Esquema que começou com três aplicações passou para duas para adolescentes mais jovens; novos estudos agora levantam a possibilidade de proteção semelhante com apenas uma dose
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) está novamente no centro de uma discussão científica que pode modificar a forma como adolescentes são imunizados contra um vírus associado a diversos tipos de câncer.
Nos Estados Unidos, a recomendação oficial continua sendo de duas doses para crianças e adolescentes que iniciam a vacinação entre 9 e 14 anos. A segunda aplicação deve ocorrer de seis a 12 meses depois da primeira. Para quem começa a vacinação a partir dos 15 anos, são recomendadas três doses. Pessoas imunocomprometidas também devem receber três doses, independentemente da idade em que iniciam o esquema entre 9 e 26 anos.
Ao mesmo tempo, pesquisas recentes vêm indicando que uma única dose pode oferecer uma proteção muito elevada contra infecções persistentes por HPV, especialmente em meninas adolescentes. Esses resultados fizeram com que especialistas passassem a discutir se o esquema atual poderia ser simplificado no futuro.
HPV está relacionado a dezenas de milhares de casos de câncer
O HPV é um grupo de vírus muito comum. Na maioria das vezes, a infecção desaparece espontaneamente, mas algumas infecções persistentes podem provocar alterações celulares que, anos depois, evoluem para câncer.
Segundo dados mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), cerca de 49.908 novos casos anuais são registrados nos Estados Unidos em regiões do corpo onde o HPV é frequentemente encontrado. Desse total, aproximadamente 39.300 casos são provavelmente atribuíveis ao HPV.
Entre os tumores associados ao vírus estão os cânceres do colo do útero, vagina, vulva, pênis, ânus e orofaringe — região que inclui a parte posterior da garganta, a base da língua e as amígdalas.
A vacinação tem justamente o objetivo de impedir a infecção pelos tipos de HPV com maior potencial de causar câncer antes que ocorra a exposição ao vírus.
Como era o esquema de vacinação no início
Quando a primeira vacina contra HPV foi licenciada nos Estados Unidos, em 2006, a recomendação era diferente da atual.
Naquele momento, o esquema consistia em três doses e a vacinação de rotina era direcionada principalmente às meninas de 11 e 12 anos. Em 2011, a recomendação de vacinação de rotina foi ampliada para incluir também os meninos.
A mudança refletiu o reconhecimento de que o HPV não está relacionado apenas ao câncer do colo do útero. O vírus também pode provocar cânceres que afetam homens, incluindo tumores de orofaringe, ânus e pênis, além de verrugas genitais.
Em 2016, três doses passaram a ser duas para os mais jovens
Uma das principais mudanças aconteceu em 2016.
Depois da análise de estudos que demonstraram uma resposta imunológica comparável entre determinados grupos, o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização dos Estados Unidos, o ACIP, recomendou que crianças e adolescentes que começassem a vacinação antes dos 15 anos recebessem duas doses, em vez de três.
A segunda dose deveria ser aplicada entre seis e 12 meses depois da primeira. Para quem começasse a vacinação aos 15 anos ou mais, o esquema de três doses continuou sendo recomendado.
A mudança tornou o calendário mais simples e reduziu uma visita ao serviço de saúde, sem comprometer a proteção esperada para os adolescentes que iniciavam a vacinação na faixa etária indicada.
Por que uma única dose entrou na discussão?
A discussão mais recente surgiu principalmente por causa de estudos realizados em países que passaram a investigar se uma única aplicação poderia ser suficiente para proporcionar proteção duradoura contra o HPV.
Um dos trabalhos mais importantes foi o ensaio clínico ESCUDDO, realizado na Costa Rica e publicado no New England Journal of Medicine em 2025.
O estudo acompanhou 20.330 meninas de 12 a 16 anos durante cinco anos. Os pesquisadores observaram que uma dose das vacinas estudadas apresentou pelo menos 97% de eficácia contra infecção cervical persistente por HPV, resultado semelhante ao observado com esquemas de duas doses no estudo.
O resultado não significa que uma dose já esteja comprovadamente substituindo duas doses para todas as pessoas. A principal questão é determinar até que ponto os resultados podem ser aplicados a diferentes populações, faixas etárias, sexos e tipos de câncer relacionados ao HPV.
