Ozempic e Wegovy são associados a alterações nas unhas e queda de cabelo, apontam estudos

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Pesquisas recentes identificam maior frequência de problemas capilares e ungueais entre usuários de medicamentos à base de GLP-1; especialistas destacam a importância de investigar as causas e acompanhar os efeitos durante o tratamento
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Medicamentos que ganharam popularidade pelo potencial de auxiliar no controle do diabetes tipo 2 e na perda de peso, como Ozempic e Wegovy, estão no centro de novas investigações sobre efeitos que vão além da balança. Estudos científicos recentes encontraram associações entre o uso de fármacos da classe dos agonistas do receptor GLP-1 e alterações na saúde dos cabelos e das unhas. Entre os sinais observados estão a queda capilar e o descolamento das unhas, achados que ampliam o debate sobre os possíveis efeitos dermatológicos desses tratamentos. Os resultados, porém, precisam ser interpretados com cautela: identificar uma associação não significa comprovar que o medicamento seja a causa direta de todas as alterações.

Estudo identifica aumento de problemas nas unhas

Uma pesquisa internacional apresentada no congresso de 2026 da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV) investigou a saúde das unhas em pessoas que utilizam medicamentos agonistas do receptor GLP-1.

De acordo com os resultados divulgados pela EurekAlert!, 39% dos participantes que utilizavam esses medicamentos relataram descolamento das unhas, em comparação com 9% do grupo de controle. Além disso, 66% dos usuários apresentaram pelo menos um problema ungueal.

A comparação foi feita com pessoas com obesidade ou diabetes tipo 2 que não utilizavam esses fármacos. A diferença observada chama a atenção para uma possível associação entre o tratamento e alterações na estrutura das unhas.

O descolamento ungueal ocorre quando a unha se separa parcialmente do leito que a sustenta. Dependendo da causa, o quadro pode estar relacionado a traumatismos, infecções, doenças dermatológicas ou outros fatores. Os resultados divulgados não permitem atribuir automaticamente todos os casos ao uso dos medicamentos.

A investigação é relevante porque, até então, as evidências sobre possíveis efeitos dos agonistas de GLP-1 na saúde das unhas eram limitadas, segundo a divulgação do estudo.

Queda de cabelo também aparece em pesquisas científicas

As alterações capilares são outro ponto de atenção. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em julho de 2026 na revista Diabetes Research and Clinical Practice avaliou a associação entre medicamentos agonistas do receptor GLP-1 e queda de cabelo.

O trabalho reuniu nove estudos de intervenção, sete deles ensaios clínicos randomizados, com dados de 4.114 usuários desses medicamentos.

Na análise combinada, os pesquisadores encontraram um risco relativo de queda de cabelo aproximadamente 3,25 vezes maior entre os participantes que utilizaram agonistas de GLP-1 em comparação com aqueles que receberam placebo. Nos estudos voltados a pessoas com sobrepeso ou obesidade, a associação também foi identificada.

A revisão estimou em 3,9% a frequência de queda de cabelo na análise de braço único dos estudos incluídos. Esse número não deve ser interpretado como uma taxa universal para todos os medicamentos, doses ou perfis de pacientes.

O resultado indica um sinal que merece investigação e acompanhamento clínico, mas não significa que todas as pessoas em tratamento terão queda capilar. Tampouco permite concluir que a intensidade do efeito será igual para todos os fármacos da classe.

Perda de peso rápida pode ajudar a explicar a queda capilar

Uma das hipóteses que precisam ser consideradas é o impacto da perda significativa de peso sobre o organismo. Quando a redução de peso acontece rapidamente, mudanças na alimentação e na disponibilidade de nutrientes podem contribuir para alterações no ciclo de crescimento dos cabelos.

Uma dessas condições é o eflúvio telógeno, caracterizado pelo aumento temporário da queda capilar após situações de estresse físico ou metabólico. Entre os possíveis desencadeantes estão perda acentuada de peso, ingestão insuficiente de proteínas e deficiências nutricionais.

Entretanto, essa explicação não deve ser aplicada indistintamente a todos os pacientes. Alterações hormonais, doenças da tireoide, predisposição genética, condições dermatológicas e outros fatores também podem influenciar a saúde dos cabelos.

Uma revisão publicada em 2026 na revista Science Progress analisou a literatura científica sobre tratamentos com agonistas de GLP-1 e queda capilar. O trabalho identificou a perda rápida de peso como um possível fator contribuinte, mas ressaltou a necessidade de compreender melhor os mecanismos envolvidos.

Assim, ainda é importante distinguir os efeitos potencialmente relacionados ao próprio medicamento daqueles que podem decorrer das mudanças metabólicas, nutricionais ou hormonais associadas ao tratamento.

O que os resultados significam para quem usa Ozempic ou Wegovy?

Ozempic e Wegovy contêm semaglutida, mas possuem indicações terapêuticas e esquemas de utilização distintos. O Ozempic é utilizado principalmente no tratamento do diabetes tipo 2, enquanto o Wegovy é indicado para o controle do peso em pacientes que atendem aos critérios clínicos estabelecidos para seu uso.

Os dois pertencem à classe dos agonistas do receptor GLP-1, medicamentos que atuam em mecanismos relacionados à regulação da glicose e do apetite. Embora compartilhem o princípio ativo, não se deve presumir que todos os resultados de estudos sobre a classe sejam diretamente aplicáveis a cada produto, dose ou indicação.

As novas pesquisas não justificam afirmar que os medicamentos provocam necessariamente danos às unhas ou queda de cabelo em todos os usuários. Os resultados identificam associações que merecem atenção, e a interpretação depende do desenho de cada estudo, das características dos participantes e de outros fatores que podem influenciar os desfechos.

Para quem já utiliza esses medicamentos, a recomendação é observar mudanças persistentes e conversar com o profissional responsável pelo tratamento caso surjam queda capilar acentuada, alterações nas unhas ou outros sintomas. A avaliação pode considerar o histórico clínico, o padrão de perda de peso, a alimentação e a necessidade de investigar outras causas.

Interromper ou alterar a dose por conta própria não é recomendado. A decisão sobre a continuidade do tratamento deve ser tomada com orientação médica, considerando os benefícios, os riscos e as condições individuais de cada paciente.

A importância do acompanhamento durante o tratamento

Os achados reforçam que a avaliação dos tratamentos para diabetes e obesidade não deve se limitar à quantidade de peso perdida ou aos resultados dos exames metabólicos. Mudanças na pele, nos cabelos e nas unhas também podem fazer parte das queixas que precisam ser investigadas durante o acompanhamento clínico.

Isso não significa que os benefícios dos medicamentos devam ser desconsiderados, nem que os sinais observados representem necessariamente efeitos diretos da semaglutida. O objetivo das pesquisas é ampliar o conhecimento sobre possíveis eventos adversos e permitir que profissionais de saúde orientem os pacientes de maneira mais individualizada.

Novos estudos serão importantes para determinar a frequência real dessas alterações, esclarecer os mecanismos envolvidos e identificar quais fatores aumentam a probabilidade de sua ocorrência.

Enquanto as evidências avançam, a principal orientação é manter o tratamento sob supervisão profissional e investigar sintomas novos ou persistentes, sem atribuí-los automaticamente ao medicamento.

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