Governo prepara testes para gasolina E35 em 2027; mistura de etanol pode subir para 35% e exige avaliação dos motores

Ensaios devem começar em janeiro de 2027 e avaliar veículos de diferentes gerações, motocicletas e componentes. Resultado poderá definir se o Brasil terá autorização para ampliar a mistura de etanol anidro na gasolina dos atuais 32% para 35%
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

O governo federal prepara uma nova etapa da política de ampliação dos biocombustíveis no Brasil. A partir de janeiro de 2027, estão previstos os testes técnicos para avaliar a possibilidade de aumentar de 32% para 35% a quantidade de etanol anidro misturada à gasolina comercializada no país.

A iniciativa, conhecida como E35, faz parte da estratégia estabelecida pela Lei do Combustível do Futuro, que permite elevar a participação do etanol na gasolina até o limite de 35%, desde que a segurança e a viabilidade técnica sejam comprovadas.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia (MME), a expectativa é concluir a avaliação dos resultados até julho de 2027. O cronograma foi apresentado por Marlon Arraes, diretor de programas da pasta, que informou que a publicação da portaria com o planejamento dos ensaios está prevista para o início de novembro de 2026.

A medida ainda não significa que a gasolina E35 será adotada nos postos. Antes de qualquer mudança definitiva, o governo precisará analisar os resultados dos testes e verificar se a nova composição pode ser utilizada sem provocar problemas nos veículos que circulam pelas ruas e estradas brasileiras.

Testes vão avaliar riscos para motores e veículos

Uma das principais preocupações dos especialistas envolve a durabilidade dos componentes dos motores. Embora o aumento da concentração de etanol possa apresentar resultados satisfatórios em testes iniciais, os efeitos de longo prazo precisam ser investigados.

O Instituto Mauá de Tecnologia participará dos ensaios mecânicos, com avaliações de motores, veículos e componentes automotivos.

O planejamento prevê uma frota de 16 veículos de diferentes gerações, incluindo modelos fabricados desde a década de 1990 até automóveis mais recentes. Motocicletas e componentes específicos também deverão integrar as avaliações.

Entre os principais pontos que serão examinados estão:

  • Durabilidade dos motores: verificar se a concentração maior de etanol provoca desgaste antecipado de peças.
  • Compatibilidade dos materiais: avaliar o comportamento de mangueiras, vedações, bombas, componentes metálicos e outros elementos em contato com o combustível.
  • Sistemas eletrônicos: analisar a capacidade dos sistemas de gerenciamento dos motores de ajustar o funcionamento à nova mistura.
  • Desempenho dos veículos: observar partida, aceleração, funcionamento e dirigibilidade.
  • Efeitos de longo prazo: identificar possíveis problemas que não aparecem imediatamente após o abastecimento.

A preocupação é especialmente relevante para veículos mais antigos e automóveis movidos exclusivamente a gasolina, que podem apresentar características técnicas diferentes das encontradas nos modelos flex.

Carros antigos podem exigir atenção especial

Renato Romil, gerente da Divisão de Motores e Veículos do Instituto Mauá de Tecnologia, destacou que os automóveis movidos exclusivamente a gasolina merecem atenção especial durante os testes.

Esses veículos foram desenvolvidos originalmente para trabalhar com concentrações menores de etanol. Por isso, a utilização de uma mistura com 35% do biocombustível exige avaliações específicas.

Um motor pode funcionar aparentemente bem nos primeiros quilômetros após o abastecimento e, mesmo assim, apresentar desgaste de componentes depois de um período prolongado de utilização.

Por esse motivo, os pesquisadores pretendem avaliar não apenas o funcionamento imediato dos veículos, mas também a resistência dos materiais e a durabilidade dos sistemas.

A intenção é evitar que uma eventual mudança na composição da gasolina provoque problemas para proprietários de automóveis que não possuem tecnologia flex.

Quando a gasolina E35 poderá chegar aos postos?

