Governo americano aposta na retomada de três usinas para ampliar a geração de eletricidade, atender à expansão da inteligência artificial e fortalecer a segurança energética
Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA
Os Estados Unidos estão promovendo uma iniciativa inédita para reativar três usinas nucleares que haviam sido fechadas. O objetivo é aumentar a oferta de eletricidade em um momento em que o país enfrenta uma demanda crescente de energia, impulsionada principalmente pela expansão dos centros de dados, pela inteligência artificial e pela atividade industrial.
O Departamento de Energia americano está oferecendo empréstimos de até US$ 4,4 bilhões para apoiar os projetos. A iniciativa faz parte da estratégia do governo do presidente Donald Trump de ampliar a produção nacional de energia e fortalecer a posição americana no setor nuclear.
Segundo informações, as três instalações poderão devolver à rede elétrica uma capacidade combinada de 2,25 gigawatts. Embora a energia nuclear não produza dióxido de carbono diretamente durante a geração, a retomada dessas usinas exige investimentos, avaliações técnicas e autorizações regulatórias.
Quais são as três usinas que serão reativadas?
1. Palisades — Michigan
Capacidade prevista: 800 megawatts
A usina funcionou de 1971 a 2022. Depois do fechamento, foi adquirida pela empresa Holtec International, que iniciou procedimentos de desativação. O projeto de reabertura avançou com apoio financeiro federal e estadual.
Em agosto de 2026, a empresa começou a carregar combustível nuclear, uma etapa importante para a retomada. O processo foi interrompido após um conjunto de combustível se inclinar, exigindo uma investigação técnica antes da continuidade. A previsão contratual citada pela AP é de retorno à operação até março de 2027, condicionada às exigências de segurança e às autorizações necessárias.
2. Crane Clean Energy Center — Pensilvânia
Capacidade prevista: 835 megawatts
Localizada na área de Three Mile Island, a instalação teve seu reator operacional fechado em 2019, principalmente por dificuldades econômicas.
A empresa Constellation Energy planeja reativá-lo com investimento estimado em US$ 1,6 bilhão, apoiado por um empréstimo federal de até US$ 1 bilhão. A Microsoft assinou um acordo de compra de energia por 20 anos para atender à demanda elétrica associada às suas operações tecnológicas.
A usina também chama atenção por estar no mesmo complexo onde ocorreu, em 1979, o acidente nuclear comercial mais grave da história americana. O acidente envolveu outro reator, que foi destruído; o reator que se pretende reativar é uma unidade diferente.
3. Duane Arnold — Iowa
Capacidade prevista: 615 megawatts
A usina começou a operar em 1975 e foi fechada em agosto de 2020, depois de sofrer danos durante uma tempestade intensa conhecida como derecho.
A empresa NextEra Energy pretende reativá-la com apoio de um empréstimo federal de até US$ 1,9 bilhão. O projeto tem um acordo de longo prazo com o Google para a compra da energia produzida, e o retorno à operação está previsto para o início de 2029, sujeito às aprovações regulatórias.
A retomada poderá reforçar o fornecimento elétrico em Iowa e na região do Meio-Oeste americano.
Por que os Estados Unidos estão fazendo isso agora?
1. A expansão da inteligência artificial
Os centros de dados que treinam e executam sistemas de inteligência artificial consomem grandes volumes de eletricidade. As empresas precisam de fornecimento estável para manter servidores funcionando continuamente.
2. Produção contínua de energia
Ao contrário de fontes dependentes do sol ou do vento, as usinas nucleares podem produzir eletricidade de maneira contínua, independentemente das condições meteorológicas, embora também precisem de manutenção e possam sofrer interrupções.
3. Reaproveitamento de instalações existentes
Recuperar uma usina pode ser mais rápido do que construir uma nova instalação nuclear de grande porte. Entretanto, isso depende das condições dos equipamentos, das obras necessárias e das licenças regulatórias.
Quais são os riscos e as críticas ao projeto?
Apesar dos benefícios esperados, a reativação das usinas não é uma tarefa simples. Equipamentos antigos precisam passar por inspeções, testes e eventuais reformas para comprovar que podem funcionar com segurança.
Especialistas também alertam para os efeitos de eventos climáticos extremos sobre instalações de energia. No caso de Duane Arnold, por exemplo, a própria tempestade que danificou a usina contribuiu para seu fechamento em 2020.
Outra discussão envolve o uso de dinheiro público para financiar projetos privados. Defensores da iniciativa argumentam que os empréstimos podem ampliar a oferta de eletricidade e fortalecer a infraestrutura nacional. Críticos questionam se o governo deve assumir parte dos riscos financeiros de empresas que pretendem vender energia a grandes companhias de tecnologia.
Além disso, os US$ 4,4 bilhões anunciados representam financiamento federal para os projetos, e não uma garantia de que todas as usinas voltarão a funcionar nas datas previstas. A retomada depende de condições técnicas, financeiras e regulatórias.
O que essa decisão significa para os americanos?
Se os três projetos forem concluídos, os Estados Unidos terão uma capacidade adicional relevante de geração elétrica sem emissões diretas de carbono durante a operação. Isso poderá ajudar a atender à demanda dos centros de dados e da indústria, além de preservar e criar empregos relacionados à manutenção e à operação das instalações.
Por outro lado, ainda será necessário acompanhar os custos efetivos, as condições de segurança e a possibilidade de que parte dos investimentos acabe repercutindo nas tarifas. Os contratos com empresas de tecnologia podem ajudar a financiar os projetos, mas seus efeitos sobre as contas de energia dependerão de como cada acordo e cada mercado elétrico funcionam.
Em resumo: a iniciativa representa uma aposta estratégica na energia nuclear para sustentar o crescimento tecnológico americano. O desafio será transformar os investimentos em eletricidade confiável sem comprometer a segurança das instalações nem transferir custos excessivos aos contribuintes e consumidores.
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