AVC em crianças é raro, mas pode deixar sequelas permanentes e exige atendimento imediato

Pela primeira vez, especialistas dos Estados Unidos publicam recomendações específicas para o AVC pediátrico, reforçando a necessidade de reconhecer os sinais precocemente e ampliar o acesso a exames e tratamentos que podem salvar vidas
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Embora seja amplamente associado à população adulta e aos idosos, o acidente vascular cerebral (AVC) também pode atingir bebês, crianças e adolescentes. Apesar de raro, o AVC pediátrico representa uma emergência médica capaz de provocar sequelas neurológicas permanentes, comprometendo a fala, os movimentos, a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo. Diante dos desafios para o diagnóstico precoce, novas diretrizes publicadas nos Estados Unidos estabelecem, pela primeira vez, orientações específicas para crianças, destacando a importância de reconhecer rapidamente os sintomas, realizar exames de imagem de forma urgente e adotar tratamentos adequados para reduzir o risco de incapacidades e mortes.

O documento, elaborado pela American Heart Association (AHA) e pela American Stroke Association (ASA), representa um marco no cuidado do AVC pediátrico, uma condição frequentemente subdiagnosticada devido à falsa percepção de que o problema ocorre apenas em adultos.

Uma condição rara, mas potencialmente devastadora

Segundo especialistas, o AVC em crianças é incomum, mas seus impactos podem ser profundos e duradouros. Diferentemente dos adultos, nos quais fatores como hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol elevado são as principais causas, os eventos cerebrovasculares na infância geralmente estão relacionados a outras condições médicas.

Entre os fatores de risco mais frequentemente associados ao AVC pediátrico estão:

  • Malformações dos vasos sanguíneos cerebrais;

  • Cardiopatias congênitas;

  • Doenças autoimunes;

  • Distúrbios de coagulação;

  • Infecções graves;

  • Traumatismos cranianos;

  • Anemia falciforme;

  • Alterações genéticas e metabólicas.

Em muitos casos, a identificação do fator desencadeante é fundamental para evitar novos episódios e orientar o tratamento de longo prazo.

Cada minuto pode fazer a diferença

Assim como ocorre nos adultos, o AVC pediátrico é considerado uma emergência médica. A interrupção do fluxo sanguíneo para uma determinada região do cérebro provoca a morte de células cerebrais em poucos minutos, podendo resultar em danos permanentes.

Existem dois principais tipos de AVC:

AVC Isquêmico: ocorre quando um coágulo bloqueia a circulação sanguínea em uma artéria cerebral.

AVC Hemorrágico: acontece quando há rompimento de um vaso sanguíneo, provocando sangramento dentro do cérebro.

Ambas as situações exigem atendimento imediato e podem levar a complicações graves, incluindo deficiência motora, alterações cognitivas, dificuldades na linguagem, problemas de memória e até óbito.

Sintomas podem ser confundidos com outras doenças

Um dos maiores desafios no diagnóstico do AVC infantil é que seus sintomas podem se assemelhar aos de outras condições neurológicas, levando ao atraso no atendimento.

As novas diretrizes destacam sinais de alerta que exigem avaliação médica imediata:

  • Dor de cabeça súbita e intensa;

  • Vômitos sem causa aparente;

  • Sonolência excessiva;

  • Convulsões;

  • Alterações visuais;

  • Perda de equilíbrio;

  • Dificuldade de coordenação motora;

  • Fraqueza em um lado do corpo;

  • Assimetria facial;

  • Alterações na fala.

Os especialistas também reforçam a importância do protocolo internacional FAST, utilizado para identificar sinais de AVC:

Face (Rosto): queda ou assimetria facial;

Arms (Braços): fraqueza ou dificuldade para levantar um dos braços;

Speech (Fala): fala enrolada, dificuldade de compreensão ou incapacidade de falar;

Time (Tempo): procurar atendimento imediatamente.

No caso das crianças, entretanto, os sinais podem ser mais sutis e facilmente confundidos com enxaqueca, epilepsia, infecções, tumores cerebrais ou consequências de traumatismos.

Novas diretrizes trazem orientações inéditas para crianças

As recomendações publicadas pela AHA e pela ASA representam um avanço importante ao reconhecer oficialmente que crianças possuem necessidades específicas no tratamento do AVC.

Entre os principais pontos do documento estão:

  • Priorização de exames de neuroimagem rápida;

  • Uso preferencial da ressonância magnética e da angiorressonância quando disponíveis;

  • Definição de critérios para utilização de medicamentos destinados a restabelecer o fluxo sanguíneo;

  • Possibilidade de realização de trombectomia mecânica — procedimento que remove o coágulo por meio de um cateter — em crianças selecionadas com mais de seis anos de idade;

  • Ampliação da padronização dos cuidados, reduzindo a dependência exclusiva de protocolos desenvolvidos para adultos.

Especialistas destacam que, até recentemente, grande parte das decisões médicas em crianças era baseada em adaptações das evidências obtidas em pacientes adultos, devido à escassez de estudos específicos na população pediátrica.

Sequelas podem acompanhar a criança por toda a vida

Mesmo quando sobrevivem ao episódio agudo, muitas crianças podem enfrentar consequências a longo prazo.

Entre as sequelas mais frequentes estão:

  • Dificuldades de aprendizagem;

  • Alterações de memória e atenção;

  • Limitações motoras;

  • Problemas na fala e na linguagem;

  • Déficits cognitivos;

  • Distúrbios emocionais e comportamentais;

  • Epilepsia secundária.

Como o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, as consequências do AVC podem se tornar mais evidentes ao longo dos anos, especialmente quando a criança passa a enfrentar novas demandas escolares, sociais e cognitivas.

Por isso, especialistas enfatizam a necessidade de acompanhamento multidisciplinar envolvendo neurologistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e profissionais da educação.

Reconhecimento precoce pode mudar o prognóstico

O principal recado das novas diretrizes é claro: crianças também podem sofrer um acidente vascular cerebral, e o diagnóstico rápido é essencial para preservar funções cerebrais e reduzir sequelas permanentes.

A conscientização de pais, professores, profissionais de saúde e da sociedade sobre os sinais do AVC pediátrico pode representar a diferença entre uma recuperação satisfatória e danos irreversíveis.

Embora raro, o AVC na infância não deve ser subestimado. Quanto mais cedo os sintomas forem reconhecidos e o tratamento iniciado, maiores são as chances de recuperação e de uma melhor qualidade de vida para essas crianças.

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