Congo inicia primeiro teste clínico contra variante rara do ebola e busca tratamento inédito para conter surto

Estudo internacional avalia dois medicamentos promissores contra a variante Bundibugyo, que ainda não possui vacina nem terapia aprovada, enquanto o país enfrenta um surto com centenas de mortes
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A República Democrática do Congo deu início ao primeiro ensaio clínico destinado exclusivamente ao tratamento da variante Bundibugyo do vírus ebola, uma cepa rara para a qual ainda não existem vacinas ou medicamentos aprovados. A pesquisa, anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), representa um marco no enfrentamento da doença e pode abrir caminho para novas estratégias terapêuticas em meio ao avanço do atual surto, que já contabiliza mais de 1,4 mil casos suspeitos e confirmados e centenas de mortes no país africano.

Estudo testa dois medicamentos já conhecidos

Batizado de Partners, o ensaio clínico começou oficialmente com a inclusão do primeiro paciente e reúne pesquisadores congoleses e especialistas de diversas instituições internacionais.

A pesquisa avaliará a eficácia de dois medicamentos já utilizados em estudos contra outras variantes do ebola:

  • MBP134, um anticorpo monoclonal desenvolvido para neutralizar o vírus;

  • Remdesivir, antiviral inicialmente criado para outras infecções virais e que ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19.

Os cientistas irão analisar a resposta dos pacientes ao uso isolado de cada medicamento e também à combinação entre ambos, buscando identificar qual estratégia oferece maior benefício clínico.

Segundo a OMS, todos os participantes receberão atendimento hospitalar especializado, monitoramento rigoroso e tratamento de suporte por, no mínimo, 28 dias após o início da terapia.

Variante Bundibugyo ainda não possui tratamento aprovado

O atual surto é causado pela variante Bundibugyo ebolavirus, identificada pela primeira vez em 2007, em Uganda. Embora pertença à família do vírus ebola, essa cepa apresenta características biológicas distintas das variantes mais conhecidas.

Até o momento, os tratamentos aprovados internacionalmente demonstraram eficácia principalmente contra a espécie Zaire ebolavirus, responsável por grandes epidemias registradas na África nos últimos anos.

Já para a variante Bundibugyo, ainda não existe nenhuma vacina licenciada nem medicamentos com eficácia comprovada.

Por esse motivo, especialistas consideram o estudo um passo importante para preencher uma das principais lacunas no combate ao ebola.

Surto continua avançando

Desde que o surto foi declarado oficialmente, em 15 de maio de 2026, autoridades sanitárias acompanham a rápida disseminação da doença em diferentes regiões da República Democrática do Congo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, mais de 1,4 mil casos já foram registrados entre suspeitos e confirmados.

Até o momento:

  • cerca de 210 pessoas receberam alta após a recuperação;

  • aproximadamente 440 pacientes morreram em decorrência da infecção;

  • nas últimas semanas, a média permaneceu em torno de 38 novos casos confirmados por dia, indicando que a transmissão continua ativa.

As autoridades de saúde mantêm equipes de vigilância epidemiológica, rastreamento de contatos e isolamento de pacientes para tentar reduzir a propagação do vírus.

Diagnóstico mais rápido pode salvar vidas

Além do início do ensaio clínico, a OMS autorizou o uso emergencial do primeiro teste molecular desenvolvido especificamente para identificar a variante Bundibugyo.

Segundo especialistas, a nova tecnologia deverá reduzir o tempo necessário para confirmar os casos suspeitos, permitindo o isolamento precoce dos pacientes e o início mais rápido do tratamento de suporte.

O diagnóstico ágil é considerado uma das principais ferramentas para conter surtos de ebola, já que a doença apresenta elevada capacidade de transmissão por contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas.

Esperança para futuras epidemias

Para o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo, os resultados obtidos pelo estudo poderão beneficiar não apenas o controle do surto atual, mas também fortalecer a preparação internacional para futuras emergências sanitárias envolvendo essa variante do vírus.

Em comunicado divulgado pela OMS, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou o potencial da pesquisa.

“O estudo Partners oferece uma esperança real de que possamos alcançar resultados concretos para, e com, as comunidades no epicentro do surto.”

Cooperação internacional reúne especialistas

O ensaio clínico é coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica da República Democrática do Congo (INRB) em parceria com instituições internacionais de referência, incluindo:

  • a Organização Mundial da Saúde (OMS);

  • a Universidade de Oxford, no Reino Unido;

  • o Instituto de Medicina Tropical de Antuérpia, na Bélgica;

  • além de outros centros de pesquisa especializados em doenças infecciosas.

Os pesquisadores esperam que os primeiros resultados contribuam para estabelecer um tratamento seguro e eficaz contra a variante Bundibugyo, fortalecendo a resposta global às futuras epidemias de ebola.

O que é o vírus ebola?

O ebola é uma doença viral grave que provoca febre alta, fraqueza intensa, dores musculares, vômitos, diarreia e, em casos graves, hemorragias internas e externas. A transmissão ocorre por contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas ou animais infectados.

Segundo a OMS, a taxa de mortalidade pode variar entre 25% e 90%, dependendo da variante do vírus, da rapidez no diagnóstico e da qualidade da assistência médica oferecida aos pacientes.

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