Revisão inédita de três décadas mostra que uso diário de dispositivos digitais ultrapassou 4 horas e intensificou riscos ao bem-estar de crianças e adolescentes
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
O tempo que crianças e adolescentes passam diante de telas atingiu níveis recordes nas últimas três décadas, com um crescimento ainda mais acelerado após a pandemia de COVID-19. A constatação faz parte de uma revisão sistemática internacional publicada na revista científica Clinical Child Psychology and Psychiatry, que analisou dados de 60 estudos realizados entre 1991 e 2022.
A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade de Turku e é considerada a primeira análise abrangente a comparar o comportamento de uso de telas antes e depois da pandemia entre jovens de até 19 anos. Os resultados indicam uma mudança significativa tanto na quantidade quanto no tipo de dispositivos utilizados ao longo do tempo.
Antes da pandemia, o tempo médio diário de exposição às telas já apresentava tendência de alta, girando em torno de três horas por dia. No entanto, com o isolamento social e a migração de atividades escolares e sociais para o ambiente digital, esse número saltou para mais de quatro horas diárias — um aumento considerado expressivo pelos pesquisadores.
Segundo a autora principal do estudo, Yuko Mori, a transformação mais marcante ocorreu com a substituição gradual da televisão por dispositivos móveis, como smartphones e tablets. “Essas tecnologias portáteis facilitam o uso contínuo e aumentam o risco de consumo excessivo”, apontou a pesquisadora.
A coautora Sanju Silwal destaca que fatores próprios da adolescência ajudam a explicar esse comportamento. De acordo com ela, a fase é marcada pela intensificação das relações sociais e pela busca por pertencimento — aspectos que hoje se estendem ao ambiente digital, incluindo redes sociais e interações online.
O estudo também revela que o aumento do tempo de tela ocorre em todas as camadas sociais, embora seja mais acentuado entre jovens de maior nível socioeconômico, devido ao acesso facilitado a dispositivos pessoais e conexão constante à internet.
Especialistas alertam que o crescimento do uso de telas vai além de uma mudança de hábito e representa um desafio de saúde pública. Entre os principais riscos estão a exposição a conteúdos inadequados, episódios de cyberbullying, discursos de ódio e padrões irreais de comparação social.
Além disso, há impactos diretos no desenvolvimento físico e mental. Pesquisas associam o uso excessivo de dispositivos digitais a distúrbios do sono, redução da atividade física, dificuldades de concentração e aumento de sintomas de ansiedade e depressão.
O período pós-pandemia consolidou as telas como parte central da rotina de jovens, seja para estudo, entretenimento ou interação social. Diante desse cenário, especialistas defendem a necessidade de equilíbrio, com limites claros de uso, incentivo a atividades offline e acompanhamento ativo por parte de pais e educadores.
A revisão reforça que, embora a tecnologia seja uma ferramenta essencial na vida contemporânea, seu uso excessivo — especialmente em fases críticas do desenvolvimento — exige atenção redobrada para evitar consequências de longo prazo.
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