Cientistas reduzem alergia ao amendoim com cápsulas de microbioma e abrem caminho para tratamento inovador

Estudo publicado na revista Science Translational Medicine mostra que terapia baseada no microbioma intestinal aumentou a tolerância ao amendoim em participantes com alergia grave e reforça o potencial da medicina personalizada
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

Uma pesquisa considerada promissora por especialistas pode representar um importante avanço no tratamento das alergias alimentares. Cientistas do Hospital Infantil de Boston conseguiram aumentar a tolerância ao amendoim em pacientes com alergia grave utilizando cápsulas contendo bactérias benéficas do microbioma intestinal — método popularmente conhecido como “cápsulas de cocô”. Os resultados, publicados nesta quarta-feira (5) na revista científica Science Translational Medicine, indicam que modificar a microbiota intestinal pode reduzir reações alérgicas e, no futuro, oferecer uma alternativa capaz de atuar na causa da doença, e não apenas controlar seus sintomas.

Um tratamento que vai além dos sintomas

As alergias alimentares afetam milhões de pessoas em todo o mundo e representam um desafio permanente para pacientes e médicos. Entre elas, a alergia ao amendoim é considerada uma das mais preocupantes devido ao risco de reações graves, incluindo anafilaxia, uma emergência médica potencialmente fatal.

O amendoim contém proteínas que, em pessoas predispostas, são identificadas erroneamente pelo sistema imunológico como uma ameaça. Como consequência, o organismo desencadeia uma resposta exagerada, liberando substâncias responsáveis por sintomas que podem variar desde urticária e inchaço até dificuldade respiratória e queda brusca da pressão arterial.

Segundo pesquisadores, aproximadamente 2% da população em países ocidentais apresenta algum grau de alergia ao amendoim.

O que são as “cápsulas de cocô”?

Apesar do nome curioso, o tratamento não consiste na ingestão de fezes.

Na prática, trata-se de um transplante de microbiota fecal, procedimento que utiliza bactérias intestinais saudáveis cuidadosamente selecionadas e processadas em laboratório.

Esses microrganismos são encapsulados em cápsulas congeladas e administrados ao paciente com o objetivo de restaurar o equilíbrio da flora intestinal.

Nos últimos anos, diversos estudos vêm demonstrando que o microbioma intestinal influencia diretamente o funcionamento do sistema imunológico, podendo interferir no desenvolvimento de alergias, doenças inflamatórias e até distúrbios metabólicos.

Como foi realizado o estudo

A pesquisa recrutou dez jovens adultos diagnosticados com alergia grave ao amendoim.

Cada participante recebeu 36 cápsulas contendo bactérias intestinais provenientes de doadores saudáveis. As cápsulas foram ingeridas ao longo de poucas horas.

Após quatro meses, os pesquisadores realizaram novos testes de exposição ao amendoim.

Os resultados mostraram que três participantes conseguiram consumir quantidades significativamente maiores do alimento antes de desenvolver qualquer reação alérgica.

Posteriormente, uma nova etapa do acompanhamento revelou que seis pacientes apresentaram melhora na tolerância ao amendoim, reforçando a hipótese de que alterações no microbioma podem modificar a resposta do sistema imunológico.

Embora o número de participantes seja pequeno, os pesquisadores consideram os resultados suficientemente promissores para justificar estudos maiores.

Por que apostar no microbioma?

Hoje existem tratamentos capazes de aumentar temporariamente a tolerância ao amendoim, como imunoterapia oral e medicamentos à base de anticorpos monoclonais.

Entretanto, essas abordagens geralmente exigem tratamento contínuo. Em muitos casos, a proteção diminui quando a terapia é interrompida.

Foi justamente essa limitação que levou os pesquisadores a investigar outra estratégia.

Segundo a alergista Rima Rachid, do Hospital Infantil de Boston e uma das autoras do estudo, muitos pacientes desejam uma solução duradoura.

“Os pacientes querem se livrar da ansiedade e da vigilância constante sempre que saem de casa. Eles procuram uma modificação permanente da doença ou até uma cura”, afirmou a pesquisadora em comunicado divulgado pela instituição.

Evidências começaram em estudos com animais

A ideia surgiu após experimentos realizados com camundongos.

Em pesquisas anteriores, cientistas observaram que animais que receberam bactérias intestinais provenientes de bebês com alergias desenvolveram reações intensas aos alimentos.

Já aqueles que receberam bactérias de crianças sem alergias permaneceram protegidos.

Esses resultados permitiram identificar algumas espécies bacterianas consideradas benéficas para o equilíbrio do sistema imunológico.

A hipótese era que esses mesmos microrganismos poderiam exercer efeito semelhante em seres humanos.

O papel do intestino no sistema imunológico

Especialistas estimam que cerca de 70% das células do sistema imunológico estejam associadas ao trato gastrointestinal.

Por isso, alterações na composição das bactérias intestinais podem influenciar diretamente a forma como o organismo responde a vírus, bactérias, alimentos e outras substâncias.

Nos últimos anos, pesquisas têm relacionado o microbioma intestinal à prevenção ou ao desenvolvimento de doenças como:

  • alergias alimentares;

  • asma;

  • dermatite atópica;

  • doenças inflamatórias intestinais;

  • obesidade;

  • diabetes tipo 2.

Embora muitas dessas relações ainda estejam sendo investigadas, cresce o consenso científico de que manter uma microbiota saudável pode trazer benefícios importantes para a saúde.

Especialistas pedem cautela

Apesar dos resultados animadores, os próprios autores destacam que o tratamento ainda é experimental.

O estudo envolveu um número reduzido de participantes e será necessário realizar ensaios clínicos maiores para confirmar a eficácia, definir quais bactérias produzem os melhores resultados e avaliar a segurança em longo prazo.

Além disso, o transplante de microbiota deve ser realizado apenas em ambiente médico, utilizando doadores rigorosamente selecionados para evitar a transmissão de agentes infecciosos.

Até que novas pesquisas sejam concluídas, pessoas com alergia ao amendoim não devem interromper tratamentos prescritos nem tentar qualquer procedimento semelhante por conta própria.

Um novo horizonte para o tratamento das alergias

Embora ainda esteja em fase inicial, a pesquisa representa um dos avanços mais interessantes da medicina de precisão aplicada às alergias alimentares.

Se estudos futuros confirmarem os resultados, terapias baseadas na modulação do microbioma poderão transformar a forma como essas doenças são tratadas, oferecendo uma abordagem voltada à causa do problema, com potencial para reduzir a dependência de tratamentos contínuos e melhorar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

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