Com 55,7 mil casos confirmados e 77 mortes até o início de outubro de 2026, região enfrenta avanço da doença, falhas na cobertura vacinal e risco de disseminação associado a grandes eventos religiosos. No Brasil, foram notificados pelo menos 39 casos no período analisado
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), agência regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou como muito alto o risco de propagação do sarampo nas Américas. O alerta foi divulgado em 9 de outubro, diante do aumento expressivo das infecções, das lacunas na vacinação e da previsão de grandes deslocamentos de pessoas para eventos religiosos na América do Sul.
Segundo os dados da organização, entre 4 de janeiro e 3 de outubro de 2026, foram confirmados 55.792 casos de sarampo e 77 mortes em 17 países e territórios da região. O número de infecções representa um aumento de 4,8 vezes em comparação com o mesmo período de 2025.
A avaliação de risco, publicada pela Opas em 8 de outubro, considera que a combinação entre a circulação internacional de pessoas, as aglomerações e a existência de comunidades com baixa cobertura vacinal pode favorecer a introdução do vírus em novas localidades e ampliar a transmissão.
A preocupação não se limita aos países que concentram os surtos. Mesmo regiões com poucos registros podem enfrentar novos casos quando pessoas infectadas viajam e entram em contato com indivíduos suscetíveis à doença.
Guatemala lidera os registros, enquanto Brasil também apresenta casos
O levantamento da Opas mostra uma concentração expressiva dos casos em cinco países: Guatemala, México, Estados Unidos, Peru e Canadá. Juntos, eles respondem por 99,5% das infecções confirmadas nas Américas no período analisado.
A Guatemala aparece na primeira posição, seguida pelo México. Os Estados Unidos, o Peru e o Canadá também registram números relevantes, evidenciando que o avanço da doença não está restrito a uma única área geográfica.
O relatório contabiliza pelo menos 39 casos de sarampo no Brasil. Embora o número seja significativamente inferior aos registrados nos países mais afetados, a ocorrência da doença reforça a necessidade de manter a vigilância epidemiológica e a vacinação em dia.
É importante destacar que os dados se referem ao período de 4 de janeiro a 3 de outubro de 2026. Portanto, não representam necessariamente o total de casos existentes em 14 de outubro, data desta matéria.
A circulação do vírus em diferentes países aumenta a possibilidade de casos importados, sobretudo quando há deslocamentos frequentes entre regiões. Uma pessoa infectada pode transportar o vírus para uma comunidade onde parte da população não esteja adequadamente imunizada.
Eventos religiosos ampliam a preocupação das autoridades sanitárias
A classificação de risco da Opas leva em consideração a realização de grandes eventos religiosos previstos na Argentina, no Peru e no Uruguai. Encontros desse porte podem reunir milhares de participantes e estimular viagens nacionais e internacionais.
Em ambientes com grande concentração de pessoas, o contato entre indivíduos de diferentes localidades favorece a disseminação de doenças altamente contagiosas. O risco torna-se maior quando o vírus chega a comunidades com baixa cobertura vacinal.
O sarampo pode ser transmitido antes mesmo do aparecimento das manchas vermelhas características na pele. Por esse motivo, uma pessoa infectada pode expor outras pessoas sem saber que está doente.
A preocupação da Opas é que os deslocamentos relacionados aos eventos facilitem a importação do vírus, a formação de novas cadeias de transmissão e o surgimento de surtos em áreas que ainda não registram circulação significativa da doença.
A organização ressalta que o risco não decorre dos eventos religiosos em si, mas da combinação entre grandes aglomerações, mobilidade populacional e lacunas de imunidade. Por isso, a recomendação é reforçar a prevenção antes das viagens e manter a capacidade de identificar e responder rapidamente a casos suspeitos.
Cobertura vacinal abaixo do necessário preocupa especialistas
Um dos principais fatores associados ao avanço do sarampo é a insuficiência da cobertura vacinal. De acordo com os dados divulgados pela Opas, em 2025 a primeira dose da vacina contra sarampo, caxumba e rubéola alcançou 88% da população-alvo nas Américas. A cobertura da segunda dose chegou a 85%.
Os percentuais permanecem abaixo da meta de pelo menos 95% de cobertura com duas doses, recomendada para reduzir a circulação do vírus e prevenir surtos.
A organização estima que aproximadamente 1,6 milhão de crianças nas Américas não receberam nenhuma dose da vacina contra o sarampo em 2025.
A situação é preocupante porque a proteção coletiva depende de uma proporção elevada da população estar imunizada. Quando muitas pessoas permanecem suscetíveis, o vírus encontra condições mais favoráveis para circular e alcançar grupos vulneráveis.
Entre os fatores que contribuem para as lacunas vacinais estão os atrasos acumulados durante a pandemia de Covid-19, a hesitação em relação às vacinas e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
Segundo a avaliação regional, apenas cerca de 25% dos 43 países e territórios que forneceram dados alcançaram a cobertura vacinal necessária. O cenário demonstra a importância de recuperar esquemas incompletos e ampliar o acesso à imunização.
A vacinação é considerada a principal medida de prevenção contra o sarampo. Além de proteger individualmente, uma cobertura elevada ajuda a interromper a transmissão e a reduzir o risco de surtos em escolas, comunidades e outros locais de convivência.
