Gastômetro aponta R$ 405 bilhões em medidas de Lula em ano eleitoral

Ferramenta do Estadão contabiliza 46 iniciativas anunciadas ou ampliadas pelo governo federal em 2026; especialistas alertam para impactos nas contas públicas, enquanto Planalto contesta classificação de gastos eleitorais
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou a disputa pela reeleição em 2026 com um conjunto de medidas econômicas e sociais que alcançou R$ 405 bilhões, segundo levantamento do Gastômetro, ferramenta criada pelo jornal O Estado de S. Paulo para acompanhar os impactos financeiros de iniciativas anunciadas ou ampliadas pelo governo federal durante o ano eleitoral.

O valor reúne 46 medidas de diferentes naturezas, incluindo programas sociais, linhas de crédito, subsídios, financiamentos, benefícios tributários e despesas com publicidade institucional. O levantamento ganhou destaque após a campanha eleitoral e levantou questionamentos sobre o impacto das iniciativas nas contas públicas e sobre o uso de políticas econômicas em períodos próximos às eleições.

A cifra, entretanto, não representa exclusivamente dinheiro efetivamente pago pelo governo. O cálculo considera impactos orçamentários autorizados ou estimados oficialmente, incluindo operações de crédito, renúncias de arrecadação e compromissos financeiros que podem se estender para 2027.

A atualização dos números foi divulgada em 28 de outubro de 2026, depois de uma sequência de anúncios feitos por Lula durante a campanha, entre eles reajustes de benefícios sociais, programas de renegociação de dívidas, incentivos a microempreendedores e propostas de gratuidade no transporte público.

Como os R$ 405 bilhões foram calculados

De acordo com o levantamento do Estadão, os valores estão distribuídos em cinco grandes grupos. A maior parcela corresponde a créditos e subvenções destinados a diferentes setores da economia.

Entre as iniciativas contabilizadas estão financiamentos para motoristas de aplicativos e taxistas, apoio a exportadores, incentivos à construção habitacional, subsídios aos combustíveis e programas de renegociação de dívidas.

A distribuição apresentada pelo levantamento inclui:

  • R$ 198,6 bilhões: créditos e subvenções para setores econômicos e categorias profissionais;
  • R$ 81,6 bilhões: benefícios sociais e programas governamentais;
  • R$ 73,2 bilhões: renúncias de receitas e benefícios tributários;
  • R$ 51,1 bilhões: programas e operações realizados fora do Orçamento tradicional;
  • R$ 840 milhões: publicidade institucional da Presidência da República.

O levantamento considera iniciativas implementadas ou ampliadas em 2026. Para programas já existentes, foram incluídos impactos financeiros de 2026 e 2027. Para novos benefícios, foram utilizadas estimativas de custo de um ano.

Especialistas alertam para impacto fiscal

O volume de medidas provocou preocupação entre economistas ouvidos pelo Estadão. Uma das principais questões levantadas é a possibilidade de que parte dos compromissos financeiros assumidos durante o ano eleitoral pressione o orçamento dos próximos exercícios.

A economista Selene Nunes, ex-secretária de Fazenda de Goiás e uma das autoras da Lei de Responsabilidade Fiscal, avaliou que a ampliação de programas, subsídios e benefícios reduz o espaço fiscal e pode aumentar o endividamento público.

Segundo a especialista, operações de crédito subsidiado também produzem custos econômicos, mesmo quando não aparecem imediatamente como despesas tradicionais no orçamento.

O consultor de Orçamentos do Senado Federal Daniel Couri também apontou preocupação com a expansão das medidas e seus possíveis efeitos sobre a necessidade de ajuste fiscal.

Outro alerta partiu de Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado. Ele avaliou que o aumento de despesas obrigatórias pode reduzir a capacidade do governo de realizar investimentos em infraestrutura, saneamento, transportes e outras áreas.

A preocupação central dos especialistas é que os compromissos assumidos em 2026 continuem produzindo efeitos financeiros nos anos seguintes, dificultando o equilíbrio das contas públicas.

Debate sobre as contas públicas continuará em 2027

A discussão sobre o tamanho dos compromissos financeiros assumidos em 2026 deverá continuar no próximo ano, principalmente em razão dos efeitos sobre o orçamento federal e a trajetória da dívida pública.

Além dos gastos diretos, operações de crédito, subsídios e renúncias tributárias podem produzir consequências fiscais que não aparecem imediatamente nas despesas tradicionais do governo.

O Ministério da Fazenda, por sua vez, afirmou que os valores anunciados não representam integralmente despesas adicionais no orçamento de 2027. Segundo a pasta, os ajustes necessários serão encaminhados ao Congresso e deverão respeitar as metas fiscais e as regras do arcabouço fiscal.

O levantamento do Gastômetro, portanto, coloca em evidência uma discussão que vai além do período eleitoral: o custo das políticas públicas, a origem dos recursos utilizados e a capacidade do governo de manter benefícios e investimentos sem comprometer o equilíbrio das contas públicas.

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