Estudo publicado na Nature Medicine mostra que tratamento desenvolvido para mutações específicas no gene SCN2A reduziu convulsões, melhorou o desenvolvimento neurológico e permitiu que um adolescente caminhasse sozinho pela primeira vez
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA
Um tratamento genético criado sob medida para duas crianças com uma forma rara e grave de epilepsia infantil trouxe resultados considerados promissores pela comunidade científica. Publicado na revista Nature Medicine, o estudo mostra que a terapia experimental reduziu significativamente as crises epilépticas, favoreceu o desenvolvimento neurológico, aprimorou habilidades motoras e, em um dos casos, permitiu que um adolescente de 15 anos caminhasse de forma independente pela primeira vez. Os pesquisadores acreditam que a estratégia pode inaugurar uma nova geração de terapias altamente personalizadas para doenças genéticas raras.
Tratamento foi desenvolvido para cada paciente
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego), nos Estados Unidos, e representa um dos exemplos mais avançados da chamada medicina de precisão, abordagem que adapta o tratamento às características genéticas individuais de cada paciente.
Os dois participantes do estudo — uma menina de nove anos e um adolescente de 14 anos no início da pesquisa, foram diagnosticados ainda na infância com encefalopatia epiléptica do desenvolvimento (EED) relacionada ao gene SCN2A, uma doença genética extremamente rara que provoca crises epilépticas intensas desde os primeiros anos de vida e compromete o desenvolvimento cerebral.
Diferentemente das terapias convencionais, os pesquisadores criaram medicamentos exclusivos para as mutações específicas encontradas em cada criança, buscando agir diretamente sobre a origem da doença.
O papel do gene SCN2A
O gene SCN2A é responsável pela produção de uma proteína essencial para a formação dos canais de sódio presentes nos neurônios.
Esses canais permitem a passagem de íons responsáveis pela transmissão dos impulsos elétricos do cérebro. Quando ocorre uma mutação nesse gene, o funcionamento das células nervosas é alterado, favorecendo o surgimento de convulsões e diversas alterações neurológicas.
Além das crises epilépticas frequentes, pacientes com essa condição podem apresentar:
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deficiência intelectual;
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atrasos importantes no desenvolvimento;
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transtornos do movimento;
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alterações gastrointestinais;
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dificuldades de comunicação;
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transtorno do espectro autista em alguns casos.
Antes do tratamento, nenhum dos dois pacientes utilizava linguagem falada e ambos dependiam de pranchas de comunicação para se expressar.
Como funciona a terapia genética
Em vez de modificar diretamente o DNA, os pesquisadores utilizaram uma tecnologia baseada em oligonucleotídeos antissenso alelo-seletivos (ASOs).
Essas pequenas moléculas sintéticas foram projetadas para reconhecer exclusivamente a cópia defeituosa do gene SCN2A, bloqueando sua atividade sem interferir na versão saudável do gene.
Segundo a autora principal do estudo, Olivia Kim-McManus, professora de neurociências da Escola de Medicina da UC San Diego, a estratégia atua na causa genética da doença, oferecendo uma abordagem muito mais específica do que os tratamentos tradicionais.
Os medicamentos foram administrados diretamente no líquido cefalorraquidiano — que envolve o cérebro e a medula espinhal — por meio de aplicações realizadas sob anestesia a cada dois ou três meses durante aproximadamente dois anos.
Convulsões diminuíram drasticamente
Ao término do acompanhamento clínico, os pesquisadores observaram melhorias importantes nos dois pacientes.
A menina apresentou uma redução de 26% na frequência das convulsões, enquanto o adolescente registrou uma diminuição de aproximadamente 90% das crises epilépticas, além de melhora significativa dos sintomas gastrointestinais.
Os dois pacientes também conseguiram reduzir ou suspender parte dos medicamentos anticonvulsivantes que utilizavam anteriormente.
Desenvolvimento neurológico apresentou avanços
Além da redução das convulsões, a equipe médica registrou progressos em diferentes aspectos do desenvolvimento.
Entre os avanços observados estavam:
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melhora das habilidades motoras;
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evolução no processamento sensorial;
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aumento das capacidades adaptativas;
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progresso na comunicação;
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melhor desenvolvimento neurológico geral.
O resultado considerado mais marcante ocorreu com o adolescente, que conseguiu caminhar sem auxílio pela primeira vez aos 15 anos.
Durante o estudo, os pesquisadores perceberam que essa capacidade diminuía quando o intervalo entre as aplicações aumentava. Após ajustes na frequência das doses, ele voltou a caminhar de forma independente e continuou evoluindo.
Segurança do tratamento
Ao longo dos dois anos de acompanhamento, os pesquisadores não identificaram efeitos colaterais graves relacionados à terapia genética.
Embora o estudo tenha envolvido apenas dois pacientes, os resultados demonstram que tratamentos altamente personalizados podem ser desenvolvidos com segurança para doenças causadas por mutações genéticas específicas.
Possível revolução na medicina personalizada
Os autores acreditam que a tecnologia utilizada poderá ser adaptada futuramente para diversas outras doenças provocadas por alterações em um único gene, tanto neurológicas quanto não neurológicas.
A expectativa é que plataformas semelhantes permitam criar tratamentos individualizados para pacientes que atualmente possuem poucas ou nenhuma alternativa terapêutica.
Segundo Olivia Kim-McManus, a ideia parecia distante quando os trabalhos começaram, mas os resultados obtidos mostram que a medicina personalizada está deixando de ser um conceito teórico para se tornar uma realidade clínica.
Próximos desafios
Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam que serão necessários novos estudos envolvendo um número maior de pacientes para confirmar a eficácia, avaliar os benefícios em longo prazo e estabelecer protocolos para ampliar esse tipo de tratamento.
Ainda assim, especialistas consideram que o estudo representa um importante avanço na aplicação prática da medicina genética personalizada, abrindo perspectivas para transformar o tratamento de doenças raras que, até hoje, dispõem de opções terapêuticas bastante limitadas.
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