No poder desde 2007, presidente nicaraguense afirmou que o país não realizará mais eleições para impedir que a oposição chegue ao governo, em declaração que amplia as críticas ao enfraquecimento da democracia no país
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA
O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, afirmou, neste domingo (19), durante a cerimônia em comemoração aos 47 anos da Revolução Sandinista, em Manágua, que o país não voltará a realizar eleições. Segundo ele, a medida tem como objetivo impedir que a oposição chegue ao poder. A declaração amplia as preocupações sobre o futuro da democracia nicaraguense e ocorre em meio a críticas internacionais e denúncias de perseguição a opositores e organizações da sociedade civil.
Mesmo com muitos de seus adversários vivendo atualmente fora do país, Ortega disse que eles seguem atentos e buscando uma forma de retornar ao comando, mas descartou totalmente a possibilidade de que isso aconteça por meio do voto.
“Eles gostariam de vencer as eleições para lucrar com as escolas. Mas que esqueçam isso: aqui não haverá mais eleições, para que não tentem, por esse caminho, tomar o governo e o poder”, declarou.
No poder desde 2007, o líder sandinista adiantou ainda que a Assembleia Nacional, comandada por seus aliados, vai editar novas normas legais para aumentar o rigor contra aqueles que o governo classifica como inimigos da nação.
“Leis que ergam um muro, um bloqueio contra os golpistas e os traidores da pátria.” Em seguida, acrescentou: “Por mais dinheiro que os ianques (EUA) lhes deem, eles não conseguirão”.
No início deste ano, passaram a valer alterações na Constituição que ampliaram o mandato presidencial de cinco para seis anos, redefiniram a estrutura do Poder Executivo e adiaram na prática a próxima votação geral para 2027. Na ocasião, as mudanças já foram alvo de manifestações contrárias da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização dos Estados Americanos (OEA) e de líderes oposicionistas, que classificaram as medidas como um ataque ao funcionamento regular das instituições democráticas.
A organização Nicaragua Nunca Más, formada por ativistas que atuam a partir da Costa Rica, avalia que as últimas declarações confirmam um processo de eliminação completa dos espaços de participação legítima no país.
“A Frente Sandinista tornou-se praticamente um partido único, sem oposição real dentro da Nicarágua”, afirmou Salvador Marenco, coordenador da entidade.
Para o ativista, o fechamento de milhares de entidades civis, a perda de registro de partidos políticos e o fim da operação de diversos veículos de comunicação são consequências de um desmonte que já vinha em curso.
“Tudo isso deveria fazer parte do jogo democrático, que já não existe na Nicarágua porque não existe Estado de Direito. Essas palavras não apenas enterram a possibilidade de eleições em 2027, como também reafirmam a impunidade”, declarou.
Ainda no mesmo pronunciamento, Ortega voltou a direcionar críticas ao governo dos Estados Unidos. Ao comentar a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, ele acusou as autoridades americanas de usar força para impor sua vontade a outras nações.
“O que fizeram (os Estados Unidos) com todo o seu poderio? Invadiram o Palácio Presidencial, onde Nicolás estava com sua esposa, mataram seus seguranças, a maioria cubanos, e o levaram para uma prisão nos Estados Unidos. Isso é uma monstruosidade“, criticou.
O líder nicaraguense fez também menção à situação política de Cuba, ao dizer que há pessoas exiladas defendendo uma ação externa contra a ilha.
“Há cubanos no exílio que pedem ao governo dos Estados Unidos que invada militarmente Cuba e prenda o comandante da revolução, Raúl Castro”, declarou.
Nos últimos anos, o governo nicaraguense tem se tornado cada vez mais isolado no cenário internacional. Autoridades de diversos países e organismos globais criticam a concentração de poder nas mãos do presidente e de sua esposa, Rosario Murillo — que passou a ocupar o cargo de copresidente após a reforma constitucional. Paralelamente, os Estados Unidos mantêm sanções aplicadas a integrantes do governo e pessoas próximas ao núcleo de poder, justificando as medidas com alegações de desrespeito aos direitos humanos e aos princípios do Estado de Direito.
Leia mais
Incêndios avançam em Ontário e fumaça mantém alerta de qualidade do ar nos Estados Unidos
Teste de DNA revela troca de bebês após quase quatro décadas e leva famílias à Justiça nos EUA
ICE deporta imigrante ilegal com mandado de prisão internacional por homicídio no México

Faça um comentário