Independência do Brasil teve influência dos Estados Unidos e das revoluções que transformaram as Américas

Experiência de independência das 13 colônias britânicas inspirou grupos brasileiros décadas antes do 7 de Setembro, mas processo de ruptura com Portugal também recebeu influência francesa, haitiana e europeia

Por Tatiane Martinelli | GNEWSUSA

A Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, não surgiu de forma repentina. Décadas antes do rompimento oficial com Portugal, ideias de liberdade, autonomia e ruptura com as monarquias europeias já circulavam entre grupos da elite intelectual brasileira. Nesse ambiente, a experiência dos Estados Unidos, que haviam declarado sua independência em 1776, tornou-se uma das referências para movimentos que questionavam o domínio português.

A Revolução Americana foi pioneira no continente ao romper com uma potência europeia e estabelecer uma república independente. O exemplo passou a ser acompanhado por intelectuais e grupos políticos de outras partes das Américas, inclusive na América Portuguesa. Livros, jornais, cartas e relatos de viajantes ajudaram a espalhar essas ideias entre brasileiros que estudavam ou mantinham contato com centros intelectuais europeus.

Um dos episódios mais emblemáticos dessa aproximação ocorreu em 1787, quando o brasileiro José Joaquim Maia e Barbalho, que utilizava o pseudônimo Vendek, procurou Thomas Jefferson, então diplomata norte-americano na França e uma das principais figuras da independência dos Estados Unidos.

Maia e Barbalho buscava apoio dos norte-americanos para um movimento de emancipação dos territórios portugueses na América. Em correspondências, o brasileiro deixou claro que via a experiência dos Estados Unidos como um exemplo a ser seguido e defendia que o Brasil precisava de uma potência estrangeira que pudesse apoiar uma eventual ruptura com Portugal.

O encontro entre os dois aconteceu secretamente em março de 1787. Jefferson chegou a relatar às autoridades norte-americanas o contato com o brasileiro e demonstrou interesse pelo cenário político da América Portuguesa. Apesar disso, os Estados Unidos não ofereceram o apoio esperado. O país ainda estava consolidando sua própria independência e mantinha interesses diplomáticos e econômicos na Europa.

Mesmo sem uma intervenção direta dos norte-americanos, o episódio revela que a experiência dos Estados Unidos já era observada por brasileiros que defendiam mudanças políticas. A independência americana funcionava como uma demonstração concreta de que uma colônia poderia romper com uma monarquia europeia e construir um novo Estado.

A influência sobre a Inconfidência Mineira

Poucos anos depois, a experiência norte-americana apareceria novamente no ambiente político brasileiro. A Inconfidência Mineira, movimento ocorrido em 1789, em Minas Gerais, foi influenciada pelas ideias iluministas e pelas transformações políticas que aconteciam no mundo atlântico.

Entre os envolvidos estava Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Pesquisas históricas indicam que ele teve contato com materiais relacionados à independência dos Estados Unidos. Um dos livros associados aos inconfidentes reunia documentos sobre as leis e a organização das antigas colônias britânicas que formaram os Estados Unidos, incluindo a declaração de independência.

O material teria sido levado ao Brasil por José Álvares Maciel, engenheiro que havia estudado na Europa e que manteve contato com Tiradentes. A circulação dessas obras ajudou a alimentar discussões sobre república, autonomia e rompimento com o domínio português.

No entanto, a influência americana não explica sozinha o surgimento da Inconfidência Mineira. As ideias iluministas já circulavam entre setores da elite brasileira, principalmente entre jovens que estudavam na Europa. Muitos desses estudantes entravam em contato com obras que defendiam novas formas de organização política e questionavam o poder absoluto das monarquias.

Um dos exemplos é o cônego Luís Vieira da Silva, considerado um dos intelectuais mais importantes ligados ao movimento mineiro. Sua biblioteca reunia obras relacionadas ao Iluminismo e às ideias republicanas. Segundo depoimentos registrados durante os processos da Inconfidência, a ideia de estabelecer uma república independente em Minas Gerais já circulava antes mesmo do contato mais direto de Tiradentes com referências norte-americanas.

Ideias atravessavam o Atlântico

O Brasil do final do século 18 estava conectado, ainda que de maneira limitada, ao chamado mundo atlântico. Jovens brasileiros viajavam para estudar na Europa e retornavam trazendo livros, notícias e ideias políticas.

Entre 1772 e 1785, cerca de 300 brasileiros frequentaram a Universidade de Coimbra, em Portugal. Outros estudaram em universidades francesas. Esse fluxo contribuiu para que conceitos relacionados ao liberalismo, ao republicanismo e à independência chegassem às elites intelectuais da América Portuguesa.

Nesse cenário, a Revolução Americana foi uma referência particularmente importante porque representava um exemplo concreto de ruptura colonial. Os Estados Unidos haviam conseguido se separar do Império Britânico e estabelecer uma nova estrutura política.

A experiência americana também demonstrava que a independência poderia ser acompanhada pela criação de instituições próprias, em vez da simples substituição de uma autoridade europeia por outra.

Outras revoluções também influenciaram o Brasil

Apesar da importância da experiência americana, historiadores alertam que seria incorreto atribuir aos Estados Unidos um papel exclusivo na formação das ideias que levaram à independência brasileira.

