Procurador afirma que o recrutamento de pessoas com antecedentes criminais ajudaria o grupo a disfarçar ações terroristas como crimes comuns
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma investigação da Polícia Federal (PF) revelou indícios de que uma rede ligada ao Hezbollah, grupo armado libanês, recrutou cidadãos brasileiros para realizar atividades de vigilância e preparação de possíveis atentados contra alvos judaicos e israelenses no Brasil.
As informações ganharam destaque após a divulgação de detalhes da Operação Trapiche, investigação que identificou suspeitos de participar de uma estrutura de recrutamento, treinamento e apoio financeiro associada à organização.
Segundo o procurador da República Lucas Gualtieri, integrante de um grupo de trabalho do Ministério Público Federal (MPF) dedicado ao combate ao crime organizado em Minas Gerais, o modelo investigado envolve o uso de pessoas recrutadas localmente para executar tarefas operacionais. A estratégia permitiria reduzir a exposição direta de integrantes do grupo e dificultar a identificação da origem das ações.
Em artigo publicado em outubro de 2026 pelo Washington Institute for Near East Policy, Gualtieri afirmou que a rede procurava pessoas em situação de vulnerabilidade financeira e com histórico de problemas com a Justiça. A intenção seria aproveitar essas circunstâncias para obter colaboradores dispostos a receber dinheiro em troca de tarefas.
O caso ganhou novo capítulo em setembro de 2026, quando a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) restabeleceu a condenação de Lucas Passos Lima por atos preparatórios de terrorismo.
Operação Trapiche identificou esquema de recrutamento
A Operação Trapiche foi deflagrada em novembro de 2023, depois que informações de inteligência internacional ajudaram a Polícia Federal a investigar possíveis conexões entre atividades criminosas e uma estrutura ligada ao Hezbollah no Brasil.
De acordo com a análise divulgada por Lucas Gualtieri, a investigação teve origem em apurações sobre irregularidades comerciais envolvendo a venda de cigarros eletrônicos em Belo Horizonte, em Minas Gerais.
O caso mudou de dimensão em outubro de 2023, quando a divisão de contraterrorismo da Polícia Federal recebeu informações encaminhadas pelo FBI, o serviço federal de investigação dos Estados Unidos.
O material apontava uma possível rede envolvida em crimes financeiros e tráfico de drogas, com suspeitas de conexões com atividades terroristas.
A partir daí, os investigadores passaram a examinar relações entre pessoas, estabelecimentos comerciais, viagens internacionais e movimentações financeiras.
Segundo Gualtieri, a investigação identificou um sistema de recrutamento que teria abordado pelo menos cinco brasileiros por meio de redes sociais e contatos pessoais em diferentes estados.
Os suspeitos teriam recebido passagens e hospedagem para viajar a Beirute, capital do Líbano. Durante as viagens, alguns deles teriam recebido instruções operacionais e treinamento relacionado a armas, vigilância e comunicação clandestina.
Brasileiros teriam recebido treinamento no Líbano
Um dos aspectos mais relevantes da investigação é a suspeita de que pessoas recrutadas no Brasil eram enviadas ao Líbano antes de retornar ao território nacional para cumprir tarefas determinadas pela rede.
Segundo o procurador, os treinamentos incluíam orientações sobre comunicação discreta e procedimentos para evitar a identificação dos envolvidos.
Entre os recursos mencionados está o uso de contas compartilhadas de e-mail. Em vez de enviar mensagens diretamente, os participantes deixariam informações salvas na pasta de rascunhos, que poderiam ser acessadas por outras pessoas com a mesma conta.
O método reduziria a circulação de mensagens convencionais entre os integrantes da rede.
Outra estratégia apontada na investigação seria a utilização de fotografias de pontos turísticos libaneses para construir uma justificativa aparentemente comum para as viagens ao exterior.
A finalidade seria dificultar a identificação de deslocamentos relacionados a atividades operacionais.
