Itamaraty afirmou que a reunião poderia configurar ingerência externa em assuntos internos do Brasil
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), voltou atrás em sua própria decisão e negou a autorização para que Darren Beattie, assessor sênior do governo do presidente americano Donald Trump para assuntos ligados ao Brasil, visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro na unidade prisional da Papuda, em Brasília.
A mudança de entendimento ocorreu após manifestação do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), que alertou ao Supremo que o encontro poderia ser interpretado como interferência externa em assuntos internos do Estado brasileiro.
A posição foi formalizada em um ofício encaminhado ao STF a pedido do próprio Moraes, que solicitou esclarecimentos sobre a agenda diplomática do representante americano no país.
Na nova decisão, o ministro afirmou que a visita solicitada pela defesa de Bolsonaro não se enquadra no contexto diplomático que justificou a concessão do visto a Beattie para ingressar no Brasil.
“A realização da visita […] não está inserida no contexto diplomático que autorizou a concessão do visto e seu ingresso no território brasileiro, além de não ter sido comunicada previamente às autoridades diplomáticas brasileiras”, registrou Moraes.
O magistrado também apontou que a situação poderia inclusive levar à reavaliação do visto concedido ao assessor americano, caso fosse caracterizado desvio da finalidade diplomática da viagem.
Autorização havia sido concedida dias antes
A decisão surpreende porque, poucos dias antes, o próprio Moraes havia autorizado o encontro. Na terça-feira (10), o ministro permitiu que Darren Beattie visitasse Bolsonaro no dia 18 de março, entre 8h e 10h da manhã, dentro da unidade prisional conhecida como Papudinha.
O pedido havia sido apresentado pelos advogados do ex-presidente, que argumentaram que o assessor americano cumpriria agenda oficial no Brasil por curto período, o que inviabilizaria a visita nos dias tradicionais de visitação do presídio.
De acordo com a defesa, Beattie estaria em Brasília por um intervalo limitado e, por isso, solicitou que o encontro fosse autorizado em datas alternativas, como 16 ou 17 de março.
Regra do presídio foi citada na decisão
Apesar de inicialmente autorizar a visita em caráter excepcional, Moraes destacou em sua decisão que não existe previsão legal para alterar o calendário de visitas de forma personalizada.
Segundo o ministro, os visitantes devem se adequar às regras do estabelecimento prisional, e não o contrário, argumentando que o regime de visitas busca preservar a organização administrativa e a segurança da unidade.
Após a negativa final, os advogados de Bolsonaro apresentaram um novo pedido ao Supremo, insistindo na possibilidade de realização do encontro na data originalmente solicitada.
Quem é Darren Beattie
Darren Beattie foi nomeado recentemente pelo governo Donald Trump para conduzir políticas e ações relacionadas ao Brasil dentro da estratégia diplomática de Washington para a América Latina.
Segundo informações divulgadas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, Beattie tem como uma de suas prioridades a promoção da liberdade de expressão como instrumento diplomático, além de defender o uso da influência cultural americana — nas artes, música e academia — para fortalecer a segurança e os interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Nos últimos anos, o assessor também se tornou conhecido por críticas públicas ao ministro Alexandre de Moraes. Em 2025, ele afirmou que o magistrado seria o “coração pulsante” de um complexo de perseguição e censura contra Bolsonaro, declaração que repercutiu amplamente entre apoiadores do ex-presidente.
Episódio amplia tensão política
A decisão de Moraes de recuar após ter autorizado a visita gerou novo capítulo na já intensa disputa política e jurídica envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para aliados do ex-presidente, o episódio reforça críticas de que há restrições excessivas ao contato de Bolsonaro com aliados e interlocutores internacionais.
Nos bastidores de Brasília, o caso também evidencia o peso que a questão internacional pode ter nas disputas políticas brasileiras, especialmente em um momento em que as relações entre setores da direita brasileira e aliados políticos nos Estados Unidos seguem sob forte atenção.
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