Brasileiros rejeitam morte assistida, mas país fica dividido sobre interromper tratamentos

Pesquisa mostra resistência à eutanásia e ao suicídio assistido, enquanto opinião se divide sobre medidas para evitar o prolongamento artificial da vida
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA 

A maioria dos brasileiros ainda se posiciona contra formas de morte assistida. O levantamento mostra, porém, que o tema está longe de ser consensual: quando a discussão envolve pacientes sem possibilidade de cura e tratamentos que apenas prolongam artificialmente a vida, a população aparece rigorosamente dividida.

Entre os entrevistados, 56% disseram ser contra a eutanásia, enquanto 39% são favoráveis. Na eutanásia, o medicamento que provoca a morte é administrado por um profissional de saúde a pedido do paciente.

A resistência é ainda maior quando o assunto é o suicídio assistido, modalidade em que o próprio paciente ingere ou administra a medicação prescrita para provocar a morte. Nesse caso, 60% dos brasileiros se declararam contrários e 35% favoráveis.

Interrupção de tratamento divide opiniões

O resultado muda quando a pergunta deixa de tratar diretamente da provocação da morte e passa a abordar a possibilidade de interromper tratamentos que não oferecem perspectiva de cura e servem apenas para manter o paciente vivo artificialmente.

Nesse cenário, o país ficou dividido exatamente ao meio: 48% acreditam que médicos deveriam poder interromper esses tratamentos a pedido do paciente ou da família, enquanto outros 48% são contra.

O resultado revela uma diferença importante na percepção dos brasileiros. Embora a maioria rejeite procedimentos destinados diretamente a antecipar a morte, existe uma parcela significativa da população que aceita discutir a possibilidade de evitar intervenções médicas consideradas incapazes de proporcionar recuperação.

Direito de decidir sobre a própria morte

A pesquisa também apresentou uma questão mais ampla aos entrevistados: se cada pessoa deveria ter o direito de decidir sobre o próprio fim de vida, incluindo o momento e a forma de morrer, mesmo que essa decisão antecipasse a morte.

Nesse caso, 51% discordaram da afirmação, enquanto 46% concordaram. A diferença é considerada estreita dentro da margem de erro do levantamento.

Quando a pergunta foi colocada sob o aspecto moral, 51% consideraram errado que um médico ajude um paciente terminal a encerrar a própria vida, enquanto 42% disseram considerar a prática moralmente aceitável.

Jovens demonstram maior aceitação

Um dos recortes que mais chama atenção na pesquisa é a diferença de opinião entre as faixas etárias.

Entre os brasileiros de 16 a 24 anos, 63% consideram moralmente aceitável que um médico ajude um paciente terminal a morrer. O percentual diminui conforme aumenta a idade: chega a 48% entre pessoas de 25 a 34 anos, 43% entre 35 e 44 anos, 38% entre 45 e 59 anos e 29% entre aqueles com 60 anos ou mais. 

A religião também aparece como um fator de diferença. Entre pessoas que não têm religião, 57% consideram moralmente aceitável a ajuda médica para antecipar a morte de um paciente terminal. Entre os evangélicos, o índice é de 34%.

Pesquisa ouviu mais de 2 mil pessoas

O levantamento foi realizado nos dias 3 e 4 de agosto e ouviu 2.050 pessoas em 137 municípios de todas as regiões do Brasil.

A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. Como esta foi a primeira pesquisa do Datafolha a investigar especificamente a opinião pública brasileira sobre morte assistida, não há uma série histórica que permita comparar a evolução da percepção da sociedade sobre o tema.

Como funciona atualmente no Brasil

A eutanásia e o suicídio assistido não são legalizados no Brasil. De acordo com as informações divulgadas na pesquisa, a eutanásia pode ser enquadrada como homicídio, enquanto quem induz, instiga ou auxilia alguém a cometer suicídio pode responder criminalmente conforme as circunstâncias do caso.

O debate, portanto, envolve questões que vão além da medicina. Autonomia do paciente, sofrimento, dignidade, cuidados paliativos, aspectos religiosos e os limites da atuação dos profissionais de saúde estão entre os principais pontos envolvidos na discussão.

O resultado mostra que, embora ainda exista uma maioria contrária à morte assistida, a sociedade brasileira está muito mais dividida quando a discussão passa para o direito de interromper tratamentos que apenas prolongam a vida.

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