Lucas Passos Lima monitorou locais ligados à comunidade judaica
Um dos nomes centrais do caso é Lucas Passos Lima, brasileiro que viajou ao Líbano pelo menos duas vezes em 2023, segundo informações apresentadas pelo Ministério Público Federal.
Após retornar ao Brasil, ele teria realizado levantamentos de locais considerados de interesse para a organização investigada.
Entre os pontos mencionados pelo MPF estão:
- A Embaixada de Israel em Brasília;
- Três sinagogas;
- Um cemitério judaico;
- Um rabino que atuava na capital federal.
Segundo a investigação, o trabalho envolvia registros fotográficos, filmagens e levantamento de informações sobre os locais.
O material também apontou suspeitas de aquisição de equipamentos de vigilância, treinamento com armas de fogo e procura por rotas que permitissem deixar o país sem passar pelos controles migratórios convencionais.
Essas atividades foram consideradas pela acusação como parte da preparação de possíveis ações terroristas.
Não significa, porém, que todos os locais monitorados tenham sido efetivamente atacados ou que um atentado tenha sido consumado. O processo trata de atos preparatórios e da atuação atribuída ao investigado.
STJ restabeleceu condenação por atos preparatórios de terrorismo
Em setembro de 2026, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça acolheu, por unanimidade, recurso do Ministério Público Federal e restabeleceu a condenação de Lucas Passos Lima pelo crime de realizar atos preparatórios de terrorismo.
A decisão foi divulgada oficialmente pelo MPF em 17 de setembro e detalhada pelo próprio STJ em outubro.
O caso teve uma discussão jurídica importante: o Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) havia absolvido o acusado desse crime por entender que sua motivação principal seria financeira.
O STJ, entretanto, considerou que a existência de interesse econômico não elimina necessariamente a motivação discriminatória exigida pela Lei Antiterrorismo.
Para os ministros, uma pessoa pode receber dinheiro para executar uma tarefa e, ao mesmo tempo, ter conhecimento de que está participando de um plano orientado por preconceito religioso ou étnico.
O tribunal restabeleceu a condenação pelo crime previsto no artigo 5º da Lei nº 13.260/2016.
Na primeira instância, Lucas havia recebido pena de 16 anos, seis meses e 22 dias de reclusão por integrar organização terrorista e praticar atos preparatórios de terrorismo. Entretanto, como ainda havia questões relacionadas à definição da pena a serem examinadas, o STJ determinou o retorno dos autos ao tribunal regional para análise dos pontos pendentes.
A decisão não deve ser confundida com uma condenação definitiva por atentado consumado. O enquadramento discutido é o de atos preparatórios previstos na legislação brasileira.
Por que o grupo recrutaria pessoas com antecedentes criminais?
Um dos pontos destacados pelo procurador Lucas Gualtieri é a possibilidade de utilizar pessoas sem ligação ideológica anterior com o Hezbollah para executar tarefas dentro do Brasil.
Segundo a análise do procurador, a rede teria procurado indivíduos com dificuldades financeiras, antecedentes criminais ou ressentimento em relação ao sistema de Justiça.
O pagamento seria um instrumento de aproximação e recrutamento.
Esse modelo teria uma vantagem para a organização: as pessoas encarregadas de realizar atividades de vigilância poderiam ser apresentadas, em uma eventual investigação, como criminosos agindo por conta própria.
Assim, uma ação motivada por interesses de uma organização terrorista poderia inicialmente parecer um crime comum, um episódio de violência isolada ou até uma ação motivada por conflitos pessoais.
A estratégia é descrita por Gualtieri como uma forma de reduzir a possibilidade de atribuição direta das operações ao grupo sediado no Líbano.
A hipótese não significa que todo crime praticado por pessoas com antecedentes tenha relação com terrorismo. A conexão precisa ser demonstrada por provas e investigada pelas autoridades competentes.
Investigação também aponta suspeitas de financiamento por criptomoedas
Além do recrutamento de pessoas para atividades de vigilância, a investigação ampliou a atenção sobre possíveis mecanismos de financiamento e movimentação de recursos.
