Estudos apresentados no maior congresso de oncologia do mundo mostram avanços que vão de terapias feitas sob medida para cada paciente a estratégias simples, como atividade física orientada, capazes de aumentar a sobrevida e reduzir o risco de retorno da doença
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
O tratamento do câncer está entrando em uma nova fase marcada pela medicina personalizada, pela inteligência artificial (IA) e por abordagens que unem alta tecnologia e intervenções acessíveis. Pesquisas apresentadas durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), realizada em Chicago, nos Estados Unidos, revelaram resultados promissores com vacinas desenvolvidas para cada paciente, novos medicamentos contra tumores considerados de difícil tratamento, reaproveitamento de remédios já existentes e programas de exercícios físicos capazes de reduzir significativamente o risco de recidiva da doença. Especialistas afirmam que o futuro da oncologia será cada vez mais personalizado, preventivo e orientado por dados.
ASCO 2026 marca mudança de paradigma na luta contra o câncer
Durante décadas, os avanços na oncologia costumavam ser representados por uma descoberta isolada, um novo medicamento, uma técnica cirúrgica inovadora ou um tratamento revolucionário.
Na edição de 2026 da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), considerada o maior congresso mundial sobre câncer, a mensagem foi diferente: os avanços passaram a surgir simultaneamente em diversas áreas da ciência.
Segundo especialistas, essa convergência representa uma mudança importante na forma como o câncer será tratado nos próximos anos, reunindo biotecnologia, imunologia, genética, inteligência artificial e mudanças no estilo de vida.
Novo medicamento traz esperança para pacientes com câncer de pâncreas
Um dos momentos mais marcantes do congresso ocorreu durante a apresentação do estudo RASolute 302, conduzido pelo Dana-Farber Cancer Institute, nos Estados Unidos.
Os pesquisadores divulgaram resultados do daraxonrasibe, medicamento desenvolvido para pacientes com câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e de pior prognóstico da medicina.
De acordo com o estudo, o tratamento praticamente dobrou a sobrevida dos pacientes quando comparado à quimioterapia convencional.
O medicamento atua bloqueando alterações do gene RAS, responsável pelo crescimento de aproximadamente um terço dos tumores humanos.
Por décadas, mutações desse gene foram consideradas praticamente impossíveis de tratar. O novo resultado foi classificado por especialistas como um dos avanços mais importantes dos últimos anos para esse tipo de câncer.
Vacinas personalizadas inauguram uma nova geração de tratamentos
Outra inovação apresentada envolve as vacinas personalizadas de RNA mensageiro (mRNA), tecnologia que ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19.
Diferentemente das vacinas tradicionais, essas terapias são produzidas individualmente para cada paciente.
Após a retirada cirúrgica do tumor, cientistas analisam o DNA das células cancerígenas e identificam mutações exclusivas daquele câncer.
Com essas informações, é criada uma vacina personalizada que ensina o sistema imunológico a reconhecer e destruir apenas as células tumorais, reduzindo o risco de retorno da doença.
Resultados promissores no melanoma
Um dos estudos acompanhou pacientes com melanoma de alto risco, o tipo mais agressivo de câncer de pele.
Os participantes receberam a vacina personalizada Intismeran combinada com imunoterapia.
Após cinco anos de acompanhamento, aproximadamente 69% dos pacientes permaneceram livres da doença, enquanto aqueles tratados apenas com imunoterapia apresentaram maior risco de recidiva.
Os pesquisadores destacam que estudos maiores ainda estão em andamento para confirmar os resultados, mas a estratégia já está sendo avaliada também em tumores de pulmão, pâncreas e bexiga.
Exercício físico ganha espaço como aliado no tratamento
Nem todos os avanços dependem de tecnologias complexas.
O estudo internacional CHALLENGE, apresentado durante a ASCO, demonstrou que um programa estruturado de atividade física após o tratamento do câncer colorretal reduziu significativamente o risco de retorno da doença.
Entre os pacientes que participaram do programa supervisionado de exercícios, a taxa de sobrevida livre da doença após cinco anos foi de 80,3%, contra 73,9% entre aqueles que receberam apenas orientações gerais sobre saúde.
Além dos benefícios clínicos, pesquisadores observaram que a estratégia apresenta excelente relação custo-benefício, tornando-se uma alternativa viável para sistemas públicos e privados de saúde.
Especialistas ressaltam que os exercícios devem sempre ser orientados por profissionais de saúde e adaptados às condições clínicas de cada paciente.
Medicamentos antigos ganham novas aplicações
Outra tendência crescente na oncologia é o chamado reposicionamento de medicamentos.
Em vez de desenvolver novas drogas do zero, pesquisadores investigam se medicamentos já existentes podem tratar outros tipos de câncer.
Entre os resultados apresentados:
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baixas doses de aspirina reduziram significativamente o risco de recidiva em um grupo específico de pacientes com câncer colorretal identificado por testes genéticos;
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o medicamento abemaciclibe, inicialmente aprovado para câncer de mama, mostrou eficácia inédita no tratamento de um tipo raro e agressivo de sarcoma.
Essa estratégia reduz custos, acelera a chegada de novos tratamentos e amplia o acesso dos pacientes às terapias.
Inteligência artificial acelera descobertas
A inteligência artificial tornou-se um dos principais temas da conferência.
Embora não substitua médicos ou pesquisadores, a tecnologia está permitindo analisar grandes volumes de dados genéticos, identificar padrões invisíveis aos métodos tradicionais e prever quais pacientes têm maior probabilidade de responder a determinados tratamentos.
Entre as aplicações apresentadas estão:
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identificação de mutações específicas em tumores;
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seleção de pacientes para terapias personalizadas;
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desenvolvimento de vacinas individualizadas;
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descoberta de novos usos para medicamentos existentes;
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apoio ao diagnóstico precoce e à tomada de decisão clínica.
Segundo especialistas, a IA funciona como um acelerador da pesquisa científica, reduzindo o tempo necessário para transformar descobertas laboratoriais em tratamentos disponíveis para os pacientes.
Oncologia caminha para tratamentos cada vez mais personalizados
Os estudos apresentados na ASCO reforçam uma mudança importante na medicina moderna.
Cada vez mais, o tratamento deixa de considerar apenas o órgão afetado e passa a analisar as características genéticas e moleculares de cada tumor.
Esse conceito permite oferecer terapias mais precisas, reduzir efeitos colaterais e aumentar as chances de sucesso.
Embora muitos desses avanços ainda dependam de estudos adicionais antes de serem incorporados à prática clínica, especialistas avaliam que a oncologia vive um dos períodos mais promissores de sua história.
Perspectivas para os próximos anos
A combinação entre medicina personalizada, imunoterapia, inteligência artificial, reaproveitamento de medicamentos e hábitos saudáveis indica que o futuro do tratamento do câncer será construído por diferentes estratégias atuando em conjunto.
Para os especialistas, o maior avanço não é apenas o surgimento de novos medicamentos, mas a capacidade crescente de oferecer o tratamento certo para o paciente certo, no momento mais adequado, aumentando as chances de cura e melhorando a qualidade de vida.
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