Novo plano global da OMS aponta lacunas na preparação dos sistemas de saúde para atender migrantes e populações deslocadas por eventos climáticos extremos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Ondas de calor, enchentes, secas, tempestades e a elevação do nível do mar já representam mais do que uma ameaça ambiental: elas também podem alterar os padrões de deslocamento humano e dificultar o acesso à saúde. Um novo plano global da Organização Mundial da Saúde (OMS) coloca essa conexão no centro das pesquisas internacionais e alerta que migrantes e pessoas deslocadas por fatores relacionados ao clima enfrentam riscos adicionais justamente quando mais precisam de atendimento médico. O documento destaca a necessidade de sistemas de saúde capazes de acompanhar essas populações durante toda a trajetória de deslocamento, desde a saída de suas comunidades até a chegada a novos locais.
Publicado pela OMS em junho de 2026, o relatório “Global research prioritization and action plan on health, migration and displacement in the context of climate change” é resultado do Global Research Prioritization Exercise (GRPE), iniciativa criada para identificar as principais lacunas de conhecimento sobre a relação entre mudanças climáticas, mobilidade humana e saúde.
Segundo a organização, trata-se da primeira análise temática aprofundada dentro de sua agenda global de pesquisa sobre saúde, migração e deslocamento. O levantamento reuniu revisões de evidências, consultas técnicas e pesquisas com especialistas de diferentes áreas e regiões do mundo.
O lançamento virtual do plano, realizado em 22 de julho, reuniu mais de 300 participantes de mais de 75 países. A iniciativa contou ainda com um processo de priorização que envolveu 59 especialistas de diferentes setores, incluindo academia, políticas públicas e organizações que atuam diretamente com populações migrantes e deslocadas.
Clima, deslocamento e saúde formam um único problema
A relação entre esses três fatores é complexa. Um desastre climático pode destruir casas, interromper serviços públicos, comprometer o abastecimento de água e alimentos e obrigar famílias a deixar suas comunidades.
A partir daí, surgem novos riscos sanitários.
Pessoas deslocadas podem encontrar dificuldades para acessar hospitais, unidades básicas de saúde, medicamentos, vacinação e acompanhamento de doenças crônicas. Durante o trajeto, também podem ficar mais expostas a calor extremo, doenças infecciosas, desidratação, insegurança alimentar, condições precárias de moradia e problemas de saúde mental.
A OMS afirma que as consequências sanitárias da migração e do deslocamento associados às mudanças climáticas ainda são subpesquisadas e pouco compreendidas, apesar do reconhecimento crescente de que o clima contribui para os fatores que impulsionam a mobilidade humana.
Isso significa que governos podem estar diante de um problema que cresce mais rapidamente do que a capacidade de produzir dados para dimensioná-lo.
Eventos extremos podem interromper o atendimento médico
Enchentes e tempestades são exemplos de eventos de início rápido capazes de deslocar comunidades em pouco tempo. Quando isso ocorre, a emergência não se limita à perda de moradias.
Estradas podem ficar interditadas, unidades de saúde podem ser danificadas, redes de água e saneamento podem entrar em colapso e profissionais podem ter dificuldade para chegar às regiões afetadas.
Em eventos de início lento, como secas prolongadas, desertificação e elevação do nível do mar, o processo pode ser diferente. As famílias podem permanecer durante anos em áreas cada vez mais vulneráveis antes de decidir ou serem obrigadas a se deslocar.
Por isso, o plano da OMS defende pesquisas capazes de diferenciar os impactos provocados por diferentes formas de mobilidade e diferentes tipos de eventos climáticos. A organização aponta que as respostas precisam considerar tanto emergências súbitas quanto processos ambientais que se desenvolvem gradualmente.
Insegurança alimentar e falta de água entram no centro da preocupação
Entre as prioridades identificadas estão os chamados determinantes sociais da saúde.
A insegurança alimentar aparece nesse contexto como um dos pontos críticos. Alterações no regime de chuvas, secas prolongadas e eventos extremos podem afetar a produção agrícola e o acesso aos alimentos, especialmente em comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais.