Um dos nomes citados na análise de Gualtieri é Dante Felipini, empresário ligado ao mercado de criptomoedas e investigado em uma apuração separada sobre lavagem de dinheiro.
Segundo o procurador, empresas e estruturas comerciais associadas à rede teriam movimentado recursos destinados a financiar viagens, hospedagens e outras despesas dos recrutados.
A análise também menciona transferências de criptomoedas para carteiras digitais que teriam sido identificadas por autoridades israelenses como ligadas ao financiamento do Hezbollah e da Força Quds, unidade da Guarda Revolucionária do Irã.
De acordo com os números apresentados por Gualtieri, uma operação associada a Felipini teria enviado US$ 658.269 em criptomoedas para três carteiras digitais apontadas por Israel como relacionadas a essas estruturas.
É importante destacar que essas informações fazem parte da análise do procurador e das investigações mencionadas por ele. A existência de acusações ou suspeitas não significa, por si só, que todos os envolvidos tenham sido condenados por financiamento do terrorismo.
O caso de Felipini também não deve ser confundido com o processo de Lucas Passos Lima, que trata de atos preparatórios de terrorismo.
EUA oferecem recompensa de até US$ 10 milhões por informações sobre redes financeiras
A preocupação com possíveis estruturas de financiamento do Hezbollah na América Latina também chegou ao governo dos Estados Unidos.
Em maio de 2025, o Departamento de Estado americano anunciou uma recompensa de até US$ 10 milhões por informações capazes de interromper mecanismos financeiros do grupo na região da Tríplice Fronteira, que reúne áreas do Brasil, Paraguai e Argentina.
O programa Rewards for Justice busca informações sobre financiadores, empresas, instituições financeiras e atividades criminosas que possam gerar recursos para a organização.
Entre as atividades citadas pelas autoridades americanas estão lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, contrabando, comércio ilegal de mercadorias, falsificação de documentos e movimentações financeiras por empresas comerciais.
A iniciativa não representa uma acusação contra todos os comerciantes ou moradores da região. O foco declarado é a identificação de redes e pessoas que possam estar envolvidas no financiamento da organização.
O que é o Hezbollah?
O Hezbollah surgiu no Líbano na década de 1980 e reúne estruturas políticas, sociais e militares. O grupo possui influência na política libanesa e mantém uma ala armada.
Os Estados Unidos classificam o Hezbollah como organização terrorista estrangeira desde 1997. Outros países também adotam classificações semelhantes, embora existam diferenças entre as políticas internacionais de designação do grupo.
A organização recebe apoio financeiro, militar e político do Irã, segundo avaliações de governos ocidentais e organismos de segurança.
Sua atuação fora do Oriente Médio é motivo de preocupação para autoridades internacionais, especialmente por suspeitas de redes de financiamento, lavagem de dinheiro e conexões com atividades criminosas.
Brasil entra no radar de investigações internacionais
A Operação Trapiche demonstrou a importância da cooperação entre autoridades brasileiras e estrangeiras para investigar suspeitas de recrutamento e financiamento de organizações terroristas.
O caso também levantou uma questão relevante para a segurança pública: a possibilidade de estruturas internacionais utilizarem pessoas recrutadas no próprio país para realizar tarefas de apoio operacional.
A investigação não aponta que a população brasileira esteja diante de uma ameaça generalizada ou que os locais monitorados tenham sido alvo de atentados consumados. O que os elementos divulgados pelas autoridades indicam é a existência de uma apuração sobre planejamento, vigilância e preparação de possíveis ações criminosas.
Com o restabelecimento da condenação de Lucas Passos Lima pelo STJ, o caso ganhou relevância jurídica e passou a representar um precedente importante na discussão sobre o uso de agentes locais remunerados em atividades preparatórias de terrorismo.
A continuidade das investigações e a análise das provas serão fundamentais para esclarecer a extensão da rede, identificar eventuais colaboradores e determinar a responsabilidade individual dos envolvidos.
Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD
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