Estudo identifica mecanismo que explica como o cigarro acelera doenças cardíacas e aumenta o risco de infarto e AVC

Pesquisa publicada na revista científica Circulation Research revela que a fumaça do cigarro “reprograma” células do sistema imunológico, provocando inflamação crônica nas artérias e favorecendo a formação de placas e coágulos
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, trouxe novas evidências sobre como o cigarro prejudica o sistema cardiovascular. Publicada em 10 de junho de 2026 na revista científica Circulation Research, a pesquisa identificou um mecanismo biológico que ajuda a explicar por que fumantes apresentam maior risco de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Os cientistas descobriram que a fumaça do cigarro altera o funcionamento de células do sistema imunológico, desencadeando um processo inflamatório persistente que acelera o desenvolvimento da aterosclerose — doença caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias.

Fumaça do cigarro altera células de defesa do organismo

Embora a relação entre o tabagismo e as doenças cardiovasculares seja conhecida há décadas, os mecanismos celulares responsáveis por esse processo ainda não estavam completamente esclarecidos.

No novo estudo, a equipe liderada pelo professor Prabhakara R. Nagareddy, da Universidade de Oklahoma, concentrou as investigações nos neutrófilos, os glóbulos brancos mais abundantes do organismo e considerados a primeira linha de defesa contra vírus, bactérias e outros agentes infecciosos.

Os pesquisadores verificaram que, quando a fumaça do cigarro alcança os pulmões, seus milhares de compostos químicos ativam excessivamente essas células de defesa. Em vez de proteger o organismo, os neutrófilos passam a desempenhar um papel inflamatório, migrando rapidamente para os vasos sanguíneos e contribuindo para o agravamento da aterosclerose.

Inflamação favorece a formação de placas nas artérias

Os experimentos foram realizados em um modelo experimental de aterosclerose em camundongos.

Segundo os autores, após chegarem aos vasos sanguíneos, os neutrófilos entram em contato com outro tipo de célula imunológica, os macrófagos, responsáveis por remover células mortas e partículas de colesterol acumuladas nas paredes das artérias.

Essa interação provoca a morte dos neutrófilos, que liberam proteínas inflamatórias, principalmente as interleucinas IL-1α e IL-1β.

O excesso dessas substâncias inflamatórias compromete a capacidade dos macrófagos de eliminar colesterol e resíduos celulares. Como consequência, ocorre maior acúmulo e instabilidade das placas de gordura, aumentando significativamente o risco de formação de coágulos capazes de causar infarto ou AVC. A presença de outros fatores de risco, como hipertensão arterial, torna esse processo ainda mais perigoso.

“O cigarro reprograma células do sistema imunológico”

Em comunicado divulgado pela Universidade de Oklahoma, o professor Prabhakara R. Nagareddy, autor sênior do estudo, resumiu o principal achado da pesquisa:

“Fumar essencialmente reprograma algumas das nossas células imunológicas de primeira resposta. Em vez de nos protegerem, elas tornam-se hiperativas e promovem inflamação crônica dentro das artérias.”

Segundo o pesquisador, essa descoberta ajuda a explicar por que fumantes apresentam risco elevado de doenças cardiovasculares mesmo quando ainda não apresentam sintomas aparentes.

Descoberta surpreendeu os pesquisadores

Outro resultado chamou a atenção da equipe científica.

Durante os experimentos, os pesquisadores observaram que os compostos químicos presentes no cigarro também conseguiram desencadear a resposta inflamatória quando administrados por via oral, e não apenas pela inalação da fumaça.

Esse achado indica que as substâncias tóxicas do tabaco podem agir diretamente sobre o sistema imunológico após serem absorvidas pelo organismo, ampliando os danos cardiovasculares para além dos efeitos causados inicialmente nos pulmões.

Próximos passos da pesquisa

De acordo com o pesquisador Dipanjan Chattopadhyay, primeiro autor do estudo, a próxima etapa será identificar quais dos mais de 7 mil compostos químicos presentes na fumaça do cigarro são os principais responsáveis por desencadear essa resposta inflamatória.

Os cientistas também pretendem investigar se outros produtos que fornecem nicotina — como cigarros eletrônicos e sachês de nicotina — provocam mecanismos semelhantes e, posteriormente, confirmar os resultados em estudos clínicos envolvendo seres humanos.

Especialistas reforçam importância de abandonar o tabagismo

Embora a descoberta possa abrir caminho para futuras terapias capazes de reduzir parte dos danos cardiovasculares provocados pelo tabagismo, os próprios autores enfatizam que a estratégia mais eficaz continua sendo evitar o consumo de produtos derivados do tabaco ou interromper o hábito de fumar.

Organizações internacionais de saúde já reconhecem o tabagismo como um dos principais fatores de risco evitáveis para doenças cardiovasculares, câncer e doenças respiratórias. A nova pesquisa acrescenta uma explicação detalhada sobre como esse processo ocorre no nível celular, fortalecendo as evidências científicas sobre os prejuízos causados pelo cigarro ao organismo.

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