Conversas recuperadas pela Polícia Federal no celular de Roberta Luchsinger registram ordens para entrega de dinheiro, pagamento de R$ 26,8 mil a agência de viagens e cobrança de R$ 100 mil antes de viagem de Lulinha a Portugal
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA
Mensagens recuperadas pela Polícia Federal (PF) no celular da lobista Roberta Luchsinger registram uma sequência de conversas sobre dinheiro, pagamentos e despesas que, segundo a apuração divulgada nesta quinta-feira (24), estariam relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os diálogos envolvem a própria Roberta, seu motorista, Ulisses Barbosa Viana Junior, e o ex-secretário de Saúde de Goiânia Quesede Ayres Henrique.
Os registros mostram desde uma orientação para que dinheiro fosse levado pessoalmente a alguém identificado como “Fábio” até um depósito de R$ 26.809 para a agência de viagens TTW Group. Em outra conversa, Roberta cobra de Quesede um Pix de R$ 100 mil, afirmando que precisava fazer um pagamento antes de uma pessoa embarcar. Na mesma noite, Lulinha embarcou em Guarulhos com destino a Lisboa.
As mensagens, porém, são contestadas pela defesa de Lulinha, que afirma não reconhecer o material e questiona sua autenticidade e a identificação do destinatário citado nas conversas.
Dinheiro no porta-malas e ordem para entregar a “Fábio”
Uma das conversas mais diretas ocorreu em 29 de novembro de 2024. Roberta perguntou ao motorista Ulisses onde estava determinado valor.
“Cadê o dinheiro?”
Logo depois, escreveu:
“Tem que levar lá no Fábio”.
Ulisses respondeu que estava indo ao depósito e informou que o dinheiro estava no porta-malas de um Volvo. Roberta então passou instruções sobre como o valor deveria ser entregue:
“Tenho almoço no Cidade Jardim. De lá, você pegará Uber, deixará grana no Fábio e pega outro carro”.
A conversa não informa o valor que seria levado naquele momento. O nome “Fábio” é apontado na investigação jornalística como uma referência a Fábio Luís Lula da Silva, mas a defesa afirma que não há segurança de que o homem mencionado seja Lulinha.
R$ 26,8 mil pagos a uma agência de viagens
Outro diálogo ocorreu em 25 de julho de 2024. Roberta encaminhou ao motorista o número “26.809” e determinou:
“Tem que pagar mais isso para Fábio na TTW”.
Ulisses respondeu que faria o pagamento. Na sequência, enviou um comprovante de depósito no valor de R$ 26.809 para a TTW Group, uma agência de viagens.
Segundo as informações divulgadas sobre as mensagens, a TTW era utilizada por Roberta para organizar viagens internacionais dela e de Lulinha. A empresa também tinha entre seus funcionários Marina Mantega, filha do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e apontada como amiga de Roberta.
Esse registro chama atenção porque a mensagem não fala apenas genericamente sobre despesas: Roberta associa expressamente o valor ao nome “Fábio” e, logo depois, aparece o comprovante do pagamento à agência.
As informações divulgadas também apontam que Roberta teria custeado viagens de luxo para Lulinha, incluindo uma viagem à Finlândia para acompanhar a aurora boreal.
A cobrança de R$ 100 mil antes de viagem a Lisboa
Outra sequência de mensagens envolve Quesede Ayres Henrique, que havia ocupado o cargo de secretário de Saúde de Goiânia.
Em 8 de novembro de 2024, Roberta cobrou que Quesede providenciasse com urgência um pagamento de R$ 100 mil. Em uma mensagem de áudio, ela disse:
“Ô Quesede, tu dá um jeito de fazer esse Pix, porra, que o homem tá me cobrando, criatura”.
Quesede respondeu que o pagamento estava sendo feito. Mais tarde, às 18h20, Roberta voltou a cobrar:
“Fez? Ele vai embarcar e está me enchendo o saco”.
Naquela mesma noite, Lulinha embarcou em Guarulhos em um voo com destino a Lisboa, operado pela Latam. Segundo a apuração divulgada, o voo saiu às 22h40, e Lulinha ocupava o assento 6J, na classe premium business.
Também estava no mesmo voo Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, investigado no caso das fraudes envolvendo benefícios previdenciários. Antunes ocupava o assento 3A.
Segundo as informações divulgadas, Quesede efetivamente realizou um depósito de R$ 100 mil na conta da RL Consultoria, empresa de Roberta. O dinheiro teria sido enviado por uma empresa comercial de Goiânia.
A relação financeira ganha relevância no contexto das investigações porque Quesede era investigado por suspeitas de desvio de aproximadamente R$ 10 milhões na Secretaria de Saúde de Goiânia. As informações divulgadas apontam ainda que Roberta teria atuado para ajudá-lo a obter recursos federais para a prefeitura e recebido comissões por isso, com valores enviados por contas de terceiros. Quesede se entregou à polícia em dezembro de 2024.
