Frio e calor extremos podem aumentar risco de internação por insuficiência cardíaca, aponta estudo

Pesquisa com 482 mil hospitalizações na Suécia revela que o frio pode elevar o risco dias após a exposição, enquanto temperaturas mais altas estão associadas a efeitos mais rápidos; especialistas defendem sistemas de alerta para proteger pacientes cardiovasculares
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Temperaturas muito baixas ou muito altas podem representar uma ameaça adicional para pessoas que convivem com insuficiência cardíaca. Um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC) analisou 482 mil hospitalizações por insuficiência cardíaca na Suécia entre 2006 e 2021 e encontrou uma associação entre a exposição de curto prazo a temperaturas inadequadas e o aumento do risco de internação. O efeito, porém, não ocorre da mesma maneira em todas as situações: enquanto o impacto do frio pode aparecer entre dois e seis dias depois da exposição, com maior evidência entre o terceiro e o quinto dia, temperaturas mais elevadas estiveram associadas a um aumento mais imediato do risco, entre o mesmo dia e até três dias depois.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores de instituições como a Harvard T.H. Chan School of Public Health, o Karolinska Institutet, na Suécia, e o Helmholtz Zentrum München, na Alemanha. Os resultados foram publicados em 27 de agosto de 2026 e apresentados durante o Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC Congress 2026).

A pesquisa é especialmente relevante porque investiga uma população de um país de alta latitude, onde a exposição ao frio é frequente, mas que também vem enfrentando maior preocupação com episódios de calor à medida que o clima global se aquece.

Quase meio milhão de hospitalizações analisadas

Para investigar a relação entre temperatura e insuficiência cardíaca, os pesquisadores utilizaram registros do Swedish National Patient Register, banco nacional de dados de saúde da Suécia.

Foram consideradas aproximadamente 482 mil hospitalizações por insuficiência cardíaca registradas entre 2006 e 2021. A equipe relacionou os episódios de internação às temperaturas observadas nos municípios onde os pacientes viviam e analisou a evolução do risco nos dias seguintes à exposição.

O estudo utilizou um desenho epidemiológico do tipo case-crossover, combinado a modelos capazes de avaliar os efeitos da temperatura ao longo de diferentes intervalos de tempo. Dessa forma, os pesquisadores puderam observar não apenas se temperaturas extremas estavam relacionadas às internações, mas também quanto tempo depois da exposição o aumento do risco poderia aparecer.

Essa diferença temporal é uma das principais conclusões do trabalho.

Como os pesquisadores definiram frio e calor extremos

Os cientistas não utilizaram uma temperatura fixa para definir o que seria uma onda de frio ou uma onda de calor em todo o território sueco.

O critério levou em consideração as características climáticas de cada município.

Foram classificadas como ondas de frio situações de pelo menos dois dias consecutivos em que a temperatura média diária ficou igual ou abaixo do quinto percentil da distribuição de temperaturas daquele município durante os meses de outubro a março.

Já as ondas de calor foram definidas como períodos de pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas médias iguais ou superiores ao 95º percentil entre abril e setembro.

A metodologia é importante porque uma temperatura considerada excepcionalmente baixa em determinada região pode ser relativamente comum em outra. O uso de percentis municipais permite, portanto, considerar melhor as condições climáticas locais.

O frio pode cobrar a conta dias depois

Um dos resultados mais importantes apareceu na análise das temperaturas baixas.

A exposição a ondas de frio esteve associada a um aumento do risco de hospitalização por insuficiência cardíaca entre o segundo e o sexto dia após a exposição. A associação atingiu significância estatística principalmente entre o terceiro e o quinto dia.

A exposição a temperaturas ambientes mais baixas, mesmo fora de períodos classificados como ondas de frio, também foi associada a maior risco de internação entre o terceiro e o sexto dia, com evidência estatística mais forte entre o terceiro e o quinto dia.

No caso das ondas de frio, a associação acumulada entre o segundo e o sexto dia correspondeu a uma razão de chances (odds ratio) de 1,085, com intervalo de confiança de 95% entre 1,042 e 1,129. Isso corresponde, no modelo utilizado, a aproximadamente 8,5% de aumento nas chances de hospitalização associadas ao episódio de frio, considerando aquele intervalo de exposição e defasagem.

É importante destacar que esse resultado representa uma associação epidemiológica, e não significa que uma onda de frio provoque necessariamente uma internação em determinada pessoa.

Calor apresenta resposta mais rápida

O comportamento observado com temperaturas elevadas foi diferente.

Durante a estação quente, temperaturas mais altas estiveram associadas a um aumento das chances de hospitalização por insuficiência cardíaca entre o dia da exposição e os três dias seguintes, com o efeito tendendo a diminuir nos intervalos posteriores.

Na análise acumulada entre zero e três dias, cada aumento de 10 pontos percentuais na distribuição local de temperatura esteve associado a uma razão de chances de 1,009, com intervalo de confiança de 95% entre 1,006 e 1,013.

O estudo, entretanto, encontrou uma diferença importante quando analisou especificamente os períodos classificados como ondas de calor. Nesse caso, houve associações positivas, mas elas não foram estatisticamente significativas para a definição mais ampla de insuficiência cardíaca utilizada pelos pesquisadores.

Isso significa que o resultado não deve ser interpretado como uma prova de que toda onda de calor provoque um aumento estatisticamente significativo nas hospitalizações por insuficiência cardíaca.

Por que o frio pode afetar o coração?

A relação entre baixas temperaturas e problemas cardiovasculares já é conhecida pela medicina.

Quando o organismo é exposto ao frio, os vasos sanguíneos periféricos se contraem — processo chamado de vasoconstrição. Essa resposta ajuda a preservar o calor corporal, mas também aumenta a resistência vascular e pode elevar a pressão arterial.

