Coração dos adolescentes acende alerta nos EUA: novos dados revelam desafios na alimentação e na atividade física

Relatórios do CDC mostram que apenas um em cada quatro estudantes do ensino médio americano pratica atividade física aeróbica por pelo menos 60 minutos todos os dias; especialistas destacam a importância da prevenção desde cedo, com participação das famílias e das escolas
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A saúde cardiovascular dos adolescentes entrou em evidência nos Estados Unidos nesta quinta-feira, 15 de outubro, com a divulgação de novos relatórios dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Os levantamentos, baseados em dados de 2025, revelam desafios persistentes nos hábitos alimentares e na prática de exercícios físicos entre estudantes do ensino médio americano. Embora alguns indicadores tenham apresentado melhora em relação a 2023, a maioria dos jovens ainda não segue as recomendações nacionais para uma alimentação saudável e uma rotina regular de atividade física. Os resultados reforçam a importância da prevenção precoce e do envolvimento conjunto de famílias, escolas e comunidades na construção de hábitos que favoreçam a saúde do coração ao longo da vida.

O que os números revelam sobre o coração dos jovens

O relatório Cardiovascular Health Among High School Students — Youth Risk Behavior Survey, United States, 2025, publicado no periódico científico Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR), do CDC, avaliou indicadores relacionados à saúde cardiovascular de estudantes americanos do ensino médio.

A análise considerou cinco dimensões: alimentação, atividade física, exposição à nicotina, qualidade do sono e índice de massa corporal (IMC). Entre os 10.710 estudantes que participaram da pesquisa nacional, 5.192 tinham informações completas para todos os indicadores e foram incluídos no cálculo do escore geral de saúde cardiovascular.

Nesse grupo, 20,7% apresentaram pontuação elevada de saúde cardiovascular, 61,3% ficaram na faixa intermediária e 18% na faixa baixa. Em outras palavras, aproximadamente quatro em cada cinco estudantes avaliados apresentaram resultados intermediários ou baixos, indicando espaço para melhorias nos hábitos e fatores associados à saúde do coração. Esses escores são indicadores de saúde populacional, e não diagnósticos individuais de doenças cardiovasculares.

Um dos achados mais relevantes foi o desempenho desfavorável da alimentação, que recebeu a menor pontuação média entre as cinco dimensões analisadas. O sono e a atividade física também apareceram entre os principais pontos de atenção. O conjunto dos resultados sugere que a prevenção precisa ir além da preocupação com o peso corporal e considerar diferentes aspectos do cotidiano dos adolescentes.

Sedentarismo: um desafio que começa cedo

O levantamento complementar do CDC, Dietary and Physical Activity Behaviors Among High School Students — Youth Risk Behavior Survey, United States, 2025, detalha a frequência dos exercícios entre os estudantes.

Os dados mostram que apenas 25% dos adolescentes praticaram pelo menos 60 minutos de atividade física por dia durante os sete dias anteriores à pesquisa. Cerca de 50,6% realizaram exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos três dias da semana, mas somente 16,1% atenderam simultaneamente às recomendações de atividade aeróbica e fortalecimento muscular.

A participação em equipes esportivas apresentou um cenário mais favorável: 57,6% dos estudantes disseram ter participado de pelo menos uma equipe esportiva nos 12 meses anteriores. Entretanto, somente 19,8% frequentaram aulas de educação física em todos os cinco dias de uma semana escolar típica.

Os números indicam que praticar um esporte ocasionalmente ou participar de uma equipe não significa, necessariamente, manter uma rotina de atividade física suficiente. A regularidade é importante, e as oportunidades para se movimentar precisam fazer parte da vida dos jovens dentro e fora da escola.

A falta de atividade física também não deve ser interpretada apenas como uma escolha individual. Tempo excessivo diante das telas, rotinas escolares exigentes, falta de espaços seguros para brincar ou praticar esportes e dificuldades de acesso a atividades gratuitas podem limitar as oportunidades de movimento.

Alimentação: melhora em alguns indicadores, mas o desafio continua

Os dados alimentares também mostram um cenário que exige atenção. Em 2025, 38,9% dos estudantes relataram consumir frutas pelo menos uma vez por dia, enquanto 62,5% disseram comer vegetais diariamente. Apenas 27% afirmaram tomar café da manhã todos os dias.

Outro resultado relevante é que 30,4% dos adolescentes relataram não consumir refrigerantes açucarados no período avaliado. Em relação à água, 58,3% disseram beber pelo menos três copos de água pura por dia.

Na comparação com 2023, houve avanços no consumo diário de frutas e vegetais e na ingestão de água. Apesar disso, o CDC concluiu que a prevalência da maioria dos comportamentos alimentares saudáveis continuou baixa.

