Relatório enviado ao STF cita mensagens sobre pagamentos e benefícios, reuniões com agentes públicos e atuação em negócios de empresa que acumulou contratos federais; defesas negam irregularidades
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A Polícia Federal identificou indícios de que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aparece em mensagens como destinatário de pagamentos e benefícios custeados por um empresário interessado em ampliar negócios com o governo federal. As informações constam de um relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e fazem parte de uma investigação que apura suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e o empresário Cléber Ribas de Oliveira, ligado à empresa de tecnologia 3Structure IT. Segundo a PF, as mensagens analisadas indicam que Lulinha teria participado de reuniões e discussões relacionadas aos negócios de Ribas e, em ao menos uma ocasião, orientado a emissão de uma nota fiscal para cobrar o empresário. A empresa ligada a Ribas acumulou contratos milionários com o governo federal durante a atual gestão, enquanto o empresário nega favorecimento e afirma que seus negócios com o poder público seguiram os procedimentos legais.
O que a Polícia Federal está investigando
O caso surgiu a partir da análise de mensagens e outros elementos obtidos pela Polícia Federal durante investigações relacionadas à Operação Sem Desconto, que apura fraudes envolvendo descontos associativos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A partir desse material, a PF abriu frentes específicas para investigar possíveis relações de Lulinha com empresários e lobistas que buscavam negócios junto ao governo federal.
Uma dessas frentes concentra-se na relação entre Lulinha, Roberta Luchsinger e Cléber Ribas e na possível tentativa de obter contratos junto à Dataprev, empresa pública de tecnologia e informações da Previdência.
O segundo inquérito contra Lulinha foi autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, em julho de 2026. A investigação busca esclarecer se houve utilização de influência política ou pessoal para favorecer interesses privados em negociações com a Dataprev e outros órgãos públicos.
A apuração não significa que Lulinha tenha sido condenado ou que a PF tenha concluído definitivamente pela existência de um crime. O objetivo da investigação é justamente reunir provas para determinar se houve irregularidade, qual teria sido a participação de cada envolvido e se existiu vantagem indevida.
Mensagens colocam Lulinha no centro das negociações
Segundo o relatório da PF divulgado por veículos que tiveram acesso ao conteúdo da investigação, as conversas encontradas no celular da lobista Roberta Luchsinger são um dos principais elementos da apuração.
Em determinado trecho, segundo o relatório, a PF afirma que Lulinha aparece associado a reuniões de interesse empresarial e é mencionado como “destinatário de pagamentos e benefícios custeados por terceiros”.
Os investigadores também apontam que ele teria participado de discussões sobre negócios desenvolvidos pelo grupo e, em pelo menos uma situação, interferido diretamente em uma questão relacionada à emissão de nota fiscal para Cléber Ribas.
A interpretação da PF é que esses elementos, considerados em conjunto, justificariam o aprofundamento das diligências para esclarecer o papel de Lulinha e eventual vantagem que ele possa ter recebido.
É importante destacar, porém, que ser citado em mensagens ou aparecer como possível destinatário de pagamentos não equivale, por si só, à comprovação de recebimento ilícito ou de tráfico de influência. Essa distinção é especialmente relevante porque o caso ainda está sob investigação.
Quem é Cléber Ribas
Cléber Ribas de Oliveira é empresário do setor de tecnologia e está ligado à 3Structure IT, empresa que passou a aparecer nas investigações por causa de contratos firmados com órgãos públicos.
Segundo levantamentos publicados a partir dos dados dos contratos, a companhia acumulou seis contratos federais que somam cerca de R$ 85,7 milhões, sendo cinco deles firmados durante o atual governo. Um dos contratos citados nas reportagens chega a aproximadamente R$ 42 milhões.
A relação empresarial é um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores porque, paralelamente à obtenção dos contratos, a PF identificou mensagens nas quais Roberta Luchsinger tratava com Ribas sobre reuniões e oportunidades de negócios no governo.
A investigação busca determinar se a proximidade pessoal entre Ribas e Lulinha teve alguma influência sobre as negociações com órgãos públicos.
