Estudo utiliza tecnologias de DNA e RNA mensageiro e pode abrir caminho para prevenção e tratamento mais eficaz da enfermidade
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Brasília está avançando no desenvolvimento de uma vacina inovadora contra a doença de Chagas, enfermidade negligenciada que ainda afeta milhões de pessoas, sobretudo na América Latina. O projeto conta com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal e aposta em tecnologias modernas de DNA e RNA mensageiro para prevenir e até tratar a doença.
Coordenado pela pesquisadora Izabela Marques Dourado Bastos, do Instituto de Ciências Biológicas da UnB, o estudo busca estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater o protozoário Trypanosoma cruzi, responsável pela infecção.
A proposta científica combina duas abordagens: o uso de vacinas de DNA, que apresentam maior estabilidade e custo reduzido, e de RNA mensageiro, tecnologia que ganhou destaque global durante a pandemia de Covid-19 por sua capacidade de induzir respostas imunológicas rápidas e robustas. Juntas, essas estratégias funcionam como “instruções” para que o organismo produza fragmentos do parasita, treinando o sistema de defesa para reagir a uma futura infecção.
A doença de Chagas é transmitida principalmente pelo inseto popularmente conhecido como barbeiro, mas também pode ocorrer por ingestão de alimentos contaminados, transfusões sanguíneas, transplantes de órgãos e transmissão congênita. Muitas vezes silenciosa na fase inicial, a enfermidade pode evoluir para quadros crônicos graves, comprometendo o coração e o sistema digestivo.
Segundo a coordenadora do estudo, o objetivo é ampliar as opções terapêuticas disponíveis. Atualmente, os tratamentos existentes apresentam limitações, especialmente em fases mais avançadas da doença. “Buscamos alternativas inovadoras que possam atuar tanto na prevenção quanto como estratégia terapêutica”, destaca a pesquisadora.
O projeto também tem papel estratégico na formação de novos cientistas, envolvendo estudantes de diferentes níveis acadêmicos, desde a iniciação científica até o pós-doutorado. Com investimento de aproximadamente R$ 1 milhão, os recursos da FAPDF têm viabilizado a aquisição de insumos e a manutenção da infraestrutura laboratorial necessária para os experimentos.
A pesquisa dá continuidade a estudos anteriores da equipe, que identificaram proteínas essenciais para a sobrevivência do parasita — agora utilizadas como alvos para o desenvolvimento da vacina. Atualmente, os testes estão em fase pré-clínica, com experimentos em modelos animais para avaliar a eficácia na geração de anticorpos e ativação das células de defesa.
Caso os resultados se confirmem nas próximas etapas, o avanço pode representar um marco no enfrentamento da doença de Chagas, considerada um problema de saúde pública associado principalmente a regiões de maior vulnerabilidade social no Brasil, especialmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Especialistas apontam que iniciativas como essa reforçam a importância do investimento contínuo em ciência e inovação no país, sobretudo em doenças negligenciadas, que historicamente recebem menos atenção da indústria farmacêutica global.
O estudo ainda precisa avançar para fases clínicas em humanos, mas já desponta como uma das apostas mais promissoras da pesquisa brasileira na busca por soluções mais eficazes contra a doença.
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