Mortes por picadas de cobras podem chegar a 513 mil por ano no mundo, estima estudo

Pesquisa publicada na revista científica PLOS Medicine estima que até 7 milhões de pessoas sofram envenenamento anualmente. Falhas nos registros oficiais e a dificuldade de acesso ao atendimento médico podem esconder a dimensão real do problema
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

As picadas de cobras venenosas podem provocar até 513 mil mortes por ano em todo o mundo, segundo estimativas de um estudo publicado em agosto de 2026 na revista científica PLOS Medicine. A pesquisa aponta que o número de vítimas pode ser muito superior ao registrado pelas autoridades de saúde, principalmente em regiões rurais e países com infraestrutura médica limitada. Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram informações de 79 países e desenvolveram um modelo estatístico capaz de estimar casos e mortes em áreas onde os dados oficiais são escassos ou inexistentes. O levantamento também evidencia a desigualdade na distribuição do problema e a necessidade de ampliar o acesso ao soro antiofídico, especialmente nas comunidades mais vulneráveis.

Estudo identifica possível subnotificação de casos

A dimensão dos acidentes com serpentes venenosas ainda é difícil de determinar com precisão. Em diversas partes do mundo, vítimas não conseguem chegar rapidamente a uma unidade de saúde, seja pela distância, pela falta de transporte ou pela ausência de serviços médicos adequados. Como consequência, muitos casos de envenenamento e mortes podem não entrar nas estatísticas oficiais.

Para investigar essa lacuna, uma equipe internacional de pesquisadores realizou uma revisão de estudos publicados até 31 de março de 2025. O trabalho atualiza uma estimativa global anterior, divulgada em 2008, e utiliza dados epidemiológicos, informações sobre a distribuição geográfica das serpentes e indicadores ambientais e socioeconômicos para calcular a dimensão do problema.

O estudo, intitulado Estimates of global burden of snakebite: A literature review and geostatistical modelling study, foi publicado em 25 de agosto de 2026. Entre os autores estão pesquisadores ligados à Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido, e à Universidade de Kelaniya, no Sri Lanka.

Os resultados indicam que pelo menos 2,1 milhões de pessoas sofrem envenenamento por picadas de cobra anualmente. Em um cenário de estimativa mais elevada, esse número pode chegar a 7 milhões. Em relação às mortes, a projeção varia de 274 mil a 513 mil por ano.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que esses números são estimativas produzidas por modelos estatísticos, e não uma contagem direta de todas as vítimas. A falta de informações completas e as diferenças entre os dados disponíveis em cada país aumentam a incerteza dos resultados.

Como os pesquisadores calcularam os números

A equipe desenvolveu um modelo geoestatístico para estimar a ocorrência de acidentes e mortes mesmo em locais sem registros confiáveis.

A metodologia combina informações disponíveis sobre casos de envenenamento e mortalidade com características das regiões analisadas, incluindo condições climáticas, diversidade de serpentes e indicadores socioeconômicos.

Com esses dados, o modelo calcula probabilidades de ocorrência e permite identificar áreas nas quais o risco pode ser elevado, apesar da ausência de notificações oficiais.

A estratégia é particularmente importante em países onde parte da população vive longe de hospitais ou depende de serviços de saúde com recursos limitados. Nessas circunstâncias, uma pessoa pode morrer antes de receber atendimento, sem que a ocorrência seja devidamente registrada.

O método também permite comparar cenários com diferentes níveis de subnotificação. Dessa forma, os pesquisadores apresentam uma estimativa inferior e outra superior para a dimensão mundial do problema, em vez de atribuir um número exato a uma realidade que ainda não pode ser medida integralmente.

África Subsaariana concentra grande parte dos casos

A distribuição dos acidentes e das mortes não é uniforme entre as regiões do planeta. De acordo com o levantamento, a África Subsaariana concentra aproximadamente 45% dos casos globais de envenenamento e das mortes estimadas.

A região reúne fatores que aumentam a exposição das pessoas às serpentes e dificultam o atendimento após uma picada. Entre eles estão a diversidade de espécies venenosas, o trabalho agrícola em áreas abertas, a distância entre comunidades rurais e hospitais e a disponibilidade insuficiente de tratamentos específicos.

Países como Nigéria, República Democrática do Congo e Etiópia enfrentam desafios relacionados à exposição de populações rurais e às dificuldades de acesso à assistência médica.

