Lula diz que mulheres “aprendem a tomar toque” desde pequenas; médico reage: “Menina que é tocada desde pequena é vítima de abuso”

Médico acionou entidades da área e contestou declaração feita pelo presidente durante ato de campanha em Belém; diretrizes oficiais estabelecem critérios específicos para o rastreamento do câncer do colo do útero
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre exames ginecológicos provocou reação de um médico e abriu uma discussão sobre os procedimentos de prevenção e avaliação ginecológica em crianças e adolescentes. Durante um ato de campanha realizado em Belém (PA), na segunda-feira (28), Lula afirmou, ao defender a realização do exame de próstata por homens, que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”.

No dia seguinte, o médico Victor Augustho Barbosa informou que havia acionado a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), pedindo posicionamento oficial das entidades sobre a declaração.

Em uma publicação nas redes sociais, Barbosa contestou diretamente a ideia apresentada pelo presidente. “aprender a tomar toque desde pequena não é protocolo. Menina que é tocada desde pequena é vítima de abuso”, escreveu o médico.

A discussão ganhou relevância porque o rastreamento do câncer do colo do útero segue critérios definidos nacionalmente. Segundo as diretrizes atualizadas pelo Ministério da Saúde, o rastreamento deve ser oferecido a pessoas com colo do útero entre 25 e 64 anos que já tenham iniciado atividade sexual.

O que Lula disse

Durante o evento em Belém, Lula falava sobre a importância da prevenção e do diagnóstico do câncer de próstata quando fez a seguinte declaração:

“Nós, hoje, fizemos a 1ª operação robótica de próstata aqui no Estado do Pará e no norte do país. A 1ª operação robótica. E por que isso é importante? Porque o homem é covarde. O homem não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas. O homem não, ele é cheio de trejeitos. Ele não sabe que, quando ele tiver câncer de próstata, vão dar muito toque nele.”

A frase sobre meninas e exames ginecológicos foi o trecho que motivou a reação do médico.

Rastreamento do colo do útero tem critérios definidos

As diretrizes nacionais não estabelecem que meninas devam realizar, desde pequenas, o rastreamento do câncer do colo do útero. O Ministério da Saúde informa que a população-alvo do rastreamento é formada por mulheres e outras pessoas com colo do útero de 25 a 64 anos que já tenham tido atividade sexual.

Além disso, o modelo de rastreamento passou por atualização em 2025. O teste molecular para detecção do DNA-HPV oncogênico passou a ser o método primário previsto nas novas diretrizes. Onde a nova tecnologia ainda não estiver disponível, o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, continua sendo utilizado.

O próprio Ministério da Saúde informa atualmente que o novo rastreamento utiliza o teste de DNA-HPV como exame primário para pessoas de 25 a 64 anos, com intervalo de cinco anos após resultado negativo, conforme o protocolo adotado.

Isso não significa, porém, que uma adolescente jamais possa passar por uma avaliação ginecológica. Consulta médica e exame clínico são situações diferentes do rastreamento populacional do câncer do colo do útero. A necessidade de qualquer procedimento depende da história clínica, dos sintomas, da idade e da avaliação do profissional de saúde.

Médico questiona afirmação

Na manifestação apresentada às entidades médicas, Barbosa também afirmou que, para pessoas que ainda não iniciaram atividade sexual, um exame ginecológico não significa automaticamente a realização de toque vaginal.

O médico escreveu ainda:

“exame ginecológico não inclui toque. Se for estritamente necessário: indicação escrita, consentimento e termo de responsabilidade assinado pelo médico. Sem isso, o médico responde — inclusive na esfera criminal”.

A afirmação sobre a obrigatoriedade de documentação escrita, entretanto, exige cautela. Parecer do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo citado no caso estabelece a necessidade de consentimento do paciente ou de seu representante legal para procedimentos médicos, mas não determina, de forma geral, que esse consentimento tenha obrigatoriamente de ser formalizado por escrito em todas as situações.

O documento também considera que procedimentos internos podem deixar de ser realizados em determinadas circunstâncias e eventualmente ser substituídos por exames de imagem não invasivos, dependendo da avaliação clínica e do consentimento da paciente e/ou de seus responsáveis.

Exame clínico não é o mesmo que rastreamento

A controvérsia também envolve uma distinção importante para o público: consulta ginecológica, exame clínico e rastreamento do câncer do colo do útero não são necessariamente a mesma coisa.

O rastreamento é uma estratégia destinada a identificar alterações em uma população que atende a determinados critérios. Já uma avaliação médica pode ser indicada diante de sintomas, suspeitas clínicas ou outras situações específicas.

O Ministério da Saúde também estabelece que o atendimento de adolescentes deve respeitar seus direitos e garantir assistência adequada às suas necessidades de saúde.

Dessa forma, a declaração de que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas” não corresponde, como regra geral, aos critérios atuais do rastreamento do câncer do colo do útero estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

Entidades foram procuradas

A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia foram procuradas para informar se receberam a manifestação do médico e se pretendiam se posicionar sobre a declaração feita pelo presidente.

Até a publicação desta matéria, não havia manifestação oficial das duas entidades sobre o caso.

A discussão permanece concentrada na diferença entre a fala de Lula, que associou mulheres a exames ginecológicos desde a infância, e as diretrizes oficiais, que estabelecem critérios específicos para o rastreamento do câncer do colo do útero.

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