Estudo identifica possível alteração no sistema de dopamina em pessoas com Covid longa

Pesquisa publicada na revista científica eBioMedicine encontrou redução de um marcador cerebral associado aos neurônios que liberam dopamina. Os resultados podem ajudar a investigar sintomas persistentes, mas ainda não comprovam a causa nem apontam um tratamento específico
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A dificuldade para realizar tarefas simples, o cansaço persistente e os problemas de memória estão entre as manifestações que podem continuar mesmo depois da fase aguda da Covid-19. Uma pesquisa publicada em 2026 na revista científica eBioMedicine identificou uma possível associação entre esses sintomas e alterações em um sistema cerebral envolvido na motivação, no controle dos movimentos e em determinadas funções cognitivas.

O estudo investigou o funcionamento do sistema dopaminérgico em pessoas com Covid longa e sintomas neuropsiquiátricos persistentes. Os pesquisadores encontraram níveis reduzidos de um marcador relacionado às terminações nervosas que liberam dopamina em regiões específicas do cérebro.

Os resultados levantam uma nova possibilidade para compreender parte das consequências neurológicas da infecção pelo coronavírus. Entretanto, os próprios dados exigem cautela: a pesquisa não demonstra que a alteração seja a causa dos sintomas nem confirma que tenha ocorrido perda definitiva de neurônios.

O que os pesquisadores encontraram

Publicado na revista eBioMedicine, o trabalho intitulado Loss of vesicular monoamine transporter 2 in striatum of long COVID and relationship to neuropsychiatric symptoms avaliou 24 adultos com Covid longa e comparou os resultados com os de 24 pessoas saudáveis de idade semelhante. Em análises adicionais, o grupo de comparação foi ampliado para 43 participantes.

Para investigar possíveis alterações cerebrais, a equipe utilizou a tomografia por emissão de pósitrons (PET), exame de imagem que permite avaliar determinados processos biológicos por meio de substâncias radiomarcadas.

O foco foi o transportador vesicular de monoaminas 2, conhecido pela sigla VMAT2. Essa proteína participa do armazenamento de neurotransmissores, incluindo a dopamina, nas vesículas presentes nas terminações nervosas.

A análise identificou uma redução da ligação ao VMAT2 em três regiões do estriado, estrutura cerebral envolvida em diferentes funções motoras e cognitivas.

No estriado ventral, a redução foi de aproximadamente 20% e esteve associada a níveis mais elevados de apatia. No putâmen dorsal, a diferença foi de cerca de 16% e se relacionou à lentidão dos movimentos. Já no caudado dorsal, a redução ficou em torno de 17% e esteve associada a um desempenho inferior em um teste de memória verbal.

Esses percentuais representam diferenças observadas no marcador medido pelo exame. Eles não significam, por si só, que os participantes tenham perdido a mesma proporção de neurônios.

Qual é a relação entre dopamina, motivação e memória?

A dopamina é um neurotransmissor que participa de circuitos responsáveis por funções importantes para o comportamento e o funcionamento do organismo.

Entre suas atribuições estão a regulação da motivação, a iniciativa para realizar atividades, o controle dos movimentos e determinados processos cognitivos. Por isso, alterações nesses circuitos são investigadas como uma possível explicação para sintomas que afetam a autonomia e a rotina de algumas pessoas com Covid longa.

A associação encontrada pelos pesquisadores é relevante porque as alterações do marcador apareceram em regiões relacionadas às funções nas quais os participantes apresentavam dificuldades.

Isso, porém, não significa que todos os casos de fadiga, desânimo ou esquecimento tenham origem em alterações da dopamina. Esses sintomas podem ter diferentes causas e mecanismos, e a Covid longa é uma condição heterogênea.

A redução do marcador significa perda de neurônios?

Essa é uma das principais questões ainda em aberto.

Uma redução na ligação ao VMAT2 pode indicar comprometimento das terminações nervosas dopaminérgicas. Entretanto, também pode refletir mudanças na quantidade da proteína ou das vesículas em que ela está presente.

O exame não conta diretamente os neurônios nem permite determinar, isoladamente, se houve destruição permanente dessas estruturas.

