se tornado o símbolo mais conhecido desse debate, a discussão envolve toda a alimentação das famílias brasileiras.
Quando o preço de determinado alimento aumenta ou o orçamento familiar fica mais apertado, o consumidor tende a substituir produtos considerados mais caros por alternativas de menor custo. A questão política passa a ser justamente qual é a capacidade da economia de garantir que os brasileiros consigam manter seu padrão de alimentação e ampliar seu poder de compra.
A declaração de Lula, portanto, reacende uma promessa que marcou a campanha de 2022 e coloca novamente o custo da alimentação no centro da disputa eleitoral de 2026.
Quatro anos depois de apresentar a picanha como símbolo de uma melhora econômica, o presidente agora afirma que, para quem não consegue comprar carne, a alternativa pode ser comer ovo — e, sem dinheiro para o ovo, salada.
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