Registros confirmam reuniões de Vorcaro no Planalto com operador ligado a Padilha

Documentos da Presidência registram dois encontros em 2024; proposta de delação do banqueiro aponta suspeitas de propina envolvendo recursos de fundos de pensão
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA

Registros de entrada no Palácio do Planalto indicam que Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, esteve duas vezes na sede do governo federal em 2024 acompanhado de Júlio Cezar, apontado pelo banqueiro como intermediário em articulações envolvendo fundos de pensão de servidores públicos.

Segundo a proposta de delação apresentada por Vorcaro às autoridades, as negociações envolveriam a captação de bilhões de reais desses fundos e supostos pagamentos de propina a integrantes de um grupo associado ao ministro Alexandre Padilha. As acusações, porém, não foram comprovadas por uma decisão judicial.

Os registros da Presidência coincidem com informações encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro. Eles confirmam a presença dos envolvidos no Planalto, mas não comprovam, isoladamente, que as reuniões tenham tratado de atividades ilícitas.

Primeiro encontro ocorreu em março de 2024

O primeiro registro mostra que Vorcaro e Júlio Cezar entraram no Palácio do Planalto às 14h33 de 1º de março de 2024.

Na proposta de delação, o banqueiro afirmou que participou de uma reunião com Alexandre Padilha, o então secretário-executivo Olavo Noleto e outros interlocutores. Segundo Vorcaro, o ministro teria indicado que as tratativas com Noleto deveriam ser consideradas equivalentes a conversas com o próprio Padilha.

O banqueiro declarou:

“Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’”

Após o encontro, Vorcaro afirmou que recebeu Júlio, Olavo Noleto e o primo dele em sua residência, em Brasília. Segundo o relato, a conversa envolveu possíveis investimentos em três fundos de pensão: Previ, ligado ao Banco do Brasil; Petros, vinculado à Petrobras; e Postalis, responsável pela previdência complementar dos empregados dos Correios.

De acordo com o banqueiro, o acesso aos recursos dessas instituições estaria condicionado ao pagamento de propina equivalente a 10% dos valores captados.

Vorcaro relatou:

“Júlio, Olavo e seu primo foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’”

O empresário estimou que o plano poderia movimentar até R$ 10 bilhões. Aplicada a porcentagem mencionada sobre todo esse montante, a propina chegaria a R$ 1 bilhão.

Os valores e as condições descritos fazem parte da versão apresentada pelo banqueiro e ainda precisam ser comprovados.

Denúncia menciona pagamento de R$ 500 mil

Na proposta de delação, Vorcaro também afirmou que Júlio Cezar teria solicitado e recebido R$ 500 mil como adiantamento de propina após a autorização para o Banco Master operar com fundos de pensão.

Segundo o relato, o dinheiro teria sido repassado por meio de um contrato de fachada com outra empresa. O banqueiro afirmou que poderia apresentar documentos para sustentar as acusações.

A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República não aceitaram a proposta de delação nos termos apresentados e, segundo as informações divulgadas sobre o caso, não avançaram na investigação dessas denúncias por insuficiência de provas.

A rejeição da proposta não comprova que as acusações sejam falsas, assim como as declarações do banqueiro não constituem prova definitiva de que os crimes ocorreram.

Mensagens mostram articulação para nova reunião

O segundo registro aponta a entrada de Vorcaro e Júlio Cezar no Planalto em 3 de abril de 2024, às 17h29.

Mensagens recuperadas do celular do banqueiro mostram que os dois organizaram compromissos em Brasília nos dias anteriores. Em 28 de março, Júlio perguntou:

“Na terça, você iria a Brasília para outras reuniões também, né?”

Vorcaro respondeu:

“Não. Iria só para isso”

Em seguida, Júlio escreveu:

“Tá. Quando puder me dá uma ligada”

Em outra conversa, o banqueiro cobrou a confirmação dos compromissos:

“Amigo, estou precisando confirmar as agendas na terça. Está ficando em cima”

Vorcaro sugeriu transferir as reuniões para quarta-feira:

“Tenta marcar na quarta mesmo com a turma. Seria melhor pra mim.”

Júlio respondeu:

“Eu vou tentar tudo na quarta. Pode deixar.”

Em 1º de abril, o operador enviou outra mensagem:

“Daniel, após a reunião nossa na quarta vamos falar com o pessoal. Já deixa agenda aí pra isso. Pra ficar com tempo”

Segundo a versão apresentada por Vorcaro, a expressão “pessoal” era utilizada para se referir a Padilha e Olavo Noleto.

Na véspera da viagem, Júlio perguntou:

“Daniel, que horas você chega em Brasília amanhã? Porque quero dar opção de antes e depois pro pessoal finalizar.”

Vorcaro informou que chegaria por volta das 14h. O interlocutor respondeu:

“Já vou avisar”

A sequência das mensagens indica que havia uma articulação prévia para os encontros. O conteúdo, entretanto, não comprova por si só que as reuniões tenham resultado em acordos ilegais.