Outro limite importante é que os participantes foram avaliados em um único momento. Dessa forma, os pesquisadores não conseguiram estabelecer quando as alterações começaram, se já existiam antes da infecção ou se podem diminuir durante a recuperação.

Para esclarecer essas questões, serão necessários estudos com amostras maiores, exames repetidos ao longo do tempo e acompanhamento clínico dos participantes.

Inflamação cerebral é uma das hipóteses investigadas

Uma das explicações levantadas pelos pesquisadores é a possibilidade de que processos inflamatórios associados à Covid longa afetem o sistema dopaminérgico.

Também são consideradas hipóteses envolvendo respostas imunológicas persistentes, alterações vasculares, disfunção mitocondrial e mudanças na regulação do próprio VMAT2.

Esses mecanismos, contudo, não foram comprovados pela pesquisa. O estudo não demonstrou diretamente que a neuroinflamação tenha provocado as alterações identificadas nos exames.

Além disso, como a investigação se concentrou em um grupo específico de pessoas com sintomas neuropsiquiátricos persistentes, os resultados não podem ser generalizados para todos os pacientes com Covid longa.

Covid longa pode afetar diferentes funções do organismo

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a condição pós-Covid como um quadro que pode envolver sintomas persistentes ou novos problemas de saúde após a infecção pelo SARS-CoV-2.

Entre as manifestações mais frequentes estão fadiga, falta de ar e dificuldades cognitivas, como problemas de concentração e memória. Os sintomas podem oscilar, reaparecer e interferir nas atividades profissionais, domésticas e sociais.

No Brasil, o Ministério da Saúde também reconhece que as condições pós-Covid podem afetar diferentes sistemas do organismo, inclusive em pessoas que tiveram quadros iniciais leves ou moderados.

A variedade de manifestações ajuda a explicar por que não existe uma única explicação para todos os sintomas persistentes. Pesquisas sobre o cérebro representam uma das frentes de investigação, ao lado dos estudos sobre alterações imunológicas, cardiovasculares e outras possíveis consequências da infecção.

Descoberta abre caminho para investigar tratamentos

Os resultados também levantam uma questão importante: se alterações no sistema dopaminérgico estiverem envolvidas em determinados sintomas da Covid longa, tratamentos que atuam nesse sistema poderiam ajudar alguns pacientes?

Por enquanto, não há evidências suficientes para recomendar medicamentos que aumentam a atividade dopaminérgica como tratamento de rotina para a Covid longa.

A identificação de uma associação entre um marcador cerebral e determinados sintomas não comprova que modificar esse marcador produzirá melhora clínica. Essa hipótese precisa ser avaliada em ensaios clínicos controlados, capazes de comparar os resultados do tratamento com os de um placebo e acompanhar possíveis efeitos adversos.

A equipe responsável pelo estudo indicou a intenção de avançar para uma investigação clínica com aproximadamente 100 participantes, voltada a sintomas como apatia, lentidão motora e dificuldades de memória verbal.

Até que existam resultados desses ensaios, a possibilidade de um tratamento direcionado à dopamina permanece em investigação. Pessoas com sintomas persistentes após a Covid-19 devem procurar avaliação de um profissional de saúde para investigar as causas e receber orientações adequadas, sem iniciar medicamentos por conta própria.

O que a pesquisa representa para a ciência

A principal contribuição do trabalho é apresentar evidências de uma possível alteração biológica associada a determinados sintomas neuropsiquiátricos em um grupo de pessoas com Covid longa.

Embora ainda não estabeleça uma relação de causa e efeito, o resultado pode ajudar a orientar novas pesquisas sobre os mecanismos envolvidos na persistência de sintomas após a infecção.

A confirmação desses achados em grupos maiores e mais diversos será essencial para compreender a frequência dessas alterações, sua evolução ao longo do tempo e a possibilidade de desenvolver tratamentos seguros e eficazes.

Por enquanto, a descoberta amplia o conhecimento científico sobre a Covid longa, mas não oferece uma explicação definitiva para todos os casos nem permite concluir que a dopamina seja a causa central da condição.

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