Dados federais apontam que 194 crianças de 8 a 12 anos morreram por suicídio em 2025, enquanto pesquisas identificam crescimento persistente do problema e maior preocupação entre meninas
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
O aumento das mortes por suicídio entre crianças nos Estados Unidos voltou a chamar a atenção de especialistas em saúde mental. Dados federais preliminares indicam que 194 pré-adolescentes de 8 a 12 anos morreram por suicídio em 2025, o maior número registrado nessa faixa etária desde pelo menos 2001. O dado mais recente se soma a uma tendência identificada por pesquisadores do National Institutes of Health (NIH): entre 2008 e 2022, a taxa de suicídio entre pré-adolescentes cresceu, em média, 8,2% ao ano, revelando que comportamentos suicidas já representam uma preocupação relevante antes mesmo da adolescência.
Um problema que começa cada vez mais cedo
Durante muito tempo, estudos e políticas públicas de prevenção ao suicídio concentraram-se principalmente em adolescentes e adultos jovens. Pesquisas mais recentes, entretanto, mostram que crianças em idade escolar também podem apresentar pensamentos e comportamentos suicidas e que esse fenômeno não pode mais ser tratado como uma ocorrência excepcional.
Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema foi publicado no JAMA Network Open e analisou dados nacionais de mortalidade dos Estados Unidos entre 2001 e 2022. Os pesquisadores identificaram 2.241 mortes por suicídio entre crianças de 8 a 12 anos durante o período analisado.
A pesquisa encontrou uma mudança importante na trajetória dos números. Depois de uma queda entre 2001 e 2007, a taxa começou a crescer de maneira significativa a partir de 2008, avançando 8,2% ao ano, em média, até 2022. A taxa passou de 3,34 mortes por milhão de crianças no primeiro período analisado para 5,71 por milhão posteriormente.
O estudo não atribui a tendência a uma única causa. Para os pesquisadores, o fenômeno é complexo e envolve diferentes fatores individuais, familiares, sociais e ambientais.
2025 acrescenta um novo sinal de alerta
Os dados mais recentes reforçam a preocupação. Segundo informações federais preliminares citadas na cobertura nacional do tema, 194 crianças de 8 a 12 anos morreram por suicídio em 2025, número apontado como o maior registrado nessa faixa etária desde pelo menos 2001. Como se trata de dado preliminar, os números podem sofrer alterações à medida que os registros oficiais sejam revisados.
A atualização é particularmente relevante porque os dados consolidados disponíveis anteriormente já mostravam uma trajetória preocupante. O CDC registrou que o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre pessoas de 10 a 14 anos em 2023.
Isso significa que, embora as mortes por suicídio nessa idade ainda sejam numericamente muito menos frequentes do que entre adolescentes mais velhos e adultos, o crescimento proporcional entre crianças pequenas merece atenção especial.
Meninas apresentam uma mudança particularmente preocupante
Um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a evolução entre as meninas.
No estudo publicado no JAMA Network Open, as meninas apresentaram um crescimento proporcionalmente maior do que os meninos. Entre 2008 e 2022, o aumento do risco foi especialmente acentuado no sexo feminino, reduzindo uma diferença histórica entre os dois grupos.
Isso não significa que os meninos tenham deixado de representar uma parcela importante das mortes. Pelo contrário: entre 2001 e 2022, 68,1% das mortes registradas no estudo ocorreram entre meninos e 31,9% entre meninas. O alerta está justamente na velocidade com que os índices femininos vêm aumentando.
O National Institute of Mental Health destacou que o crescimento foi particularmente pronunciado entre meninas pré-adolescentes e também identificou aumentos importantes entre determinados grupos raciais e étnicos.
Crianças negras apresentam taxa mais elevada
Os pesquisadores também encontraram diferenças importantes relacionadas a raça e etnia.