Empresa recebeu contratos durante o governo Lula
Entre os contratos que aparecem no material investigado estão negócios firmados com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).
Segundo informações divulgadas com base na investigação, a 3Structure obteve contratos de aproximadamente R$ 14,4 milhões e R$ 19,2 milhões com o MDS, em dezembro de 2023 e abril de 2024, respectivamente.
Outros levantamentos apontam que a empresa chegou a aproximadamente R$ 85,7 milhões em contratos federais.
O simples fato de os contratos terem sido assinados durante o governo Lula não demonstra irregularidade. Empresas privadas podem participar normalmente de licitações e outros procedimentos de contratação pública.
O que a PF tenta esclarecer é se houve, paralelamente aos procedimentos oficiais, alguma atuação informal de pessoas próximas ao poder político para facilitar ou influenciar a contratação.
Lobista recebeu R$ 2,5 milhões de Ribas
Outro elemento considerado relevante pela PF são os pagamentos feitos por Cléber Ribas à lobista Roberta Luchsinger.
De acordo com a investigação, Ribas contratou Luchsinger para atuar na defesa dos interesses de suas empresas perante órgãos públicos. Entre março de 2024 e dezembro de 2025, ela teria recebido pelo menos R$ 2,5 milhões.
A PF afirma que, em troca, Luchsinger realizou articulações e marcou reuniões com integrantes de órgãos públicos em defesa dos interesses empresariais de Ribas.
As mensagens também mostram a lobista relatando ao empresário que estava trabalhando para abrir portas em diferentes órgãos.
Em uma conversa de 2023, segundo o material divulgado, ela mencionou Dataprev, Correios, Portos e Aeroportos e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
A frase “Mas eu envolvi o palácio”, atribuída à lobista em uma das mensagens, ganhou destaque na investigação porque os policiais buscam descobrir a quem ela se referia e se houve, de fato, participação de integrantes do núcleo presidencial nas negociações.
O episódio da nota fiscal
Um dos elementos mais específicos encontrados nas mensagens envolve uma nota fiscal.
Segundo reportagens baseadas no conteúdo apreendido pela PF, em julho de 2023 Lulinha teria enviado uma mensagem para Roberta Luchsinger orientando-a a emitir uma nota fiscal para cobrar Cléber Ribas.
A conversa, conforme reproduzida pelos veículos que tiveram acesso ao material, teria sido curta, com Lulinha fazendo a solicitação e a lobista respondendo que a nota já havia sido emitida.
O episódio chamou a atenção dos investigadores porque a 3Structure IT, ligada a Ribas, posteriormente manteve contratos milionários com o governo.
Ainda não está esclarecido publicamente qual serviço estava sendo cobrado naquela nota, qual era o valor ou se o pagamento tinha relação direta com algum contrato público.
A própria Gazeta do Povo, ao analisar o episódio, observou que a conversa não permite concluir, isoladamente, que a cobrança estivesse relacionada a um contrato governamental ou a uma intervenção política. Essas são justamente questões que a investigação busca esclarecer.
A viagem que também entrou na investigação
A PF também investiga possíveis despesas de Lulinha que teriam sido bancadas por Cléber Ribas.
Segundo informações divulgadas sobre o inquérito, os investigadores encontraram indícios de que Ribas teria custeado pelo menos uma viagem de Lulinha, em um contexto no qual o empresário buscava negócios com órgãos públicos.
A hipótese investigada é que pagamentos ou benefícios poderiam estar relacionados às articulações empresariais.
Novamente, trata-se de uma hipótese investigativa, e não de uma conclusão judicial. A PF precisa estabelecer a origem dos recursos, quem efetivamente pagou as despesas, qual era a natureza desses pagamentos e se existia alguma contrapartida.
A ligação com a Dataprev
A Dataprev se tornou um dos principais focos da nova investigação.
A empresa pública é responsável por soluções de tecnologia e processamento de informações utilizadas pelo governo federal, especialmente em áreas relacionadas à Previdência Social.
A PF quer descobrir se Lulinha teria usado sua proximidade com pessoas do governo para facilitar o acesso de Ribas a autoridades e dirigentes da Dataprev.
O inquérito foi autorizado pelo STF justamente para esclarecer essa possível atuação.