Trabalhadores agrícolas estão entre os grupos mais vulneráveis, especialmente quando exercem suas atividades sem calçados adequados ou equipamentos de proteção. O risco também pode aumentar durante deslocamentos noturnos em áreas onde há presença de serpentes.

Quando ocorre uma picada, a rapidez do atendimento é determinante. A falta de transporte, a distância até uma unidade de saúde e a indisponibilidade de soro antiofídico apropriado podem transformar uma emergência potencialmente tratável em um quadro fatal.

O estudo também aponta que a carga de envenenamentos é elevada em partes do Sul e do Sudeste Asiático, reforçando que o problema não se restringe ao continente africano.

Sobreviventes também podem enfrentar sequelas permanentes

As consequências de uma picada de cobra não se limitam ao risco de morte. Mesmo quando sobrevivem, algumas vítimas desenvolvem complicações que comprometem a saúde e a capacidade de realizar atividades cotidianas.

Dependendo da espécie envolvida e da gravidade do envenenamento, podem ocorrer danos aos tecidos, alterações na coagulação sanguínea, comprometimento dos rins e paralisia. Em casos graves, a destruição de tecidos pode levar à amputação de membros.

O levantamento de 2026 também estima que mais de 800 mil sobreviventes possam desenvolver incapacidades físicas de longo prazo anualmente. Esse número deve ser interpretado como uma projeção do estudo, sujeita às limitações dos dados disponíveis.

Além dos impactos sobre a saúde, as sequelas podem comprometer a renda familiar. Pessoas que dependem do trabalho físico, especialmente na agricultura, podem perder parte da capacidade de trabalhar e enfrentar despesas adicionais com tratamento e reabilitação.

Em comunidades que já enfrentam dificuldades econômicas, essas consequências podem aprofundar a vulnerabilidade social e dificultar a recuperação das famílias.

OMS quer reduzir mortes e incapacidades até 2030

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu, em 2019, uma estratégia global para reduzir pela metade as mortes e as incapacidades causadas por envenenamentos por picadas de serpentes até 2030.

A iniciativa prevê ações para melhorar a prevenção, ampliar o acesso a tratamentos seguros e eficazes, fortalecer os sistemas de saúde e aumentar a cooperação internacional.

Entretanto, a falta de registros confiáveis representa um obstáculo para avaliar o progresso dessa meta. Sem informações epidemiológicas adequadas, as autoridades podem ter dificuldade para identificar as áreas mais afetadas, calcular a necessidade de medicamentos e verificar se as intervenções estão produzindo resultados.

Nesse contexto, o modelo apresentado no estudo pode ajudar a orientar políticas públicas, identificando regiões nas quais a distribuição de recursos e o atendimento médico precisam ser reforçados.

A identificação de áreas de maior risco também pode contribuir para o planejamento de estoques de soro antiofídico, a capacitação de profissionais de saúde e a melhoria dos meios de transporte para pacientes em situações de emergência.

Atendimento rápido é essencial após uma picada

O envenenamento por serpentes é considerado uma emergência médica. A administração do soro antiofídico apropriado, quando indicada pela equipe de saúde, é fundamental para neutralizar os efeitos do veneno.

Em caso de picada, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente, manter a pessoa e o membro atingido em repouso e evitar movimentos desnecessários durante o transporte.

Não se deve fazer torniquetes, cortar a região atingida, tentar sugar o veneno ou aplicar substâncias caseiras sobre a lesão. Essas práticas podem agravar o quadro e atrasar o tratamento adequado.

A prevenção também é importante, sobretudo em áreas rurais. O uso de botas e outros equipamentos de proteção durante o trabalho, a atenção ao caminhar em locais com vegetação e o cuidado ao manusear materiais acumulados podem ajudar a reduzir o risco de acidentes.

O estudo publicado na PLOS Medicine reforça que compreender a dimensão real dos envenenamentos é uma etapa importante para enfrentar o problema. Embora as estimativas ainda apresentem incertezas, os resultados indicam que a subnotificação pode ocultar uma carga de mortalidade muito maior do que a reconhecida anteriormente.

Melhorar os registros, ampliar a disponibilidade de tratamentos e garantir que as vítimas cheguem rapidamente aos serviços de saúde são medidas fundamentais para reduzir mortes evitáveis e sequelas permanentes.

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