Embora tenham sido observados aumentos em diferentes grupos, as crianças negras apresentaram a maior taxa geral de suicídio entre os grupos raciais analisados no estudo.
Ao mesmo tempo, crianças hispânicas apresentaram um dos maiores crescimentos percentuais ao longo do período estudado. Também houve aumento significativo entre crianças indígenas americanas, nativas do Alasca, asiáticas e das ilhas do Pacífico.
Para especialistas, esses dados reforçam a necessidade de estratégias de prevenção que levem em consideração diferenças culturais, condições sociais e desigualdades no acesso ao atendimento psicológico e psiquiátrico.
Saúde mental infantil não pode esperar pela adolescência
Uma das conclusões mais importantes dos pesquisadores é que a identificação precoce de sofrimento psicológico precisa começar antes da adolescência.
A própria atualização do CDC sobre pensamentos e comportamentos suicidas, publicada em julho de 2026, destaca que o suicídio continua sendo uma das principais causas de morte entre jovens e que muitos indivíduos que apresentam comportamento suicida podem procurar atendimento médico antes de uma tentativa.
O órgão também ressalta que aproximadamente metade das pessoas que morrem por suicídio possui histórico conhecido de uma condição de saúde mental diagnosticada, enquanto a outra metade não tinha uma condição diagnosticada no momento da morte. O dado é importante porque demonstra que a ausência de diagnóstico prévio não significa ausência de sofrimento psicológico ou de fatores de risco.
O impacto da pandemia ainda é discutido
Especialistas ouvidos na cobertura recente sobre o crescimento entre pré-adolescentes apontam que a pandemia de Covid-19 pode ter contribuído para agravar vulnerabilidades já existentes.
Crianças que hoje estão na pré-adolescência passaram parte importante dos primeiros anos escolares em um período marcado por isolamento, interrupção das aulas presenciais, redução do contato social e mudanças na rotina familiar.
No entanto, especialistas alertam que seria inadequado atribuir o crescimento exclusivamente à pandemia. A tendência começou antes de 2020, com o aumento registrado desde 2008.
A pandemia pode ter funcionado como um agravante dentro de um problema mais amplo de saúde mental infantil, e não necessariamente como sua causa única.
Redes sociais, bullying e isolamento entram no debate
Outro conjunto de fatores frequentemente discutido por pesquisadores envolve experiências sociais e ambientais enfrentadas por crianças e adolescentes.
Bullying, isolamento, conflitos familiares, dificuldades escolares, exposição a conteúdos prejudiciais na internet, problemas relacionados ao sono e uso intenso de redes sociais estão entre os fatores investigados na literatura científica sobre saúde mental juvenil.
Um estudo publicado no JAMA Network Open sobre redes sociais e risco de suicídio destaca que o crescimento dos problemas de saúde mental entre jovens ocorre em um contexto de mudanças profundas na forma como crianças e adolescentes se relacionam e utilizam tecnologia.
Isso, porém, não permite afirmar que redes sociais sejam, isoladamente, responsáveis pelo aumento dos suicídios. O quadro é multifatorial e varia de acordo com a criança, sua família, ambiente escolar, condições socioeconômicas e acesso a cuidados de saúde mental.
O acesso ao tratamento continua sendo um desafio
Identificar sinais de sofrimento é apenas uma parte do problema. A outra é garantir que a criança consiga receber atendimento adequado.
Especialistas em saúde mental infantil vêm alertando há anos para a dificuldade de encontrar profissionais especializados em crianças, especialmente em regiões onde há escassez de psicólogos e psiquiatras infantis.
O problema pode ser ainda maior quando uma criança apresenta pensamentos suicidas e necessita de avaliação imediata, mas não encontra serviços preparados para atender pacientes tão jovens.
A prevenção, por isso, não depende apenas de hospitais. Pediatras, escolas, professores, familiares e profissionais de saúde mental podem desempenhar papéis importantes na identificação precoce de mudanças comportamentais.