A Revolução Francesa, iniciada em 1789, teve enorme impacto na circulação de conceitos como liberdade, igualdade, cidadania e soberania popular. Já a Revolução Haitiana, iniciada em 1791, apresentou outro exemplo de ruptura colonial, dessa vez protagonizada por uma população majoritariamente negra e escravizada que derrotou o domínio francês e estabeleceu uma república independente.

Esses acontecimentos tiveram repercussões diferentes no Brasil. Enquanto a experiência americana era observada como um modelo de independência e organização republicana, a Revolução Haitiana provocava temor entre as elites escravistas brasileiras, que receavam que uma revolta semelhante pudesse ocorrer no território português da América.

Assim, o processo que levou à independência brasileira foi resultado da combinação de diferentes influências políticas, econômicas e intelectuais que atravessaram o Atlântico ao longo de décadas.

De 1789 a 1822

A Inconfidência Mineira foi reprimida pelas autoridades portuguesas e não conseguiu concretizar seu projeto de independência. Tiradentes acabou condenado e executado em 1792, transformando-se posteriormente em um dos principais símbolos da luta pela emancipação brasileira.

Outros movimentos surgiram nas décadas seguintes. A Conjuração Baiana, em 1798, reuniu setores sociais diferentes e apresentou propostas de caráter mais radical. Em 1817, a Revolução Pernambucana também defendeu a ruptura com Portugal e a criação de uma república.

Esses movimentos demonstram que o desejo de autonomia não estava restrito a um único grupo ou região. Ao longo do período, ideias de independência, republicanismo e reorganização política continuaram circulando entre diferentes setores da sociedade.

A conjuntura mudou significativamente com a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. A presença da monarquia portuguesa no Brasil alterou a estrutura política e econômica da colônia e, posteriormente, contribuiu para que o território alcançasse uma posição diferente dentro do Império Português.

Em 1821, com o retorno de D. João VI a Portugal, seu filho, Pedro de Alcântara, permaneceu no Brasil. A pressão das Cortes portuguesas para que ele também retornasse aumentou as tensões entre grupos brasileiros e Lisboa.

Foi nesse contexto que ocorreu o processo que culminaria no 7 de Setembro de 1822, quando D. Pedro declarou a separação do Brasil de Portugal.

Uma independência diferente da americana

Apesar das influências, os processos brasileiro e norte-americano foram bastante diferentes.

Nos Estados Unidos, a independência foi resultado de uma guerra prolongada contra a Grã-Bretanha e culminou na formação de uma república. No Brasil, a ruptura ocorreu sob a liderança de um membro da própria família real portuguesa, que se tornou imperador do novo país.

Além disso, a independência brasileira preservou estruturas importantes do período colonial, como a monarquia e a escravidão. O Brasil também manteve uma estrutura territorial relativamente unificada, enquanto a América espanhola se fragmentou em diferentes países independentes.

Por isso, a influência dos Estados Unidos deve ser entendida principalmente como parte de um conjunto de referências que ajudaram a formar o ambiente intelectual e político das décadas anteriores à independência.

Estados Unidos foram os primeiros a reconhecer o Brasil

Depois da separação de Portugal, os Estados Unidos também tiveram papel importante no reconhecimento internacional do novo país. Washington foi o primeiro governo a reconhecer oficialmente a independência brasileira.

A decisão, porém, não foi apenas uma demonstração de simpatia pela causa brasileira. Também envolvia interesses diplomáticos e comerciais dos Estados Unidos, que buscavam ampliar sua presença e seus relacionamentos no continente americano.

A aproximação entre os dois países, portanto, começou ainda antes de 1822, quando brasileiros procuraram inspiração e apoio na experiência norte-americana, e continuou depois da independência, quando os Estados Unidos passaram a estabelecer relações oficiais com o Brasil.

Um processo construído ao longo de décadas

A história da Independência do Brasil mostra que o 7 de Setembro foi o resultado de um processo muito mais amplo do que o episódio protagonizado por D. Pedro às margens do Ipiranga.

A experiência dos Estados Unidos teve importância por apresentar, pela primeira vez no continente americano, um exemplo de ruptura bem-sucedida com uma potência colonial europeia. O contato de brasileiros com Thomas Jefferson, a circulação de livros sobre a independência americana e a influência exercida sobre setores ligados à Inconfidência Mineira são evidências dessa conexão.

Ao mesmo tempo, o Brasil recebeu influências de diferentes movimentos e correntes de pensamento que circulavam pela Europa, pelas Américas e pelo Caribe.

Mais do que uma cópia do modelo norte-americano, a independência brasileira foi resultado de uma combinação de interesses locais, disputas políticas, transformações econômicas e ideias que atravessaram fronteiras.

O 7 de Setembro de 1822, portanto, deve ser compreendido dentro de uma grande transformação que marcou as Américas: o enfraquecimento dos impérios coloniais europeus e o surgimento de novos países independentes. Nesse cenário, a experiência dos Estados Unidos foi uma das primeiras referências, mas o caminho brasileiro teve características próprias e foi construído ao longo de décadas de conflitos, influências e disputas pelo poder.

Jornal GNewsUSA — BRAZILIANS AROUND THE WORLD

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