Banco paraguaio administrava US$ 850 milhões em dinheiro público

Crise no Ueno Bank, que atendia quase 3 milhões de clientes, provoca renúncia de Santiago Peña e abala o Paraguai

Por Ana Raquel |GNEWSUSA 

O Paraguai enfrenta uma das maiores crises financeiras e institucionais de sua história recente após a intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, uma instituição financeira digital que administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos. O episódio provocou uma onda de questionamentos sobre a fiscalização do sistema bancário, a segurança do dinheiro público e as relações entre o setor financeiro e o governo do presidente Santiago Peña.

A crise ganhou proporções ainda maiores porque o banco possuía aproximadamente 3 milhões de clientes, número equivalente a quase metade da população paraguaia, estimada em 6,5 milhões de habitantes. Com a intervenção das autoridades monetárias, milhares de correntistas ficaram sem acesso aos próprios recursos, enquanto o futuro dos depósitos públicos e previdenciários passou a ser uma das principais preocupações do país.

Banco Central identifica grave problema de solvência

A crise foi desencadeada oficialmente na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai anunciou a abertura de um procedimento de resolução do Ueno Bank.

A decisão foi tomada depois que uma avaliação técnica identificou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.

A solvência é um dos principais indicadores de segurança de uma instituição financeira. Ela demonstra a capacidade de um banco de manter capital suficiente para enfrentar riscos e possíveis perdas sem comprometer os recursos de seus clientes.

Quando esse indicador apresenta uma deterioração grave, a instituição pode deixar de oferecer garantias adequadas para suas operações, colocando em risco depositantes e credores.

Diante da situação, o Banco Central assumiu o controle do processo de resolução, com o objetivo de avaliar os ativos, identificar as obrigações financeiras e buscar alternativas para proteger os depositantes.

A medida também provocou a paralisação de serviços bancários, deixando clientes sem acesso normal às contas, transferências e pagamentos.

US$ 850 milhões em dinheiro público estão no centro da crise

Um dos aspectos mais preocupantes do caso é o volume de recursos públicos que estavam depositados na instituição.

O Ueno Bank administrava aproximadamente US$ 850 milhões pertencentes ao setor público paraguaio. Parte significativa desse montante estava relacionada a fundos previdenciários e recursos destinados à seguridade social.

Entre os valores envolvidos estão depósitos do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência e pela assistência social dos trabalhadores paraguaios.

Também existem recursos vinculados a outras instituições e entidades públicas.

A situação levantou preocupações sobre a segurança das reservas destinadas a compromissos do Estado, especialmente aqueles relacionados ao pagamento de aposentadorias e benefícios previdenciários.

O caso ganhou ainda mais repercussão porque recursos públicos estavam concentrados em uma instituição que posteriormente apresentou graves problemas de solvência.

Agora, as autoridades precisam esclarecer quanto efetivamente poderá ser recuperado, quais são as condições financeiras do banco e como será realizada a restituição dos valores pertencentes ao poder público.

Relações de Santiago Peña com o grupo controlador ampliam questionamentos

A crise também atingiu diretamente o governo paraguaio devido à relação anterior de Santiago Peña com o grupo empresarial controlador do banco.

O presidente foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025.

Embora o vínculo acionário tenha sido encerrado antes da intervenção, a ligação empresarial passou a ser questionada diante da dimensão dos recursos públicos envolvidos e da situação financeira da instituição.

Outro ponto que aumentou a pressão política foi a relação entre o governo e a direção do Banco Central.

Na terça-feira (3), Peña solicitou a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central paraguaio. Carvallo deixou o cargo em meio à repercussão da intervenção e às críticas sobre a condução da fiscalização bancária.

A saída do dirigente ampliou os questionamentos sobre a independência das autoridades responsáveis pela supervisão do sistema financeiro.

Investigação criminal e prisão de dirigentes

Além das consequências financeiras e políticas, o caso passou a ser investigado pelas autoridades judiciais paraguaias.

O Ministério Público determinou medidas contra dirigentes e pessoas ligadas à instituição, diante de suspeitas de irregularidades na administração do banco.

As investigações também envolvem operações de crédito consideradas problemáticas, incluindo empréstimos concedidos a empresas relacionadas aos proprietários do grupo controlador.

O objetivo é esclarecer se houve irregularidades na concessão de empréstimos, falhas na apresentação das informações contábeis ou outras práticas que possam ter contribuído para o agravamento da situação financeira.

O caso também levou ao congelamento de ativos e à adoção de medidas judiciais para preservar recursos enquanto as investigações avançam.

Até o momento, as suspeitas precisam ser apuradas pelas autoridades competentes, com garantia do direito de defesa dos investigados.

Crise provoca renúncia de Santiago Peña

A repercussão do caso ultrapassou o setor financeiro e transformou a situação em uma grave crise política.

Nesta quinta-feira (5), Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência do Paraguai, depois de enfrentar pressão crescente da oposição, manifestações populares e questionamentos dentro de seu próprio grupo político.

A Câmara dos Deputados também aprovou, por 78 votos a zero, o encaminhamento de um processo de impeachment contra o presidente. A decisão ocorreu após o anúncio da renúncia e levou a crise para uma nova etapa institucional.

O vice-presidente Pedro Alliana passou a ser apontado como sucessor de Peña, conforme os procedimentos constitucionais de transição.

A crise colocou em evidência a necessidade de esclarecer as circunstâncias que permitiram a concentração de tantos recursos públicos em uma instituição que acabou apresentando problemas graves de solvência.

Caso lembra o Banco Master no Brasil

A situação do Ueno Bank também chama atenção no Brasil por apresentar semelhanças com o caso do Banco Master, que teve sua liquidação determinada pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025.

Nos dois episódios, instituições financeiras de grande repercussão enfrentaram problemas que provocaram questionamentos sobre fiscalização, exposição de recursos e proteção dos depositantes.

A comparação também chama atenção para a importância de mecanismos rigorosos de controle sobre instituições que recebem grandes volumes de dinheiro e mantêm relações financeiras com empresas e entidades públicas.

Entretanto, os dois casos possuem características próprias e não devem ser tratados como situações juridicamente idênticas.

No Paraguai, a crise ganhou uma dimensão política particularmente expressiva porque atingiu diretamente o governo, provocou a saída do presidente do Banco Central e culminou na renúncia do chefe de Estado.

Segurança do dinheiro público entra no centro do debate

O episódio deixa um alerta sobre a responsabilidade das autoridades na fiscalização das instituições financeiras e na administração dos recursos pertencentes à população.

A concentração de aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos no Ueno Bank tornou a crise ainda mais delicada, principalmente pela presença de recursos previdenciários.

Além de recuperar a confiança dos correntistas, o Paraguai terá de esclarecer como a instituição chegou a uma situação tão grave, quais foram as falhas de fiscalização e quem deverá responder por eventuais irregularidades.

O desfecho do caso será acompanhado de perto pelo mercado financeiro e por outros países da região, especialmente pelo impacto que uma crise dessa dimensão pode provocar na confiança dos investidores e na credibilidade das instituições públicas.

A principal cobrança agora é por transparência, responsabilização e proteção do dinheiro dos cidadãos. Afinal, quando recursos públicos e reservas previdenciárias são colocados em risco, a população tem o direito de saber como isso aconteceu e quem será responsabilizado.

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