Vorcaro perguntou a Alexandre de Moraes se deveria fugir dois dias antes de ser preso

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram que dono do Banco Master buscou informações sobre possíveis medidas da investigação e questionou ministro do STF sobre a possibilidade de sair do país
Por Gilvania Alves |GNEWSUSA

Dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro perguntou a Alexandre de Moraes se deveria deixar o país. Em 15 de novembro de 2025, o banqueiro enviou ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF): “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Em 17 de novembro, foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo, onde se preparava para embarcar em um jato particular.

A viagem tinha Malta como destino inicial e Dubai como destino posterior. A prisão ocorreu em meio à investigação sobre o Banco Master e enquanto Vorcaro negociava a venda da instituição para um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos. O negócio não avançou depois da prisão, e o Banco Central determinou a liquidação do banco no dia seguinte.

Os registros do celular mostram que Vorcaro vinha tentando entender quais providências poderiam ser adotadas contra ele. Em 4 de novembro, questionou Moraes: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”. Logo depois, perguntou: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”

Ainda naquela conversa, escreveu: “Só vai saber qdo ele chamar né”.

A preocupação também estava relacionada à possibilidade de uma medida afetar diretamente o banco. Em outra mensagem, Vorcaro afirmou: “conseguem medida contra agora, vai tudo por água abaixo”. Depois, reforçou: “Essa minha maior preocupação”.

Às 19h09, escreveu: “Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar.” Cerca de uma hora e meia depois, voltou a procurar Moraes e fez um pedido para que uma eventual medida fosse evitada:

“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder me deixe uma mensagem após falar com ele”

Na sequência, acrescentou: “Se fosse possível saber o que é, entramos imediatamente.”

Questionamentos aumentaram antes da prisão

Em 6 de novembro, Vorcaro voltou a procurar Moraes com novas perguntas: “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade? Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?”

Naquele período, o banqueiro também conversava com seu então advogado Pierpaolo Cruz Bottini sobre uma estratégia jurídica relacionada ao caso. Vorcaro escreveu:

“Ele disse que teria que justificar pq estaria pedindo tá. Eu falei pra fazer de toda forma”

Depois acrescentou:

“O Píer acha que se entrar do nada pode acelerar algo, sem justificativa. Ele fez pedido macro, e acredita que vão jogar pra essa vara. O que acha?”

Em 7 de novembro, Vorcaro afirmou não ter “qualquer preocupação para tratar da parte técnica” da investigação, mas demonstrou receio de que uma medida fosse efetivamente adotada. Na mesma conversa, escreveu: “problema de tudo só é se sair algo mesmo” e “Amanhã vamos ver se conseguimos puxar do lado de cá.”

Pergunta na véspera da prisão

Com a aproximação da operação, Vorcaro voltou a perguntar sobre a possibilidade de ser preso. Em 16 de novembro, escreveu a Moraes: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”

Naquele momento, a ordem de prisão preventiva ainda não havia sido assinada. A decisão foi expedida às 15h29 de 17 de novembro pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal.

No dia da prisão, Vorcaro informou que tentava antecipar investidores para concluir parte da negociação envolvendo o Banco Master. Também relatou ter recebido informações de que o caso poderia estar vazando:

“De outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes. Mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá. Se vazar algo será péssimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.”

A menos de 24 horas de ser preso, escreveu ainda: “Se tiver alguma novidade vamos falar.”

Parte das conversas não foi recuperada

A perícia no celular não conseguiu reconstruir integralmente os diálogos entre Vorcaro e Moraes. Parte das mensagens utilizava o recurso de visualização única, e o banqueiro também enviava capturas de textos elaborados no aplicativo de notas. Por isso, as mensagens enviadas por Vorcaro aparecem no material, mas as respostas do ministro não foram recuperadas em sua totalidade.

Segundo a investigação, os registros foram usados para analisar os contatos mantidos pelo banqueiro durante o avanço do caso. O conteúdo disponível, porém, não permite conhecer todas as respostas de Moraes.

O celular também registrou contato de Walfrido Warde, advogado de Vorcaro à época, com o juiz Ricardo Augusto Soares Leite horas antes da prisão. Em seguida, Warde escreveu ao banqueiro: “Estamos infernizando o cara”.

A investigação começou na primeira instância e foi encaminhada ao STF em dezembro de 2025, por determinação de Dias Toffoli, depois da identificação de transações imobiliárias envolvendo Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro por prerrogativa de função. Toffoli posteriormente deixou a relatoria, assumida por André Mendonça.

Vorcaro foi solto em 29 de novembro de 2025 e voltou a ser preso em 4 de março de 2026.

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