Para a saúde cardiovascular, a qualidade geral da alimentação importa. Uma rotina alimentar que inclua frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes adequadas de proteína, com atenção ao excesso de sódio, açúcares adicionados e alimentos ultraprocessados, pode contribuir para a redução de fatores de risco ao longo da vida.

Isso não significa impor dietas restritivas a adolescentes em fase de crescimento. A orientação deve priorizar variedade, equilíbrio, refeições regulares e escolhas compatíveis com as necessidades nutricionais de cada faixa etária.

Por que a prevenção cardiovascular precisa começar na adolescência?

As doenças cardiovasculares costumam ser associadas à vida adulta, mas parte dos fatores de risco pode se desenvolver ainda na infância e na adolescência. Alimentação inadequada, inatividade física, sono insuficiente e exposição à nicotina podem influenciar a saúde metabólica e cardiovascular ao longo do tempo.

O próprio CDC ressalta que os hábitos adquiridos nessa fase podem persistir na idade adulta. Por isso, acompanhar a saúde dos jovens e oferecer condições para escolhas mais saudáveis pode ajudar a construir trajetórias de vida com menor risco cardiovascular.

A avaliação publicada em 15 de outubro, no entanto, tem limites importantes: os indicadores foram construídos a partir de respostas dos estudantes e não incluíram medições clínicas de pressão arterial, glicose ou colesterol. Além disso, o escore geral foi calculado somente para os participantes com dados completos nos cinco indicadores. Portanto, os resultados não permitem afirmar que determinado percentual dos adolescentes tenha uma doença cardíaca ou prever individualmente quem desenvolverá o problema.

A principal contribuição do levantamento é mostrar onde a prevenção pode ser fortalecida antes que fatores de risco se acumulem ao longo dos anos.

O papel da família na construção de hábitos saudáveis

A prevenção cardiovascular não depende apenas de consultas médicas ou de recomendações transmitidas aos adolescentes. O ambiente familiar também influencia a alimentação, a atividade física e a qualidade do sono.

Organizar refeições equilibradas, disponibilizar água, incentivar atividades ao ar livre e estabelecer horários regulares para dormir são medidas que podem contribuir para uma rotina mais saudável. O exemplo dos adultos também faz diferença: quando a família incorpora o movimento e a alimentação equilibrada ao cotidiano, essas práticas podem se tornar mais naturais para os jovens.

Outro aspecto importante é evitar que o cuidado com a saúde seja associado à culpa, à aparência física ou à cobrança excessiva pelo peso. A abordagem deve valorizar disposição, bem-estar, crescimento saudável e autonomia, respeitando as particularidades de cada adolescente.

Quando necessário, pediatras e outros profissionais de saúde podem orientar as famílias sobre alimentação, sono, atividade física e avaliação de fatores de risco individuais.

Escolas têm papel estratégico na prevenção

Os relatórios do CDC também destacam a importância das instituições de ensino. Como os adolescentes passam uma parcela significativa do dia na escola, esse ambiente pode facilitar o acesso a refeições nutritivas, aulas de educação física e oportunidades de movimento ao longo da jornada escolar.

Entre as medidas apontadas pelo órgão estão o fortalecimento dos padrões nutricionais das refeições escolares, a ampliação das oportunidades de atividade física e a criação de programas que incentivem hábitos saudáveis dentro e fora das salas de aula. O documento também menciona iniciativas de educação nutricional e ações comunitárias que aproximam os estudantes de alimentos frescos e de atividades ao ar livre.

Essas medidas são especialmente importantes para que a prevenção não dependa exclusivamente dos recursos disponíveis em cada família. O acesso a alimentos adequados, espaços seguros para a prática de exercícios e programas escolares inclusivos pode ampliar as oportunidades de saúde entre jovens de diferentes condições socioeconômicas.

O CDC também ressalta que as diferenças observadas entre grupos demográficos devem ser interpretadas considerando as condições sociais, comunitárias e estruturais que influenciam os hábitos e o acesso a recursos de saúde.

Prevenção é um investimento no futuro

Os novos dados americanos apresentam uma mensagem clara: embora alguns indicadores tenham melhorado entre 2023 e 2025, a alimentação, a atividade física e o sono continuam sendo áreas prioritárias para a promoção da saúde cardiovascular dos adolescentes.

A resposta não está em responsabilizar os jovens por seus hábitos, mas em criar condições para que escolhas saudáveis sejam possíveis e sustentáveis. Famílias, escolas, profissionais de saúde e gestores públicos podem atuar em conjunto para tornar a alimentação equilibrada, o movimento diário e o descanso adequado partes acessíveis da rotina.

Mais do que identificar riscos, os relatórios oferecem informações para orientar políticas de prevenção e iniciativas de saúde pública. Investir nessa etapa da vida significa reconhecer que a saúde do coração não começa na idade adulta: ela é construída, dia após dia, durante a infância e a adolescência.

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