Empresa ligada ao “Careca do INSS” e a amiga de Lulinha movimentou R$ 6,1 milhões no BRB

Coaf apontou movimentação incompatível com receita de apenas R$ 2,7 mil declarada ao banco

Por Ana Raquel |GNEWSUSA 

Uma empresa ligada ao empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, entrou no radar das autoridades após apresentar uma movimentação financeira milionária considerada incompatível com os valores declarados ao banco.

A Camilo Comércio e Serviços, que utilizava o nome fantasia World Cannabis, movimentou aproximadamente R$ 6,1 milhões em uma conta do Banco de Brasília (BRB) entre 2023 e 2025.

O que chama atenção é que a empresa havia declarado ao banco uma receita operacional bruta de apenas R$ 2.765,70.

A diferença é expressiva: enquanto a receita informada era de pouco mais de R$ 2,7 mil, os valores que passaram pela conta chegaram à casa dos milhões.

A discrepância entre a movimentação financeira e a capacidade econômica declarada é um dos principais pontos de alerta registrados na análise do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Uma empresa de R$ 10 mil envolvida em operação de R$ 626 milhões

A World Cannabis foi constituída em 25 de abril de 2023, com capital social de apenas R$ 10 mil.

Antonio Carlos Camilo Antunes possuía 90% da empresa, enquanto seu filho, Romeu Carvalho Antunes, detinha os outros 10%.

Apesar da estrutura enxuta e da baixa receita declarada, a empresa aparece relacionada a uma operação de proporções muito maiores.

Documentos apontam que Antonio Carlos Camilo Antunes e a lobista Roberta Luchsinger pretendiam utilizar a companhia em um negócio envolvendo aproximadamente R$ 626 milhões em canabidiol para o Ministério da Saúde.

A informação amplia os questionamentos sobre a capacidade operacional e financeira da empresa e sobre a finalidade das movimentações identificadas.

Milhões circulando entre empresas ligadas ao empresário

A movimentação não se limitava à World Cannabis.

Segundo a análise financeira, a empresa recebia e enviava recursos principalmente por meio de transferências envolvendo companhias ligadas aos próprios sócios.

Entre elas estavam a Prospect Consultoria e a Brasília Consultoria Empresarial, empresas relacionadas a Antonio Carlos Camilo Antunes.

Os documentos apontam que havia depósitos e recebimentos frequentes entre essas empresas e a World Cannabis.

Algumas das operações ultrapassavam R$ 100 mil, mesmo diante de uma receita declarada ao banco de apenas R$ 2.765,70.

O Coaf registrou ainda que não havia informações financeiras suficientes capazes de explicar de forma satisfatória a origem e a finalidade de parte dos recursos movimentados.

R$ 451 mil em uma transferência para a Espanha

Um dos episódios que mais chamam atenção ocorreu em 31 de março de 2025.

Naquela data, a World Cannabis tentou enviar 70.653,87 euros, valor equivalente a aproximadamente R$ 451 mil na cotação da época, para a empresa Foliumed, localizada em Madri, na Espanha.

A justificativa apresentada para o pagamento era a contratação de serviços de consultoria técnica.

A operação, porém, foi considerada atípica e acabou recusada pela instituição responsável pelo câmbio, que comunicou o caso ao Coaf.

O episódio ocorreu no mesmo período em que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estava se mudando para a Espanha.

Os documentos também apontam que a sede da Foliumed ficava a aproximadamente 1,3 quilômetro da empresa ligada a Lulinha e cerca de 15 quilômetros da residência dele no país europeu.

A proximidade dos endereços não comprova, sozinha, qualquer vínculo financeiro entre Lulinha e a operação. O dado, porém, passou a integrar o contexto das informações levantadas sobre a transferência internacional.

Dinheiro de aposentados também aparece no caminho

Outro ponto relevante envolve uma associação de aposentados e pensionistas.

Em 24 de outubro de 2024, a Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas da Nação (Abapen) transferiu R$ 625.962,50 para a Prospect Consultoria.

Na sequência, a Prospect repassou R$ 100 mil para a World Cannabis.

Segundo os documentos analisados, não foi identificada uma justificativa econômica suficiente para explicar o crédito recebido pela Prospect.

A sequência chama atenção justamente pela circulação do dinheiro entre diferentes empresas:

Abapen → Prospect Consultoria → World Cannabis.

A questão central da apuração é esclarecer qual era a origem dos recursos, qual serviço justificava os pagamentos e por que parte do dinheiro terminou em uma empresa ligada ao “Careca do INSS”.

Uma sequência de operações que levanta questionamentos

Os dados reunidos apresentam uma sequência financeira que merece atenção.

Uma empresa criada com R$ 10 mil de capital social declarou receita operacional bruta de apenas R$ 2.765,70, mas movimentou cerca de R$ 6,1 milhões.

Ao mesmo tempo, a companhia aparece relacionada a um projeto de R$ 626 milhões em canabidiol, realizou operações superiores a R$ 100 mil com empresas ligadas aos próprios sócios, tentou enviar R$ 451 mil para uma empresa na Espanha e recebeu R$ 100 mil após recursos de uma associação de aposentados passarem por uma consultoria.

É justamente a combinação desses fatos que coloca a movimentação financeira da World Cannabis sob forte questionamento.

O que precisa ser esclarecido

As informações levantadas não significam, automaticamente, que todos os envolvidos tenham cometido crimes. A função do Coaf é identificar movimentações financeiras que possam apresentar características atípicas e fornecer informações de inteligência para investigações.

Por isso, os pontos que precisam ser esclarecidos são objetivos:

• Qual era a origem dos R$ 6,1 milhões movimentados pela World Cannabis?

• Por que a empresa declarou apenas R$ 2.765,70 de receita ao banco?

• Qual era a finalidade das transferências entre as empresas ligadas aos sócios?

• Qual seria exatamente o papel da World Cannabis no negócio de R$ 626 milhões em canabidiol?

• Qual serviço justificaria o pagamento de aproximadamente R$ 451 mil à empresa espanhola?

• Qual era a relação comercial entre a Abapen, a Prospect Consultoria e a World Cannabis?

• Por que R$ 100 mil foram repassados à empresa de cannabis depois de recursos provenientes da associação de aposentados chegarem à Prospect?

São perguntas que precisam de respostas claras, especialmente diante do tamanho das movimentações e da diferença entre a realidade financeira registrada na conta e a capacidade econômica declarada pela empresa.

O caso acrescenta mais um capítulo às investigações envolvendo o chamado “Careca do INSS” e coloca sob escrutínio uma rede de empresas, transferências e operações nacionais e internacionais que movimentaram valores muito superiores à estrutura financeira oficialmente apresentada pela World Cannabis.

Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD

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