Visita ao Postalis antecedeu ida ao Planalto

As mensagens indicam que, ao chegar a Brasília em 3 de abril, Vorcaro foi primeiro à sede do Postalis, onde Júlio já o aguardava.

O operador escreveu:

“Tô aqui na sala esperando você. Pode subir.”

Depois desse compromisso, os registros oficiais indicam que os dois seguiram para o Palácio do Planalto.

Uma tabela do Banco Master encontrada no celular do empresário apontaria que as tratativas relacionadas ao Postalis tinham como objetivo viabilizar uma operação de pelo menos R$ 500 milhões com recursos do fundo.

O material mencionaria o uso de letras financeiras, títulos de dívida emitidos por instituições financeiras. A suspeita é que a operação poderia direcionar recursos do fundo para investimentos de interesse do banco. A regularidade da transação depende da análise dos documentos e das decisões dos responsáveis pela instituição.

As mensagens também indicariam tentativas de aproximar Vorcaro de dirigentes de outros fundos, ampliando as possibilidades de captação.

Indicação para a Funcef amplia questionamentos

O caso também envolve a influência atribuída a Alexandre Padilha sobre instituições de previdência complementar ligadas a empresas públicas.

Meses depois dos encontros registrados no Planalto, Richard Back, então chefe de gabinete de Padilha, foi indicado para a presidência da Funcef, fundo de pensão dos empregados da Caixa Econômica Federal.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicariam que o banqueiro já conhecia Back desde 2023, quando teria ocorrido um encontro no Planalto para tratar de investimentos. A reunião também constaria nos registros de acesso à Presidência.

Em julho de 2023, Padilha recebeu dirigentes da Previ, do Postalis, da Funcef e da Petros em uma reunião institucional.

Esses contatos, por si só, não comprovam irregularidades. A apuração precisa esclarecer se houve uso de influência política para favorecer interesses privados nas decisões de investimento dos fundos.

Encontros com Lula e outras suspeitas

Além das visitas acompanhadas por Júlio Cezar, Vorcaro esteve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2024, segundo as informações divulgadas sobre o caso. Esse encontro, contudo, não teria sido registrado na portaria da Presidência.

Mensagens também indicariam que o gabinete de Padilha tentou organizar uma reunião entre Lula e o banqueiro em outubro daquele ano, após um jantar na residência de Vorcaro, em Brasília.

A existência desses contatos levanta questionamentos sobre as relações entre o Banco Master e integrantes do governo federal, mas não demonstra automaticamente que Lula tenha participado ou tivesse conhecimento das supostas irregularidades.

Na proposta de delação, Vorcaro afirmou que as articulações perderam força depois que vieram a público questionamentos sobre uma operação de R$ 500 milhões envolvendo letras financeiras do Banco Master e a Caixa Econômica Federal.

Segundo o banqueiro, dois gestores da Caixa teriam sido afastados após emitir pareceres contrários à operação.

Em um dos anexos apresentados às autoridades, Vorcaro declarou:

“Com as matérias difundidas na imprensa em julho de 2024 sobre a suposta perda de cargo de gestores da Caixa Asset que teriam sido contrários ao investimento em LFs do Banco Master, o grupo de Padilha e os dirigentes da Petros, Postalis e BB preferiram segurar a decisão de fazer o investimento”

A declaração representa a versão do empresário sobre os motivos que levaram os fundos a adiar decisões de investimento. A alegação precisa ser confrontada com documentos e depoimentos dos responsáveis pelas instituições.

Vorcaro também atribuiu a Júlio Cezar e Olavo Noleto participação em articulações com outros fundos. Em uma das mensagens reproduzidas na proposta, Júlio teria escrito:

“Me fala o que conversaram porque, de noite, eu vou bater mais pesado”

O banqueiro ainda alegou que o grupo ligado a Padilha teria recebido R$ 6 milhões em propina por sua atuação para viabilizar captações junto a um fundo municipal. Essa acusação também não foi estabelecida como fato comprovado.

Citados negam irregularidades

Júlio Cezar não teria respondido às tentativas de contato por telefone e por escrito. Alexandre Padilha divulgou uma nota na semana anterior à publicação do relato, na qual refutou as acusações. Olavo Noleto também negou envolvimento em irregularidades.

Os registros de acesso ao Planalto e as mensagens recuperadas do celular de Vorcaro fornecem elementos para esclarecer a sequência dos encontros e as articulações mencionadas pelo banqueiro. O ponto central, contudo, é determinar se houve favorecimento indevido, pagamentos ilegais ou utilização de recursos previdenciários em operações irregulares.

Até o momento descrito nas informações disponíveis, não há conclusão judicial definitiva que comprove a participação dos citados em um esquema de corrupção envolvendo os fundos de pensão.

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