Roberta chamava Lulinha de “sócio”
As mensagens também trazem uma expressão usada por Roberta ao se referir a Lulinha. Em uma conversa com Quesede, em dezembro de 2023, ela escreveu:
“meu sócio é guloso tá”.
Quesede respondeu:
“Eu também seria”.
E acrescentou:
“No lugar dele né”.
A expressão “sócio” aparece em outras conversas atribuídas a Roberta quando ela fala sobre Lulinha. O significado exato da expressão, porém, é uma questão que depende da interpretação das investigações e não está, por si só, estabelecido como prova de uma sociedade empresarial formal.
Por que a relação é investigada pela PF?
O caso não se resume às mensagens sobre pagamentos. Roberta Luchsinger já estava no radar da Polícia Federal antes de os diálogos serem divulgados.
A empresária foi alvo da Operação Sem Desconto, investigação que apura fraudes relacionadas a benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Na ocasião, o celular de Roberta foi apreendido e passou a ser analisado pelos investigadores.
As informações extraídas do aparelho levaram a PF a investigar também a relação dela com Lulinha e com Antônio Carlos Camilo Antunes. Roberta foi interrogada em maio deste ano para explicar essas conexões. Segundo a apuração divulgada, ela admitiu ter apresentado Lulinha ao empresário ligado ao caso do INSS e sustentou que viagens a Portugal tinham finalidade de negócios.
Atualmente, fatos envolvendo Lulinha e Roberta Luchsinger são investigados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Um deles concentra suspeitas de possível tráfico de influência no Ministério da Saúde envolvendo Lulinha, Roberta e o chamado Careca do INSS.
A suspeita investigada nesse eixo é de que o grupo teria buscado influência dentro do Ministério da Saúde para viabilizar negócios relacionados à venda de fármacos derivados de cannabis, como o canabidiol (CBD). Lulinha também teria mantido relação empresarial com Antunes na empresa Cannabis World, voltada ao segmento de produtos de maconha medicinal.
Outro inquérito investiga possíveis pagamentos feitos por Roberta a pessoas próximas do presidente Lula, enquanto uma terceira apuração trata de possível tráfico de influência envolvendo a Dataprev, empresa pública responsável pelo processamento de dados.
O que é tráfico de influência?
Para entender a investigação, é importante diferenciar uma atividade legítima de uma possível prática criminosa.
Lobista é a pessoa que atua para defender interesses de empresas ou grupos perante autoridades e órgãos públicos. A atuação de defesa de interesses, por si só, não significa crime. O problema surge quando a influência sobre agentes públicos é utilizada de maneira ilegal ou quando há pagamento ou vantagem indevida relacionado à atuação.
No caso investigado, a PF apura justamente se relações pessoais e empresariais foram utilizadas para obter vantagens junto ao governo federal, inclusive em áreas como o Ministério da Saúde e empresas públicas.
Por isso, as mensagens sobre dinheiro são relevantes para os investigadores: elas podem ajudar a esclarecer quem pagava, quem recebia, qual era a finalidade dos valores e qual relação existia entre as pessoas envolvidas.
Isso, contudo, não significa que as mensagens, isoladamente, comprovem a prática de um crime. A investigação precisa verificar a autenticidade do material, a origem dos recursos, o destinatário efetivo dos pagamentos e a existência ou não de uma relação entre os valores e eventuais decisões ou negócios públicos.
Defesa de Lulinha contesta mensagens
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela defesa de Lulinha, afirmou que não reconhece as mensagens como autênticas e questionou a identificação de “Fábio” nos diálogos.
“Não podemos reconhecer que essas mensagens são verdadeiras. Elas não constam dos inquéritos aos quais tivemos acesso no Supremo Tribunal Federal, de nenhum dos inquéritos. Não reconhecemos a autenticidade dessas mensagens e não sabemos se a cadeia de custódia dessas provas está hígida”, afirmou.
O advogado também sustentou que, mesmo que as mensagens sejam verdadeiras, não seria possível concluir que o “Fábio” mencionado é necessariamente Fábio Luís Lula da Silva.
“Então, mesmo se essas mensagens forem verdadeiras, nós não sabemos se esse Fábio é o Fábio Luís Lula da Silva”, disse.
Em outra declaração, a defesa afirmou:
“O que nós podemos dizer seguramente, como defesa dele, é que ele nunca, em nenhum momento, recebeu dinheiro da Roberta”.
Marco Aurélio também declarou que Lulinha está à disposição da Justiça e negou participação em irregularidades.
A defesa de Roberta Luchsinger, de Ulisses Barbosa Viana Junior e de Quesede Ayres Henrique foi procurada para comentar as informações, mas não havia apresentado manifestação até a publicação das informações que deram origem a esta reportagem.
As investigações seguem em andamento. As mensagens agora analisadas pela PF deverão ser confrontadas com outros elementos para esclarecer a origem dos valores, os destinatários dos pagamentos, a finalidade das transferências e se houve alguma relação entre essas movimentações financeiras e negócios ou decisões envolvendo órgãos públicos.
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