A importância da triagem precoce
O debate nos Estados Unidos também avançou em direção à avaliação sistemática da saúde mental de crianças.
O estudo sobre pré-adolescentes publicado no JAMA Network Open concluiu que os dados reforçam a necessidade de estratégias de prevenção adequadas à idade, incluindo identificação de risco e orientação sobre segurança em relação ao acesso a meios potencialmente letais.
A recomendação é especialmente relevante porque crianças podem não expressar sofrimento emocional da mesma forma que adolescentes ou adultos.
Alterações persistentes no comportamento, isolamento repentino, mudanças marcantes no sono ou alimentação, queda acentuada no desempenho escolar, perda de interesse por atividades anteriormente apreciadas ou falas relacionadas à morte devem ser levadas a sério.
Nenhum desses sinais, isoladamente, significa que uma criança esteja pensando em suicídio. Mas mudanças significativas justificam uma conversa cuidadosa com a criança e, quando necessário, avaliação profissional.
Um alerta que vai além dos números
Os números mais recentes não significam que os Estados Unidos estejam diante de uma epidemia de suicídios infantis em termos absolutos. As mortes nessa faixa etária continuam sendo relativamente raras quando comparadas às ocorrências entre adolescentes e adultos.
O problema está na direção da tendência.
O estudo nacional encontrou uma elevação consistente desde 2008, enquanto os dados federais mais recentes apontam que o número absoluto de mortes entre pré-adolescentes continuou preocupante em 2025. Ao mesmo tempo, o CDC mantém o suicídio entre as principais causas de morte para crianças de 10 a 14 anos.
Para especialistas, a combinação desses indicadores mostra que a prevenção precisa começar mais cedo — antes que pensamentos ou comportamentos suicidas evoluam para uma situação de emergência.
Prevenção começa dentro e fora de casa
O avanço das pesquisas sobre suicídio infantil também muda a maneira como pais, escolas e profissionais de saúde precisam enxergar o problema.
A recomendação central dos especialistas é não esperar que a criança apresente uma crise grave para falar sobre saúde mental. Perguntas apropriadas para a idade, acompanhamento pediátrico, ambiente familiar aberto ao diálogo e acesso rápido a profissionais especializados podem ajudar a identificar problemas antes que eles se agravem.
O CDC destaca ainda que existem mais pessoas que apresentam pensamentos ou fazem tentativas de suicídio do que aquelas que morrem por essa causa, o que torna fundamental reconhecer sinais de sofrimento e buscar ajuda precocemente.
Nos Estados Unidos, pessoas em crise ou preocupadas com alguém podem ligar ou enviar mensagem para o 988 Suicide & Crisis Lifeline, serviço nacional gratuito e disponível 24 horas por dia.
O que os dados mostram
- 194: número preliminar de suicídios entre crianças de 8 a 12 anos registrado em 2025.
- 2.241: mortes por suicídio entre pré-adolescentes de 8 a 12 anos registradas de 2001 a 2022 no estudo publicado no JAMA Network Open.
- 8,2%: crescimento médio anual da taxa de suicídio entre pré-adolescentes de 2008 a 2022.
- 5,71 por milhão: taxa registrada entre 2008 e 2022, contra 3,34 por milhão entre 2001 e 2007.
- 2ª causa: posição ocupada pelo suicídio entre as principais causas de morte para pessoas de 10 a 14 anos em 2023.
O cenário reforça uma mudança importante na saúde pública americana: a prevenção do suicídio não pode começar somente na adolescência. Os dados indicam que crianças ainda no ensino fundamental também precisam ser incluídas nas estratégias de identificação de sofrimento emocional, acesso a cuidados especializados e prevenção.
Mais do que explicar por que os números estão subindo, o desafio para pesquisadores e autoridades é descobrir como interromper essa trajetória — e fazer com que crianças em sofrimento sejam identificadas e recebam ajuda antes que a situação se transforme em uma emergência.
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