Surto de salmonela ligado a jalapeños chega a 431 casos nos EUA e autoridades alertam para novos registros

Contaminação associada a pimentas cultivadas no México já provocou 57 hospitalizações em 32 estados; CDC afirma que número real de infectados pode ser muito maior
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O surto de salmonela associado ao consumo de jalapeños contaminados continua avançando nos Estados Unidos. Segundo a atualização mais recente dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), 431 pessoas em 32 estados foram infectadas pela bactéria Salmonella Javiana, sendo que 57 precisaram de hospitalização. Até o momento, não foram registradas mortes. As autoridades, porém, alertam que o número real de pessoas doentes provavelmente é superior ao balanço oficial, porque muitos pacientes se recuperam sem procurar atendimento médico e, consequentemente, não são testados. Além disso, pode levar de três a quatro semanas para que uma infecção seja identificada e incorporada às estatísticas do surto.

O episódio é investigado conjuntamente pelo CDC, pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e por autoridades estaduais e locais de saúde. As evidências epidemiológicas e de rastreamento apontam para jalapeños cultivados no estado mexicano de Sinaloa e distribuídos nos Estados Unidos pela Coast Citrus Distributors. A investigação permanece aberta e a FDA orienta consumidores, restaurantes e estabelecimentos comerciais a não vender, servir ou consumir os produtos que foram objeto de recall.

Casos aumentaram em poucos dias

O novo balanço representa uma expansão significativa em relação à atualização anterior. No início de agosto, o CDC contabilizava 345 casos em 27 estados e 36 hospitalizações. Agora, são 431 casos em 32 estados e 57 hospitalizações — um acréscimo de 86 infecções, 21 internações e cinco estados no período.

As doenças identificadas até agora começaram entre 19 de junho e 2 de agosto de 2026. O CDC ressalta, entretanto, que os casos mais recentes ainda podem não ter sido contabilizados devido ao intervalo necessário para investigação laboratorial e epidemiológica.

A distribuição geográfica também demonstra o alcance nacional do problema. Entre os estados com registros estão Alabama, Arkansas, Califórnia, Flórida, Geórgia, Illinois, Indiana, Louisiana, Michigan, Minnesota, Missouri, Nova Jersey, Nova York, Ohio, Oklahoma, Pensilvânia, Texas, Utah, Virgínia, Washington e Wisconsin, entre outros.

Restaurantes mexicanos aparecem entre os principais pontos de exposição

Um dos principais indícios utilizados pelos investigadores veio dos hábitos alimentares dos pacientes. Das 224 pessoas entrevistadas, 203 — o equivalente a 91% — disseram ter frequentado um restaurante de comida mexicana antes de adoecer. As refeições ocorreram entre 14 de junho e 16 de julho.

Os investigadores também identificaram 28 agrupamentos de casos em unidades do Chipotle Mexican Grill e da QDOBA distribuídas por oito estados. Entre os ingredientes frequentemente mencionados pelos pacientes estavam jalapeño, cebola roxa, coentro e abacate.

A análise genética reforçou a conexão entre os casos. Por meio do sistema PulseNet, que monitora infecções transmitidas por alimentos, os pesquisadores utilizaram o sequenciamento genômico completo para comparar as bactérias encontradas nos pacientes. Os resultados mostraram que as cepas eram geneticamente muito próximas, indicando uma possível origem comum.

Apesar da associação com grandes redes de restaurantes, as autoridades afirmam que não há indicação de risco contínuo nos estabelecimentos do Chipotle e da QDOBA envolvidos na investigação, porque as empresas interromperam o uso dos jalapeños afetados. O Chipotle trocou o fornecedor nas unidades atingidas a partir de 20 de julho, enquanto a QDOBA deixou de utilizar o produto em 28 de julho.

De onde vieram os jalapeños contaminados?

O rastreamento realizado pelas autoridades levou até um produtor localizado em Sinaloa, no México, que fornecia jalapeños à Coast Citrus Distributors. A FDA considera esse fornecedor uma provável origem da contaminação, embora a investigação ainda esteja em andamento e o nome do produtor não tenha sido divulgado pelas autoridades.

A Coast Citrus Distributors retirou do mercado os jalapeños relacionados ao surto e deixou de importar produtos daquele produtor. A partir do recall inicial, outras empresas passaram a retirar do mercado alimentos que haviam utilizado os pimentões contaminados como ingrediente.

A situação ganhou complexidade porque os jalapeños não chegaram somente às prateleiras dos supermercados. Eles também foram utilizados na fabricação de alimentos preparados, molhos, salsas, guacamole e outros produtos comercializados em diferentes regiões do país.

Recall atingiu produtos vendidos por grandes redes

Entre as empresas que retiraram produtos do mercado está a Taylor Fresh Foods, que anunciou o recall de alimentos preparados com os jalapeños envolvidos. A medida atingiu produtos como molhos, salsa e guacamole distribuídos para centros de varejo em diversos estados. Entre os estabelecimentos que receberam produtos estão redes como Hannaford, Kroger, Stop & Shop, Target, Trader Joe’s, Walmart e Whole Foods.