O cronograma apresentado pelo Ministério de Minas e Energia prevê o início dos ensaios em janeiro de 2027, com consolidação dos resultados até julho.

Depois da conclusão dos estudos, os relatórios técnicos serão encaminhados ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), responsável por avaliar a viabilidade da ampliação da mistura.

O conselho terá de considerar os resultados científicos, a segurança dos veículos, as condições de abastecimento e os demais aspectos regulatórios antes de decidir sobre uma eventual mudança.

Portanto, não existe confirmação de que a gasolina E35 começará a ser comercializada em julho de 2027. Essa data está relacionada à expectativa de conclusão e consolidação dos estudos, não à implantação automática do novo combustível.

Gasolina E32 já está em vigor no Brasil

Enquanto o governo prepara os testes para o E35, a gasolina comum comercializada no país está submetida à mistura obrigatória de 32% de etanol anidro, conhecida como E32.

A mudança entrou em vigor em 1º de agosto de 2026, substituindo temporariamente a composição anterior, que continha 30% de etanol anidro.

A Resolução CNPE nº 9/2026 estabeleceu inicialmente um período de 180 dias para a nova mistura, com possibilidade de prorrogação por mais 180 dias.

O prazo inicial termina em 27 de janeiro de 2027.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, a adoção do E32 foi fundamentada em avaliações técnicas realizadas pelo Instituto Mauá de Tecnologia, que analisaram veículos leves e motocicletas de diferentes características.

Os estudos consideraram aspectos como partida a frio, aceleração, estabilidade do motor, dirigibilidade e adaptação dos sistemas eletrônicos. Os resultados apresentados pelo governo apontaram funcionamento adequado dos veículos avaliados.

Lei do Combustível do Futuro permite mistura de até 35%

A ampliação da participação do etanol na gasolina está prevista na Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro.

A legislação estabelece mecanismos para ampliar o uso de combustíveis renováveis e reduzir a dependência brasileira de fontes fósseis.

No caso da gasolina, a lei permite que o percentual de etanol anidro chegue a 35%, condicionado à comprovação de viabilidade técnica.

O governo argumenta que a utilização de mais biocombustível pode fortalecer a produção nacional, reduzir a necessidade de importação de gasolina e contribuir para a diminuição das emissões associadas ao consumo de combustíveis fósseis.

O etanol brasileiro é produzido principalmente a partir da cana-de-açúcar e do milho, matérias-primas renováveis que abastecem uma cadeia industrial importante para a economia nacional.

Etanol também pode ganhar espaço em outros setores

A estratégia do Ministério de Minas e Energia não se limita aos automóveis de passeio.

O governo também avalia oportunidades para ampliar o emprego do etanol na navegação, em equipamentos que atualmente utilizam diesel e na produção de combustíveis sustentáveis para a aviação.

A proposta é desenvolver novos mercados para os biocombustíveis brasileiros e ampliar sua participação na matriz energética.

Segundo Marlon Arraes, a expansão depende de condições que garantam competitividade econômica e segurança para os investimentos. Políticas de descarbonização e mecanismos de precificação de carbono também podem contribuir para estimular essa demanda.

O que muda para os motoristas?

Por enquanto, os motoristas não precisam realizar nenhuma alteração nos veículos em razão dos testes do E35. A nova mistura ainda está em fase de avaliação e não foi autorizada para comercialização.

A principal questão é verificar se todos os tipos de motores, especialmente os modelos antigos e movidos exclusivamente a gasolina, conseguem funcionar adequadamente com a concentração mais elevada de etanol.

Caso os resultados comprovem a segurança e a viabilidade técnica, o CNPE poderá avaliar a autorização para uma futura ampliação.

Até lá, o E32 permanece como a referência temporária estabelecida pela regulamentação vigente.

A decisão final será importante não apenas para o setor de combustíveis, mas também para milhões de proprietários de veículos brasileiros, que precisam ter segurança de que uma eventual mudança na composição da gasolina não comprometerá o funcionamento e a vida útil de seus automóveis.

Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD

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