A American Heart Association explica que a contração dos vasos causada pelo frio pode aumentar a pressão arterial e elevar o esforço imposto ao sistema cardiovascular. Pessoas que já apresentam doenças cardiovasculares podem ser particularmente vulneráveis.

Estudos fisiológicos também mostram que o resfriamento do corpo pode aumentar a resistência vascular e a pressão arterial por meio da vasoconstrição.

Para quem possui insuficiência cardíaca, alterações desse tipo podem representar uma carga adicional sobre um coração que já apresenta dificuldade para bombear sangue adequadamente.

E o que acontece durante o calor?

Temperaturas elevadas também podem sobrecarregar o sistema cardiovascular, mas por mecanismos diferentes.

Segundo o CDC, o calor aumenta a demanda sobre o coração e o sistema circulatório e pode favorecer desidratação, formação de coágulos e alterações nos eletrólitos. Em pessoas com doenças cardiovasculares, a exposição ao calor pode agravar a insuficiência cardíaca e contribuir para eventos como síndrome coronariana aguda, infarto, arritmias e acidente vascular cerebral.

O problema pode ser agravado pela combinação de calor e umidade, que dificulta a perda de calor pelo organismo.

Por isso, o CDC recomenda que pessoas com doenças cardiovasculares adotem medidas específicas de proteção durante períodos de calor e mantenham atenção às previsões e aos alertas meteorológicos.

Resultado reforça importância de considerar o tempo na prevenção

Para os autores do estudo, os resultados mostram que a relação entre clima e saúde cardiovascular não deve ser analisada apenas no momento em que ocorre uma temperatura extrema.

O intervalo entre exposição e hospitalização é particularmente importante. O frio apresentou um efeito mais tardio, enquanto as temperaturas elevadas tiveram associação com um aumento mais rápido do risco.

Essa diferença pode influenciar a maneira como serviços de saúde e pacientes são orientados durante eventos meteorológicos extremos.

Em comentário editorial publicado junto ao estudo, Tiantian Li, vice-diretor do Instituto Nacional de Saúde Ambiental do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças, defendeu que as evidências disponíveis sejam transformadas em ferramentas de prevenção e sistemas de alerta capazes de antecipar riscos cardiovasculares relacionados às condições meteorológicas.

A ideia é que uma previsão de frio intenso ou calor extremo não seja apenas uma informação meteorológica, mas também um sinal para intensificar medidas de proteção entre pessoas mais vulneráveis.

Mudanças climáticas ampliam a preocupação

O estudo também ganha relevância no contexto das mudanças climáticas.

Eventos extremos de temperatura vêm recebendo atenção crescente das autoridades de saúde porque podem afetar diferentes sistemas do organismo e atingir de maneira desproporcional pessoas idosas e indivíduos que já convivem com doenças cardiovasculares.

A American Heart Association destaca que tanto o calor quanto o frio estão associados a maior risco de eventos cardiovasculares, incluindo descompensação da insuficiência cardíaca, infarto, acidente vascular cerebral, arritmias e morte súbita. A entidade também aponta que a exposição pode produzir efeitos que permanecem por dias após o episódio meteorológico.

O CDC, por sua vez, afirma que eventos de calor extremo estão associados ao aumento de hospitalizações por doenças cardiovasculares, além de problemas respiratórios e renais.

Quem precisa ter mais atenção

Embora o estudo tenha sido realizado na Suécia, seus resultados reforçam uma preocupação que pode ser relevante para outros países: pessoas que já possuem doenças cardiovasculares podem apresentar maior vulnerabilidade diante de temperaturas fora da faixa habitual.

Entre os grupos que merecem atenção especial estão:

  • pessoas com insuficiência cardíaca;

  • idosos;

  • indivíduos com hipertensão;

  • pessoas com outras doenças cardiovasculares;

  • pacientes que utilizam medicamentos que podem interferir na resposta do organismo ao calor;

  • pessoas expostas por longos períodos a ambientes muito frios ou muito quentes.

A vulnerabilidade, contudo, não é determinada apenas pela temperatura. Condições de moradia, acesso a climatização, infraestrutura, situação socioeconômica e capacidade de adaptação ao clima também podem influenciar o risco.

Prevenção pode ser decisiva

Para pessoas com insuficiência cardíaca, medidas preventivas durante períodos de temperaturas extremas podem ajudar a reduzir a sobrecarga sobre o organismo.

Em dias muito quentes, o CDC recomenda permanecer em ambientes frescos, manter hidratação adequada e evitar atividades físicas nos horários de maior calor. Pessoas com doenças cardiovasculares devem seguir as orientações específicas de seus médicos, especialmente em relação à ingestão de líquidos e ao uso de medicamentos.

No frio, a recomendação é evitar exposição prolongada a temperaturas muito baixas e proteger adequadamente o corpo. A American Heart Association alerta ainda que atividades físicas intensas realizadas em condições de frio podem acrescentar estresse ao coração.

O estudo sueco não estabelece que uma determinada temperatura seja universalmente perigosa. Seus resultados mostram, sobretudo, que a exposição a temperaturas fora da faixa considerada adequada pode estar relacionada a um aumento temporário do risco de hospitalização por insuficiência cardíaca, com diferentes tempos de resposta para frio e calor.

Com a ocorrência de eventos extremos de temperatura ganhando importância para a saúde pública, os pesquisadores defendem que previsões meteorológicas e informações cardiovasculares sejam cada vez mais integradas. A expectativa é que alertas antecipados permitam proteger justamente quem tem maior probabilidade de sofrer uma descompensação.

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