Segundo a apuração, Ribas teria se reunido algumas vezes na Dataprev durante o governo Lula, enquanto mantinha contato com pessoas investigadas pela PF por outras suspeitas.
O papel de Roberta Luchsinger
Roberta Luchsinger ocupa uma posição central no caso porque aparece nas conversas tanto com Lulinha quanto com empresários interessados em contratos públicos.
A empresária é amiga de Lulinha e também foi alvo de investigações relacionadas à Operação Sem Desconto.
No caso envolvendo Ribas, a PF suspeita que ela tenha funcionado como uma espécie de intermediária entre interesses privados e agentes públicos.
O relatório aponta que Luchsinger teria realizado dezenas de contatos e reuniões para tentar abrir caminhos para os negócios dos empresários.
Em 2023 e 2024, segundo informações divulgadas sobre a investigação, ela esteve 17 vezes no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
A investigação agora tenta estabelecer se essas atividades estavam dentro dos limites legais de representação empresarial ou se ultrapassaram a fronteira para o tráfico de influência.
O que caracteriza tráfico de influência
O tráfico de influência é previsto no artigo 332 do Código Penal brasileiro.
O crime ocorre quando alguém solicita, exige, cobra ou obtém vantagem ou promessa de vantagem alegando que pode influenciar um ato praticado por funcionário público no exercício da função.
Isso não significa que todo trabalho de lobby ou representação empresarial seja criminoso.
Empresas e entidades podem procurar autoridades e apresentar demandas, desde que respeitados os limites legais e as regras de transparência.
Por isso, uma das perguntas centrais da investigação é justamente onde terminava a atividade empresarial legítima e onde começaria uma eventual utilização indevida de relações pessoais e políticas.
Investigação tem mais de uma frente
O caso de Cléber Ribas não é a única investigação envolvendo Lulinha.
Segundo informações publicadas pela imprensa, existem atualmente três frentes de investigação relacionadas ao filho do presidente.
Uma delas examina suspeitas envolvendo negócios no setor de cannabis medicinal e contatos com o Ministério da Saúde.
Outra trata especificamente das relações com Ribas e da possível atuação na Dataprev.
Uma terceira frente foi aberta para apurar outros fatos relacionados a possíveis práticas de influência e circulação de informações.
A Procuradoria-Geral da República também pediu ao STF que uma das investigações seja encaminhada para a primeira instância, sob o argumento de que não há autoridade com foro privilegiado entre os investigados que justifique a permanência do caso no Supremo.
O que dizem as defesas
A defesa de Cléber Ribas nega favorecimento e afirma que a relação entre o empresário e Lulinha é decorrente de amizade, sem vínculo profissional ou comercial entre os dois.
Os advogados também sustentam que os contratos da 3Structure IT com o governo foram firmados de acordo com os procedimentos administrativos previstos em lei e sem favorecimento.
A defesa de Lulinha, por sua vez, nega irregularidades e critica a divulgação de informações provenientes de investigações sigilosas. Os advogados questionam a forma como as mensagens estão sendo divulgadas e afirmam que há motivação política nos vazamentos.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirmou, segundo reportagem do UOL, que os procedimentos de contratação são conduzidos pelas áreas técnicas e seguem os trâmites legais.
Caso coloca relações pessoais e contratos públicos sob investigação
O caso ganhou dimensão política porque envolve o filho do presidente da República e empresários que obtiveram contratos milionários com órgãos federais durante o governo Lula.
Mas, juridicamente, a situação ainda está em fase de investigação.
Os contratos existentes não comprovam, por si só, corrupção ou tráfico de influência. Da mesma forma, mensagens que mencionam pagamentos ou reuniões precisam ser contextualizadas e confrontadas com documentos financeiros, contratos, agendas oficiais e depoimentos.
O ponto central da investigação da PF é descobrir se a proximidade de Lulinha com empresários e lobistas foi utilizada para obter vantagens indevidas dentro da administração pública.
Até que as diligências sejam concluídas e, eventualmente, haja uma decisão judicial, Lulinha e os demais investigados permanecem sob o princípio da presunção de inocência.
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