OMS já admite esquema de uma dose em determinados grupos
A discussão não é exclusiva dos Estados Unidos.
Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) atualizou sua posição sobre a vacinação contra HPV e passou a admitir um esquema alternativo de dose única para meninas de 9 a 14 anos. A organização também estabeleceu recomendações específicas para outras faixas etárias.
A decisão foi influenciada pela necessidade de ampliar a cobertura mundial da vacinação. Em muitos países, dificuldades de acesso aos serviços de saúde fazem com que meninas recebam a primeira dose, mas não retornem para completar o esquema.
A possibilidade de proteger uma pessoa com apenas uma aplicação poderia, portanto, facilitar campanhas de vacinação e aumentar o número de pessoas imunizadas.
A OMS ressalta, entretanto, que pessoas imunocomprometidas, incluindo aquelas que vivem com HIV, precisam de atenção especial e devem receber pelo menos duas doses e, quando possível, três.
E qual é a recomendação atualmente nos Estados Unidos?
Apesar dos estudos favoráveis à dose única, o calendário oficial americano ainda não foi substituído por um esquema de apenas uma dose.
Atualmente, o CDC recomenda:
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9 a 14 anos: duas doses, com intervalo de seis a 12 meses;
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15 a 26 anos: três doses;
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pessoas imunocomprometidas de 9 a 26 anos: três doses;
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adultos de 27 a 45 anos: a vacinação pode ser considerada individualmente, por meio de decisão compartilhada com um profissional de saúde.
A vacinação de rotina é indicada aos 11 ou 12 anos, mas pode começar a partir dos 9 anos.
A razão para priorizar a vacinação nessa fase é que a vacina funciona melhor quando administrada antes da exposição ao HPV. Ela previne novas infecções, mas não trata uma infecção já existente.
Por que não simplesmente mudar para uma dose?
A resposta envolve mais do que verificar se uma dose produz anticorpos.
Os pesquisadores precisam avaliar a duração da proteção, a eficácia contra diferentes tipos de HPV e a capacidade de prevenir diferentes doenças relacionadas ao vírus.
Também existem lacunas de evidências. Os resultados mais fortes sobre dose única estão relacionados principalmente à prevenção de infecção persistente por HPV e ao câncer do colo do útero. Ainda há necessidade de mais dados para determinar se uma única dose oferece proteção equivalente contra outros cânceres associados ao HPV e em diferentes grupos populacionais.
Por isso, especialistas consideram que a questão ainda precisa ser analisada antes de uma eventual mudança nas recomendações americanas.
A proteção contra o HPV já demonstrou resultados importantes
Independentemente da discussão sobre uma ou duas doses, há evidências robustas de que a vacinação contra HPV funciona.
O CDC estima que aproximadamente 36.400 dos cânceres associados ao HPV registrados anualmente nos Estados Unidos poderiam ser prevenidos pela vacina nonavalente, que protege contra nove tipos do vírus.
Estudos também mostram reduções importantes nas infecções pelos tipos de HPV cobertos pela vacina, nas verrugas genitais e em lesões pré-cancerosas.
A vacinação, portanto, não deve ser interpretada apenas como uma forma de prevenir uma infecção sexualmente transmissível. Trata-se de uma estratégia de prevenção de câncer.
O que pode acontecer daqui para frente
A discussão sobre o número de doses deve continuar à medida que novos estudos acompanham pessoas vacinadas durante períodos mais longos.
Se os resultados de diferentes pesquisas confirmarem que uma única dose mantém proteção elevada por muitos anos e contra diferentes manifestações da infecção, autoridades de saúde poderão avaliar mudanças nos calendários.
Por enquanto, nos Estados Unidos, a orientação oficial permanece clara: adolescentes que começam a vacinação contra HPV antes dos 15 anos devem receber duas doses, enquanto aqueles que iniciam a partir dos 15 anos precisam de três, salvo situações específicas previstas nas recomendações.
A possível adoção de uma dose única representa uma discussão científica importante, mas não deve ser confundida com uma mudança já estabelecida no calendário americano.
Enquanto essa avaliação continua, especialistas reforçam um ponto que permanece inalterado: receber a vacina contra o HPV na idade recomendada continua sendo uma das principais formas de prevenir infecções que podem, décadas depois, levar ao desenvolvimento de câncer.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
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