Consórcio reúne instituições de sete países para testar nova vacina contra a doença transmitida pelo Aedes aegypti e ampliar a capacidade global de resposta a epidemias
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma iniciativa científica internacional envolvendo sete países, entre eles o Brasil, pretende acelerar o desenvolvimento de uma nova vacina contra a chikungunya, doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti que afeta milhões de pessoas em regiões tropicais e subtropicais do mundo.
Batizado de ACT-CHIK (Accelerating Clinical Trials for CHIKungunya Vaccine in Africa), o projeto será coordenado pelo Instituto Pasteur, da França, e contará com investimentos de 15,3 milhões de euros, o equivalente a cerca de R$ 92 milhões. O objetivo é concluir etapas decisivas dos testes clínicos de uma vacina promissora e, paralelamente, fortalecer a produção de imunizantes no continente africano.
A iniciativa surge em um momento de crescente preocupação internacional com o avanço da chikungunya. Nas últimas duas décadas, a doença registrou aumento significativo em diversos países africanos, asiáticos e latino-americanos, impulsionado pela expansão geográfica dos mosquitos transmissores e pelos efeitos das mudanças climáticas.
Doença continua avançando em diversas regiões do mundo
A chikungunya é uma infecção viral transmitida principalmente pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, os mesmos responsáveis pela transmissão da dengue, zika e febre amarela.
Os sintomas costumam surgir entre quatro e oito dias após a infecção e incluem febre alta, dores intensas nas articulações, fadiga, dores musculares, dor de cabeça e erupções cutâneas.
Embora a maioria dos pacientes se recupere, uma das principais preocupações dos especialistas é a persistência das dores articulares, que podem durar meses ou até anos, comprometendo significativamente a qualidade de vida e a capacidade laboral dos pacientes.
Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, a chikungunya ainda é considerada uma doença negligenciada em diversas regiões do mundo, especialmente na África, onde muitos casos sequer chegam a ser diagnosticados ou notificados oficialmente.
Vacina será testada em quatro países africanos
O principal foco do ACT-CHIK é o desenvolvimento clínico da vacina MV-CHIK, criada a partir da cepa Schwarz do vírus do sarampo.
Trata-se de uma vacina viva atenuada e recombinante, construída sobre uma plataforma tecnológica já utilizada em outros imunizantes desenvolvidos pelo Instituto Pasteur.
Antes de chegar à nova etapa, a vacina já passou por seis estudos clínicos de fases I e II realizados na Europa, nos Estados Unidos e em Porto Rico. Aproximadamente 600 voluntários participaram dessas pesquisas, que apresentaram resultados considerados positivos em relação à segurança, tolerabilidade e capacidade de estimular resposta imunológica.
Agora, os pesquisadores avançam para uma fase mais ampla dos testes.
O ensaio clínico deverá envolver 940 participantes em Ruanda, Quênia, Nigéria e Senegal. Os voluntários incluirão adultos entre 18 e 55 anos, adolescentes de 12 a 17 anos e crianças de 5 a 11 anos, permitindo uma avaliação abrangente da eficácia e da segurança da vacina em diferentes faixas etárias.
Além disso, os estudos serão realizados tanto em áreas consideradas endêmicas quanto em regiões com menor circulação do vírus, ampliando a qualidade dos dados científicos coletados.
Brasil terá papel estratégico no projeto
A participação brasileira ocorrerá por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das mais importantes instituições de pesquisa em saúde da América Latina.
A Fiocruz será responsável pela preparação dos materiais utilizados nos ensaios clínicos e contribuirá com sua ampla experiência em desenvolvimento, produção e transferência de tecnologia de vacinas.
A participação brasileira é considerada estratégica pelos coordenadores do projeto devido ao histórico da instituição em programas de imunização e em parcerias internacionais voltadas ao fortalecimento dos sistemas de saúde.
O envolvimento da Fiocruz também reforça a posição do Brasil como um dos principais polos de pesquisa biomédica do hemisfério sul e amplia a cooperação científica entre países da África, Europa e América Latina.
Produção local de vacinas é uma das prioridades
Além dos estudos clínicos, o ACT-CHIK possui um importante componente voltado à independência sanitária africana.
Os organizadores pretendem preparar a transferência da tecnologia de fabricação da vacina para o Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, considerado atualmente o único fabricante de vacinas do continente africano com pré-qualificação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A iniciativa está alinhada ao plano da União Africana de produzir localmente 60% das vacinas utilizadas no continente até 2040.
A pandemia de Covid-19 evidenciou a dependência de muitos países africanos em relação às importações de imunizantes. Por isso, especialistas consideram fundamental ampliar a capacidade regional de pesquisa, desenvolvimento e fabricação de vacinas.
Cooperação internacional para futuras emergências
O consórcio reúne instituições científicas e médicas da França, Brasil, Ruanda, Senegal, Nigéria, Quênia e Coreia do Sul.
Além de avaliar a eficácia de uma nova vacina contra a chikungunya, os pesquisadores pretendem fortalecer a infraestrutura de pesquisa clínica, os sistemas regulatórios e a capacidade de resposta a futuras epidemias.
O projeto terá duração de quatro anos, entre maio de 2026 e abril de 2030.
Para os coordenadores da iniciativa, o ACT-CHIK representa mais do que o desenvolvimento de um novo imunizante. O programa busca criar uma rede internacional de colaboração científica capaz de responder de forma mais rápida e eficiente a ameaças emergentes à saúde global.
Com a expansão das doenças transmitidas por mosquitos em diferentes regiões do planeta, especialistas acreditam que o avanço das pesquisas e a ampliação do acesso às vacinas serão fundamentais para reduzir o impacto social, econômico e sanitário dessas enfermidades nas próximas décadas.
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