Gonorreia resistente a antibióticos avança na Europa e acende alerta para risco de disseminação internacional

Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças confirma transmissão sustentada entre países do continente e reforça necessidade de prevenção, diagnóstico precoce e vigilância laboratorial
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O avanço da gonorreia resistente aos antibióticos voltou a preocupar autoridades sanitárias internacionais. O Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) informou que a circulação de cepas resistentes da bactéria Neisseria gonorrhoeae deixou de estar restrita a casos importados e passou a apresentar transmissão sustentada entre diversos países europeus. O cenário aumenta o risco de tratamentos menos eficazes e reforça a necessidade de intensificar medidas de prevenção, diagnóstico precoce e monitoramento da resistência bacteriana.

Resistência aos antibióticos preocupa autoridades sanitárias

O ECDC alertou que a gonorreia resistente aos medicamentos representa uma ameaça crescente à saúde pública. A infecção, que já figura entre as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) mais comuns do mundo, vem apresentando capacidade cada vez maior de sobreviver aos antibióticos tradicionalmente utilizados no tratamento.

Segundo o órgão europeu, além dos casos associados a viagens internacionais — principalmente provenientes do Sudeste Asiático, região onde circulam cepas altamente resistentes —, os especialistas identificaram que essas variantes passaram a ser transmitidas entre pessoas dentro da própria Europa, indicando que a bactéria já está estabelecida em diferentes países do continente.

Esse tipo de transmissão torna o controle epidemiológico mais complexo e aumenta o risco de disseminação para outras regiões do mundo por meio da mobilidade internacional.

O que é a gonorreia

A gonorreia é causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae e é transmitida principalmente por relações sexuais sem preservativo, incluindo sexo vaginal, anal e oral.

Em muitos casos, a doença pode não apresentar sintomas, especialmente nas mulheres, favorecendo a transmissão sem que a pessoa saiba que está infectada.

Quando os sintomas aparecem, podem incluir:

  • dor ou ardência ao urinar;

  • secreção amarelada ou esverdeada pela uretra ou vagina;

  • dor pélvica;

  • sangramento fora do período menstrual;

  • dor e inchaço nos testículos;

  • dor ou secreção anal;

  • inflamação na garganta após sexo oral.

Sem tratamento adequado, a infecção pode provocar complicações importantes, como doença inflamatória pélvica, infertilidade feminina e masculina, gravidez ectópica e aumento do risco de transmissão do HIV.

Quem apresenta maior risco

De acordo com o ECDC, os grupos mais vulneráveis incluem:

  • pessoas que mantêm relações sexuais sem preservativo;

  • indivíduos com múltiplos parceiros sexuais;

  • pessoas com novos parceiros frequentes;

  • profissionais do sexo;

  • clientes de profissionais do sexo.

Especialistas ressaltam, entretanto, que qualquer pessoa sexualmente ativa pode contrair gonorreia caso tenha contato desprotegido com alguém infectado.

Tratamento está ficando mais difícil

Historicamente, a gonorreia já foi tratada com diversos antibióticos, incluindo penicilina, tetraciclinas e fluoroquinolonas. No entanto, ao longo das últimas décadas, a bactéria desenvolveu resistência contra praticamente todas essas classes de medicamentos.

Hoje, o tratamento recomendado utiliza antibióticos mais modernos, principalmente cefalosporinas de terceira geração, mas autoridades sanitárias acompanham com preocupação o surgimento de cepas que também apresentam redução de sensibilidade a esses medicamentos.

Segundo o microbiologista Csaba Ködmön, do ECDC, caso essas variantes continuem se espalhando, as alternativas terapêuticas poderão se tornar cada vez mais limitadas.

O especialista defende o fortalecimento da vigilância microbiológica, a realização de testes de sensibilidade aos antimicrobianos e o diagnóstico precoce como estratégias essenciais para conter o avanço da resistência.

Prevenção continua sendo a principal arma

Enquanto novos antibióticos estão em desenvolvimento, médicos reforçam que a prevenção permanece sendo a forma mais eficaz de combater a doença.

Entre as principais recomendações estão:

  • uso consistente de preservativos em todas as relações sexuais;

  • realização periódica de exames para ISTs, especialmente por pessoas com vida sexual ativa e múltiplos parceiros;

  • comunicação aos parceiros sexuais quando houver diagnóstico positivo;

  • início rápido do tratamento indicado por profissional de saúde;

  • evitar automedicação, que favorece o desenvolvimento da resistência bacteriana.

Brasil acompanha cenário internacional

Embora o alerta divulgado nesta sexta-feira seja direcionado à Europa, especialistas destacam que a resistência antimicrobiana não respeita fronteiras.

O Ministério da Saúde brasileiro participa de programas internacionais de vigilância da resistência bacteriana e acompanha a evolução das cepas de Neisseria gonorrhoeae. A circulação internacional de pessoas pode facilitar a introdução de variantes resistentes em qualquer país, tornando essencial o monitoramento contínuo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica a gonorreia resistente como uma das maiores ameaças entre as infecções sexualmente transmissíveis devido à diminuição progressiva das opções terapêuticas disponíveis.

Especialistas defendem vigilância permanente

O aumento da circulação de cepas resistentes reforça a necessidade de investimentos em vigilância epidemiológica, desenvolvimento de novos antibióticos e ampliação do acesso ao diagnóstico.

Autoridades sanitárias afirmam que controlar a disseminação depende da combinação entre prevenção, diagnóstico rápido, tratamento adequado e monitoramento constante da resistência aos medicamentos, evitando que a gonorreia evolua para uma infecção cada vez mais difícil de tratar.

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