A Whole Foods Market também retirou do mercado determinados tipos de salsa, guacamole, pico de gallo e alimentos preparados que continham os jalapeños. Os produtos foram comercializados em estados como Texas, Oklahoma, Louisiana, Arkansas, Wisconsin, Michigan, Illinois, Indiana, Iowa, Missouri, Kentucky e Ohio, com datas de validade ou consumo indicadas entre 7 e 16 de agosto de 2026.

Outra empresa envolvida é a NatureBest Precut & Produce, que recolheu produtos vendidos sob as marcas NatureBest e H-E-B. Entre os alimentos estavam pico de gallo, cogumelos recheados e mistura para sopa contendo os jalapeños relacionados ao surto.

A FDA também informa que produtos de carne e aves que utilizaram os jalapeños contaminados foram alvo de alerta de saúde pública emitido pelo Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA-FSIS).

Quais são os sintomas da salmonela?

A infecção por Salmonella pode provocar principalmente diarreia, febre e cólicas ou dores abdominais. De acordo com o CDC, os sintomas geralmente começam entre seis horas e seis dias depois da ingestão da bactéria, e a maioria das pessoas se recupera sem tratamento específico em aproximadamente quatro a sete dias.

Entretanto, a infecção pode ser mais grave em determinados grupos, especialmente crianças menores de 5 anos, adultos com 65 anos ou mais e pessoas com o sistema imunológico enfraquecido. Nesses casos, a doença pode exigir atendimento médico e hospitalização.

O CDC recomenda procurar atendimento médico rapidamente diante de sinais de maior gravidade, como diarreia acompanhada de febre superior a aproximadamente 38,9 °C, diarreia por mais de dois dias sem melhora, presença de sangue nas fezes, vômitos intensos que impeçam a ingestão de líquidos ou sinais de desidratação.

Por que o número de casos ainda pode crescer?

Apesar dos 431 casos oficialmente confirmados, o CDC considera que o balanço provavelmente representa apenas uma parcela das pessoas que adoeceram.

Isso ocorre por diferentes motivos. Muitas pessoas com sintomas relativamente leves não procuram um serviço de saúde. Mesmo quando procuram atendimento, nem todos os pacientes são submetidos a testes específicos para Salmonella. Além disso, a confirmação de que uma infecção pertence a determinado surto depende de análises laboratoriais e epidemiológicas que podem levar semanas.

O próprio CDC afirma que normalmente são necessárias três a quatro semanas para determinar se uma pessoa doente está relacionada a um surto. Por isso, os casos correspondentes às últimas semanas ainda podem aparecer nas próximas atualizações.

O que consumidores devem fazer?

A principal recomendação das autoridades é verificar os produtos que estão em casa e não consumir jalapeños ou alimentos preparados com os pimentões incluídos nos recalls.

Quem tiver um produto recolhido deve descartá-lo ou seguir as orientações específicas do fabricante ou do estabelecimento onde ele foi comprado. Também é importante lavar e higienizar superfícies, utensílios e recipientes que tenham entrado em contato com os jalapeños contaminados, reduzindo o risco de contaminação cruzada.

Para restaurantes, supermercados, distribuidores e fabricantes, a orientação é ainda mais rigorosa: os produtos afetados não devem ser vendidos, servidos ou utilizados na fabricação de outros alimentos. Empresas que tenham recebido jalapeños provenientes de Sinaloa por meio da Coast Citrus Distributors e não consigam determinar a origem devem entrar em contato com seus fornecedores para verificar o produto.

Um alerta que vai além dos jalapeños

O surto ocorre em um momento de forte atenção das autoridades americanas para doenças transmitidas por alimentos. Paralelamente à investigação da salmonela, os Estados Unidos enfrentam um grande surto de ciclosporíase, uma doença parasitária associada principalmente ao consumo de alimentos contaminados.

Segundo a atualização mais recente do CDC, desde 1º de maio de 2026 foram registrados 15.716 casos confirmados de ciclosporíase adquirida nos Estados Unidos, além de pelo menos 11.841 casos adicionais que podem exigir investigação.

Os dois episódios têm agentes diferentes, a salmonela é causada por uma bactéria, enquanto a ciclosporíase é provocada pelo parasita Cyclospora cayetanensis —, mas ambos reforçam a importância do controle sanitário ao longo da cadeia de produção, distribuição, preparação e consumo de alimentos.

Investigação continua

Até esta sexta-feira, 21 de agosto de 2026, o último balanço oficial disponível do CDC permanece em 431 casos de Salmonella Javiana em 32 estados, 57 hospitalizações e nenhuma morte, com doenças identificadas até 2 de agosto. A investigação continua e as autoridades não descartam novos casos e novos recalls à medida que informações laboratoriais e de rastreamento forem analisadas.

A principal orientação para consumidores permanece a mesma: não consumir produtos recolhidos, verificar os avisos oficiais de recall e procurar atendimento médico diante de sintomas graves ou persistentes após possível exposição.

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