Empresas podem enfrentar custos maiores, reduzir contratações e elevar preços diante da redução da jornada de trabalho
Por Ana Raquel |GNEWSUSA
A proposta de acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada semanal de trabalho para 40 horas abre um novo debate sobre os custos de contratação no Brasil. Embora a mudança seja apresentada como uma forma de ampliar o descanso dos trabalhadores, representantes do setor produtivo alertam que a medida pode aumentar as despesas das empresas, dificultar novas contratações e pressionar os preços de produtos e serviços.
Enquanto o governo Lula comemora a mudança como uma conquista para os trabalhadores, empresários alertam para os custos que poderão recair sobre quem gera empregos no Brasil.
O principal questionamento é como manter os salários e ampliar os dias de descanso sem comprometer a capacidade de produção das empresas. Para negócios que precisam funcionar todos os dias, como supermercados, restaurantes, indústrias e estabelecimentos comerciais, a redução das horas trabalhadas pode exigir novas contratações ou uma reorganização das equipes.
Custos maiores podem afetar contratações
Segundo projeção atribuída ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o custo da folha de pagamento pode aumentar até 20% para empresas que atualmente operam com jornadas de 44 horas semanais.
Esse percentual é uma estimativa, não um aumento garantido para todas as empresas. O impacto dependerá da atividade econômica, da produtividade e da necessidade de contratar funcionários para manter o funcionamento das operações.
Na prática, se uma empresa precisar manter o mesmo nível de produção com menos horas trabalhadas por funcionário, poderá ter de ampliar a equipe. Quando não há recursos para absorver essa despesa, o empresário pode reduzir contratações, adiar investimentos ou repassar parte dos custos ao consumidor.
Endividamento aumenta a preocupação
A mudança também gera preocupação porque parte das empresas brasileiras já enfrenta dificuldades financeiras. Dados da Serasa Experian apontaram que 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes em julho de 2026, acumulando R$ 238,6 bilhões em dívidas.
Para negócios que trabalham com margens reduzidas, novas despesas podem dificultar o pagamento de fornecedores, salários, impostos e empréstimos. Em casos mais graves, empresas que não conseguem reorganizar suas finanças podem recorrer à recuperação judicial ou até encerrar as atividades.
Isso não significa que o fim da escala 6×1 provocará necessariamente uma onda de falências. O alerta é que a mudança poderá agravar dificuldades já existentes, especialmente entre pequenos e médios empreendedores.
Setor produtivo defende adaptação gradual
O presidente da Associação Brasileira das Incorporadoras (Abrainc), Luiz França, defendeu uma transição mais gradual e citou o Chile, onde a redução da jornada ocorreu ao longo de cinco anos.
A preocupação é que as empresas tenham tempo suficiente para reorganizar turnos, avaliar a necessidade de novas contratações e adaptar seus custos. Quanto menor o prazo de transição, maior poderá ser a pressão sobre negócios que possuem pouca margem financeira.
Quem poderá pagar essa conta?
O debate vai além da quantidade de dias trabalhados. A questão central é como ampliar o descanso sem comprometer a geração de empregos formais, a competitividade das empresas e o poder de compra da população.
Se os custos aumentarem sem ganhos suficientes de produtividade, parte das empresas poderá reajustar preços. Nesse cenário, o trabalhador poderá ganhar mais tempo de descanso, mas também enfrentar produtos e serviços mais caros ou menos oportunidades de emprego.
A redução da jornada pode trazer benefícios à qualidade de vida, mas seus resultados econômicos dependerão da implementação e da capacidade de adaptação de cada setor.
O desafio para o Brasil é garantir melhores condições de trabalho sem criar dificuldades adicionais para quem emprega, produz e mantém os negócios funcionando. Uma política trabalhista precisa considerar não apenas o benefício prometido, mas também seus efeitos sobre os empregos, os preços e a sobrevivência das empresas.
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