Análise que reuniu quase 8,8 milhões de adultos encontrou associação entre maior consumo desses alimentos e doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, problemas digestivos e maior risco de morte
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma das maiores análises já realizadas sobre o consumo de alimentos ultraprocessados encontrou uma associação entre a ingestão elevada desses produtos e um risco maior de desenvolver diferentes doenças crônicas. O estudo reuniu dados de 51 pesquisas prospectivas, envolvendo aproximadamente 8,82 milhões de adultos acompanhados por períodos que chegaram a 32 anos.
Publicado em 22 de setembro de 2026 na revista Family Medicine and Community Health, o trabalho avaliou pesquisas realizadas nas Américas, Europa, Ásia e Oceania. Os participantes tinham entre 23 e 77 anos, em média, dependendo do estudo analisado.
Os pesquisadores compararam grupos com diferentes níveis de consumo de ultraprocessados e identificaram maiores riscos associados aos níveis mais elevados de ingestão.
Quais doenças apareceram na análise
Entre os principais resultados, o grupo com maior consumo de ultraprocessados apresentou:
- 24% mais risco de eventos cardiovasculares;
- 12% mais risco de câncer;
- 23% mais risco de sobrepeso ou obesidade;
- 24% mais risco de síndrome metabólica ou diabetes;
- 27% mais risco de depressão ou ansiedade;
- 31% mais risco de doenças digestivas;
- 18% mais risco de morte por qualquer causa.
Os números representam associações observadas nos estudos analisados e não significam que uma pessoa que consome determinado alimento necessariamente desenvolverá uma dessas doenças.
Quanto maior o consumo, maior o risco observado
A análise também procurou avaliar a relação entre quantidade consumida e os resultados de saúde. Para algumas condições, os pesquisadores encontraram aumento do risco conforme a ingestão de ultraprocessados crescia.
A cada 100 gramas adicionais de ultraprocessados consumidos por dia, por exemplo, houve associação com aumento de 14% no risco de eventos cardiovasculares, 4% no risco de câncer, 3% no risco de morte por qualquer causa e 2% no risco de síndrome metabólica ou diabetes.
Essa relação dose-resposta chama atenção porque sugere que não se trata apenas de comparar pessoas que consomem ou não esses produtos, mas também de observar como diferentes níveis de exposição se relacionam com a saúde ao longo do tempo.
O que são alimentos ultraprocessados
Os ultraprocessados são produtos formulados industrialmente que normalmente passam por várias etapas de processamento e podem conter ingredientes e aditivos pouco utilizados na cozinha doméstica.
Entre os exemplos mais comuns estão refrigerantes, alguns tipos de salgadinhos, biscoitos recheados, doces industrializados, refeições prontas, determinados produtos cárneos processados e outros alimentos formulados para consumo rápido ou para terem maior durabilidade.
A classificação, porém, não se baseia simplesmente no fato de o alimento ser industrializado. O sistema utilizado pelos pesquisadores considera o grau e a natureza do processamento dos produtos.
Diabetes tipo 2 está entre os principais alertas
A relação entre ultraprocessados e diabetes tipo 2 vem sendo investigada em diferentes estudos. Uma pesquisa publicada neste mês na revista Diabetes, por exemplo, também avaliou a relação entre consumo de ultraprocessados, fatores de estilo de vida e predisposição genética para desenvolver diabetes tipo 2.
Outro estudo anterior, realizado com três grandes coortes americanas, encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e maior risco de diabetes tipo 2. Na análise conjunta de estudos prospectivos, cada aumento de 10% na participação de ultraprocessados na alimentação esteve associado a um aumento de 12% no risco da doença.
Os novos resultados ampliam essa discussão ao mostrar que a associação não se limita ao diabetes e pode envolver diferentes sistemas do organismo.
Pesquisadores fazem ressalva sobre os resultados
Apesar do tamanho expressivo da análise, os próprios autores apontam limitações. Os estudos incluídos utilizaram diferentes métodos para estimar o consumo alimentar, como questionários de frequência alimentar, registros de 24 horas e históricos alimentares.
Além disso, estudos observacionais não conseguem estabelecer, sozinhos, uma relação de causa e efeito. Pessoas que consomem mais ultraprocessados podem apresentar simultaneamente outros fatores relacionados à saúde, como menor atividade física, excesso de peso ou outros hábitos alimentares e comportamentais.
Por isso, os autores classificaram a certeza das evidências como baixa ou moderada, dependendo do desfecho analisado.
O alerta não significa que todo alimento processado seja igual
Um ponto importante é que a classificação de ultraprocessados reúne produtos bastante diferentes entre si. Isso significa que o resultado geral não permite afirmar que todos os alimentos incluídos nessa categoria tenham exatamente o mesmo impacto sobre a saúde.
Especialistas que comentaram o estudo também chamaram atenção para essa questão e para a necessidade de interpretar os resultados dentro do conjunto de evidências disponíveis sobre alimentação e doenças crônicas.
Ainda assim, diante do grande número de participantes envolvidos, os pesquisadores consideram que a redução do consumo de ultraprocessados e sua substituição por alimentos minimamente processados pode ser uma estratégia relevante para a prevenção de doenças crônicas.
Um alerta para a alimentação cotidiana
O estudo reforça uma preocupação que vem ganhando espaço na pesquisa médica: a presença cada vez maior de produtos ultraprocessados na alimentação pode estar relacionada a diferentes problemas de saúde quando o consumo é elevado.
A recomendação, entretanto, não é interpretar os resultados como uma proibição absoluta de determinados alimentos. O principal ponto levantado pela pesquisa é a importância de reduzir a participação dos ultraprocessados na dieta e priorizar, sempre que possível, alimentos in natura ou minimamente processados dentro de uma alimentação equilibrada.
Com quase 8,8 milhões de participantes analisados, a pesquisa acrescenta uma das maiores bases de evidências recentes ao debate sobre a relação entre padrão alimentar e doenças crônicas.
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