A disponibilidade de água potável e de saneamento também é fundamental. Quando esses serviços são interrompidos durante uma crise ou não acompanham o crescimento de uma população deslocada, aumenta a dificuldade de prevenção de doenças e de manutenção de condições básicas de higiene.
A OMS colocou esses fatores entre os temas que precisam de mais evidências para orientar políticas públicas capazes de proteger populações migrantes e deslocadas. O relatório também chama atenção para os efeitos de fatores sociais e estruturais sobre a saúde dessas pessoas.
Saúde mental também preocupa
Os impactos não são apenas físicos.
Perder a casa, deixar familiares para trás, interromper atividades profissionais, enfrentar incerteza sobre o futuro ou atravessar situações de emergência pode produzir consequências psicológicas importantes.
O deslocamento também pode acontecer depois de experiências traumáticas, especialmente quando eventos climáticos extremos se somam a conflitos, pobreza ou outras formas de vulnerabilidade.
Por essa razão, a agenda da OMS considera necessário investigar os efeitos de longo prazo do deslocamento sobre a saúde, incluindo aspectos relacionados ao bem-estar e às condições sociais que determinam a capacidade de recuperação das comunidades afetadas.
Pemba aparece como exemplo da vulnerabilidade em Moçambique
Entre os exemplos apresentados no material que motivou o debate internacional está Pemba, capital da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.
A região já enfrenta uma combinação particularmente complexa de vulnerabilidades. Além dos impactos ambientais, Cabo Delgado sofre há anos com violência armada e deslocamentos populacionais, fatores que pressionam a infraestrutura local e dificultam a oferta regular de serviços.
A própria OMS já registrou anteriormente graves consequências humanitárias na província. Em 2022, a organização informou que a violência havia provocado o deslocamento de quase 1 milhão de pessoas e que aproximadamente 27% das unidades de saúde de Cabo Delgado tinham sido destruídas.
Em seu plano de resposta para Moçambique em 2026, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) também prevê ações para integrar o deslocamento às políticas de adaptação climática e redução do risco de desastres, além de fortalecer sistemas de alerta precoce e estratégias de meios de subsistência resilientes ao clima.
A situação mostra como diferentes crises podem se sobrepor. Em determinados territórios, uma população pode enfrentar simultaneamente conflitos, pobreza, eventos climáticos extremos, deslocamento e dificuldades de acesso aos serviços essenciais.
África lusófona entra no debate
A dimensão regional também ganha importância porque os movimentos populacionais não respeitam necessariamente fronteiras administrativas.
Deslocamentos internos podem ser seguidos por migrações para outras regiões do mesmo país ou para países vizinhos. Isso exige cooperação entre governos e sistemas de saúde para garantir continuidade no atendimento.
Na África lusófona, essa questão assume particular relevância diante da vulnerabilidade de algumas comunidades a eventos climáticos extremos e da existência de importantes fluxos migratórios regionais.
A OIM considera a mobilidade humana um componente que precisa ser incorporado às políticas de redução de riscos e adaptação climática. Em Moçambique, por exemplo, seu plano de resposta de 2026 prevê o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, planejamento de evacuação e integração do deslocamento às políticas locais de adaptação.
Brasil também está inserido nessa dinâmica
O Brasil pode ser afetado por esse fenômeno tanto pela ocorrência de deslocamentos internos provocados por eventos extremos quanto pela chegada de pessoas que migram de países atingidos por crises ambientais, econômicas ou humanitárias.
Enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos extremos podem pressionar comunidades vulneráveis e gerar movimentos populacionais dentro do próprio território.
A existência de sistemas públicos capazes de registrar e acompanhar pessoas que mudam de região torna-se, portanto, uma questão de saúde pública. Para a OMS, a inclusão de migrantes e deslocados nos sistemas nacionais de saúde é uma das áreas que precisam de maior atenção.
Isso inclui garantir que uma pessoa consiga manter o acesso a cuidados mesmo quando muda de cidade, região ou país.
Integrar migrantes aos sistemas de saúde é uma das prioridades
Um dos caminhos apontados pelo plano global é melhorar a integração de migrantes e pessoas deslocadas às redes de atenção à saúde.
