Presidente afirma que desconhecia a falta de correção de um dos principais programas sociais do governo, mas aumento só foi anunciado em setembro, após proposta orçamentária ser enviada ao Congresso sem previsão de recursos para a medida
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou que não sabia que o Bolsa Família havia passado quase quatro anos sem reajuste. A declaração foi feita na quinta-feira (15), depois de o governo anunciar a correção do benefício em 17 de setembro. O episódio levanta questionamentos sobre a gestão de um programa que atende milhões de famílias e sobre por que a atualização demorou tanto a ser anunciada.
Lula classificou a situação como “inexplicável” e disse que determinou o aumento assim que tomou conhecimento do problema. A justificativa, porém, abre uma pergunta difícil de ignorar: como o presidente afirma ter passado quase quatro anos sem saber que um dos principais benefícios sociais de seu próprio governo permanecia sem reajuste?
“Eu não quero que você ouça a reunião que eu tive com meus ministros quando eu fiquei sabendo que o Bolsa Família não tinha sido reajustado. Eu não sabia. É inexplicável que, no governo do Lula, alguém pense em não reajustar. É impensável. Mas aconteceu”, declarou.
Ao dizer que desconhecia a situação, Lula atribuiu a descoberta a uma conversa com seus ministros. Mas a declaração não esclarece quem deveria ter acompanhado a questão, por que a falta de correção não foi resolvida antes nem como um assunto dessa dimensão permaneceu sem uma solução durante tanto tempo.
Para as famílias que dependem do benefício para ajudar a pagar alimentação e outras despesas básicas, a explicação não muda o período em que ficaram sem uma atualização. A afirmação de que o presidente não sabia também não elimina a responsabilidade política da administração federal pelos rumos do programa.
Orçamento foi enviado sem previsão para o reajuste
A sequência de acontecimentos aumenta os questionamentos. Em 31 de agosto, o governo encaminhou ao Congresso Nacional a proposta de Orçamento de 2027 sem prever recursos para a correção do Bolsa Família. Em 17 de setembro, anunciou o reajuste.
A proximidade do anúncio com as eleições chama a atenção e alimenta dúvidas sobre o momento em que a decisão foi tomada. As datas, isoladamente, não comprovam que o aumento tenha sido motivado por interesses eleitorais, mas tornam pertinente questionar por que a medida não foi contemplada anteriormente no planejamento do governo.
Lula afirmou que decidiu compensar os anos sem correção. “Eu tomei a decisão: a gente vai dar, e vai dar tudo o que a gente não deu, para a gente aprender, nunca mais [fazer isso]”, declarou.
A promessa de compensação, contudo, não responde à questão principal: por que as famílias tiveram de esperar tanto tempo para que o governo anunciasse a atualização? E por que o presidente diz que só tomou conhecimento de uma situação que envolve um programa social de grande alcance?
Lula diz que havia dinheiro para bancar o aumento
Questionado se o reajuste ocorreu depois que a equipe econômica identificou espaço fiscal, Lula negou essa hipótese. Segundo ele, a decisão foi tomada porque descobriu que o benefício não havia sido atualizado.
“Aconteceu [a determinação do reajuste] porque eu fiquei sabendo que não tinha sido aumentado o Bolsa Família, e eu fui perguntar por que não aumentaram o Bolsa Família”, afirmou.
O presidente também declarou que havia recursos disponíveis para financiar a medida. “Tomei a decisão de mandar dar o aumento do Bolsa Família, porque tem espaço fiscal”, disse.
A afirmação torna inevitável outra pergunta: se havia espaço fiscal para o reajuste, por que a proposta orçamentária enviada ao Congresso semanas antes não previa os recursos para a correção?
Lula apresenta o aumento como uma decisão tomada assim que soube do problema. Entretanto, a explicação não esclarece por que a atualização não foi planejada anteriormente nem quem responde pela demora. Também não há, nas declarações reproduzidas, elementos suficientes para concluir que o anúncio tenha ocorrido exclusivamente por cálculo eleitoral.
O episódio deixa um contraste evidente entre o discurso do presidente e a cronologia dos acontecimentos: o Bolsa Família ficou quase quatro anos sem reajuste, o governo enviou uma proposta orçamentária sem prever a correção e, somente depois, anunciou o aumento. Agora, Lula afirma que não sabia.
Para quem depende do benefício, a pergunta não é apenas quando o reajuste foi anunciado, mas por que demorou tanto e quem deve responder por isso. Dizer que desconhecia o problema não encerra a discussão. Pelo contrário: torna ainda mais necessário esclarecer como uma situação dessa dimensão pôde persistir durante quase quatro anos sem que o presidente, segundo seu próprio relato, soubesse dela.
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