Sarampo é altamente contagioso e pode provocar complicações graves
O sarampo é uma doença viral infecciosa que se espalha principalmente pelo ar e por partículas respiratórias liberadas por pessoas infectadas. Sua elevada capacidade de transmissão permite que o vírus se propague rapidamente entre indivíduos que não possuem imunidade.
Os sintomas geralmente incluem febre alta, tosse, coriza, olhos avermelhados e lacrimejamento. Após alguns dias, costuma surgir uma erupção cutânea avermelhada, que frequentemente começa no rosto e se espalha para outras partes do corpo.
Embora algumas pessoas apresentem evolução sem complicações, o sarampo pode causar problemas graves, como pneumonia, inflamação cerebral e, em casos mais severos, morte. Crianças pequenas, pessoas desnutridas e indivíduos com imunidade comprometida podem apresentar maior risco de complicações.
A presença de febre acompanhada de manchas pelo corpo, especialmente após contato com alguém infectado ou viagem para uma área com transmissão, exige avaliação de um profissional de saúde. Diante de suspeita de sarampo, é importante entrar em contato com o serviço de saúde antes de comparecer presencialmente, para reduzir a exposição de outras pessoas.
A confirmação do diagnóstico depende de avaliação clínica e, quando indicado, de exames laboratoriais e investigação epidemiológica.
Aumento global favorece a importação de casos
O cenário nas Américas também é influenciado pelo crescimento dos casos em outras partes do mundo. A circulação internacional do vírus aumenta a possibilidade de pessoas infectadas chegarem a países onde a doença está sob controle ou apresenta baixa incidência.
Esse processo é conhecido como importação de casos: a infecção é adquirida em uma localidade e identificada em outra. Quando o vírus chega a uma população com cobertura vacinal insuficiente, pode desencadear transmissão local.
Por isso, a prevenção não depende exclusivamente do controle dos surtos nos países mais afetados. É necessário manter a vacinação atualizada, detectar precocemente os casos suspeitos e investigar contatos para evitar que a transmissão se estabeleça em novas comunidades.
A Opas recomenda que os países fortaleçam a vigilância epidemiológica, ampliem a busca ativa de casos suspeitos, reforcem a capacidade laboratorial e garantam uma resposta rápida diante de possíveis surtos.
O que viajantes e famílias devem fazer
A Opas recomenda que pessoas que pretendem viajar verifiquem sua situação vacinal antes do deslocamento, inclusive quando a viagem acontece dentro do próprio país.
Quem não possui comprovante de vacinação deve procurar um serviço de saúde para verificar a necessidade de imunização conforme a idade, o histórico vacinal e as recomendações sanitárias aplicáveis. A organização orienta que a vacinação seja realizada preferencialmente pelo menos duas semanas antes da viagem, quando possível.
A recomendação também se aplica a pessoas que participarão de eventos com grande concentração de público. No entanto, a imunização não deve ser entendida apenas como uma medida para viajantes: a recuperação das coberturas vacinais precisa alcançar toda a população elegível.
No Brasil, a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, integra o Programa Nacional de Imunizações. O esquema indicado depende da idade e do histórico de doses, de acordo com as orientações vigentes do Ministério da Saúde.
Pessoas com dúvidas sobre doses anteriores, crianças com vacinação incompleta e adultos sem comprovação vacinal devem procurar uma unidade de saúde para conferir a caderneta e receber orientação individualizada.
Brasil precisa manter vacinação e vigilância reforçadas
Embora os dados apresentados pela Opas indiquem um número de casos muito inferior ao dos países que concentram os surtos, o registro de infecções no território brasileiro reforça a importância de não interromper os esforços de prevenção.
A circulação internacional de pessoas significa que nenhum país pode depender apenas da ausência de casos em seu território para considerar o risco controlado. A proteção exige cobertura vacinal adequada, identificação rápida de pessoas infectadas e acompanhamento dos contatos.
Também é fundamental que profissionais de saúde reconheçam precocemente os sinais da doença e que casos suspeitos sejam comunicados às autoridades sanitárias conforme os protocolos nacionais.
A resposta ao sarampo exige uma atuação coordenada entre governos, serviços de saúde e população. Campanhas de vacinação, acesso facilitado às doses, informação confiável e vigilância contínua são medidas essenciais para evitar a ampliação dos surtos.
Prevenção é a principal ferramenta para conter a doença
O alerta da Opas evidencia que o avanço do sarampo nas Américas está relacionado não apenas à circulação do vírus, mas também às falhas acumuladas na imunização. Grandes deslocamentos de pessoas podem ampliar a exposição, mas o impacto depende, em grande medida, do nível de proteção das comunidades.
A prioridade é recuperar as coberturas vacinais, identificar pessoas com esquemas incompletos e garantir que os serviços de saúde estejam preparados para reconhecer e conter novos casos.
Para as famílias, a principal orientação é verificar a caderneta de vacinação e buscar os serviços de saúde diante de dúvidas. Para as autoridades, o desafio é assegurar que a imunização alcance todas as comunidades, especialmente aquelas com maior dificuldade de acesso.
Em um cenário de aumento expressivo dos casos, a prevenção continua sendo a medida mais eficaz para proteger crianças, reduzir complicações e evitar que o sarampo volte a se espalhar de forma sustentada nas Américas.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
- Leia mais:
Registros confirmam reuniões de Vorcaro no Planalto com operador ligado a Padilha
Flávio promete endurecer combate ao crime e diz que não haverá “festa em presídio”
Deputada democrata é alvo de operação da HSI relacionada à imigração

Faça um comentário