Na prática, isso envolve mais do que oferecer atendimento emergencial. É necessário criar mecanismos para que essas populações tenham acesso à atenção primária, vacinação, medicamentos, acompanhamento de doenças e outros serviços essenciais.
A OMS destaca justamente as barreiras de acesso aos serviços de saúde e a necessidade de incluir populações migrantes nos sistemas nacionais como lacunas importantes de pesquisa e de políticas públicas.
Essa integração pode ser especialmente importante em crises prolongadas, quando uma população deslocada deixa de ser uma presença temporária e passa a permanecer durante meses ou anos em determinada região.
Dados ainda são uma das maiores dificuldades
Outro problema identificado pela OMS é a insuficiência de informações.
Saber quantas pessoas foram deslocadas, para onde foram, quais são suas condições de saúde e quais serviços conseguem acessar é fundamental para planejar políticas públicas.
O relatório recomenda melhorar os dados e realizar análises que considerem diferentes características das populações, como idade, gênero, situação migratória e outras dimensões sociais.
Sem essas informações, autoridades podem ter dificuldade para prever a demanda por hospitais, vacinas, medicamentos, profissionais de saúde, água potável e assistência psicossocial.
A organização também defende pesquisas que consigam avaliar os efeitos de longo prazo do deslocamento e a efetividade das intervenções realizadas durante as crises.
Sistemas de alerta podem reduzir impactos
A preparação antes da ocorrência de um desastre aparece como outra frente importante.
Sistemas de alerta precoce podem permitir que comunidades recebam informações antecipadas sobre tempestades, enchentes, ondas de calor ou outros riscos e tenham tempo para adotar medidas de proteção.
Em Moçambique, por exemplo, a OIM prevê o fortalecimento de sistemas de alerta e a elaboração de planos de preparação, evacuação e resposta para comunidades expostas a desastres.
A lógica é simples: quanto mais cedo uma população puder se preparar para um evento extremo, maior pode ser a capacidade de reduzir perdas humanas e evitar que serviços essenciais sejam completamente interrompidos.
Um desafio que ultrapassa a questão ambiental
O novo plano da OMS reforça uma mudança importante na forma como a crise climática é analisada.
Os efeitos das mudanças climáticas não terminam quando uma tempestade passa ou quando uma seca chega ao fim. As consequências podem permanecer na economia, na segurança alimentar, na infraestrutura, na saúde mental e nos movimentos populacionais.
Por isso, a organização propõe uma abordagem integrada entre saúde, clima e mobilidade humana, com participação de governos, universidades, organizações internacionais e comunidades afetadas.
A agenda estabelece três grandes eixos de pesquisa — determinantes sociais da saúde, cobertura universal de saúde e emergências — além de temas transversais relacionados a resultados de saúde, dados, políticas e intervenções.
A urgência agora é transformar pesquisa em política pública
O relatório da OMS não prevê um número específico de pessoas que serão obrigadas a migrar por causa das mudanças climáticas. Em vez disso, procura preencher uma lacuna: compreender melhor como as mudanças ambientais, os deslocamentos e as condições de saúde estão conectados.
Esse ponto é fundamental porque nem todo deslocamento relacionado ao clima acontece de maneira direta ou isolada. Muitas vezes, fatores ambientais se combinam com pobreza, conflitos, falta de infraestrutura, desigualdade e dificuldades de acesso a serviços básicos.
A proposta da OMS é transformar o conhecimento científico em políticas capazes de antecipar essas situações.
O objetivo final é construir sistemas de saúde mais preparados para atender populações em movimento — e não apenas responder depois que uma emergência já provocou deslocamentos.
Com eventos climáticos extremos se tornando uma preocupação crescente para governos e comunidades, a discussão sobre migração deixa de ser exclusivamente uma questão de fronteiras e passa também a envolver hospitais, atenção básica, saúde mental, água, alimentação, saneamento, sistemas de alerta e planejamento urbano.
A principal mensagem do novo plano global é justamente essa: enfrentar os impactos humanos das mudanças climáticas exige considerar, ao mesmo tempo, onde as pessoas vivem, para onde podem ser obrigadas a ir e como garantir que continuem tendo acesso à saúde durante todo esse percurso.
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