A chegada massiva de venezuelanos e o avanço do crime organizado mudaram o clima social do país às vésperas das eleições presidenciais
Por Chico Gomes | GNEWSUSA
O Chile se prepara para as eleições presidenciais do próximo domingo (16) vivendo um momento de tensão e medo. O país, antes símbolo de estabilidade na América Latina, enfrenta uma nova realidade marcada pelo aumento da criminalidade, pelo crescimento da imigração e pelo fortalecimento das gangues — fatores que remodelaram o debate político nacional.
Segundo pesquisa da Ipsos, 63% dos chilenos afirmam que a criminalidade é sua principal preocupação, superando temas como economia, saúde e educação. A taxa de homicídios mais que dobrou desde 2015, e os sequestros atingiram recorde histórico em 2024, com 40% deles ligados ao crime organizado.
Tiroteios em plena luz do dia, assassinatos por encomenda e sequestros para extorsão — antes impensáveis no país — tornaram-se comuns, impactando até a economia, à medida que a população muda seus hábitos diários.
O fenômeno ocorreu paralelamente à maior onda migratória da história chilena. O número de venezuelanos residentes saltou de 83 mil em 2017 para mais de 669 mil em 2024, segundo o último censo. A chegada expressiva de estrangeiros despertou reações negativas e intensificou a sensação de insegurança. Uma pesquisa da Activa Research revelou que 85% dos chilenos se dizem socialmente distantes dos venezuelanos — um salto expressivo em relação aos 55% de 2019.
Para a socióloga Lucia Dammert, da Universidade de Santiago, a combinação entre imigração acelerada e aumento da violência gerou um “duplo choque” para a sociedade. “Ainda não nos recuperamos desses choques”, afirmou. “E o debate político tem explorado o medo de forma estratégica.”
Disputa eleitoral polarizada
A eleição coloca frente a frente Jeannette Jara, candidata da esquerda pelo Partido Comunista, e vários concorrentes da direita. As pesquisas indicam que o pleito deve seguir para o segundo turno, em 14 de dezembro, com o ultradireitista José Antonio Kast como favorito.
Kast baseia sua campanha em promessas de repressão à imigração irregular, incluindo o plano Escudo da Fronteira — que prevê a construção de um muro de 5 metros de altura e trincheiras com cercas elétricas.
Fronteira norte: o epicentro da crise
A pequena cidade de Colchane, na fronteira com a Bolívia, tornou-se símbolo do impacto migratório. Antes pacata e acostumada a portas destrancadas, a comunidade agora convive com roubos, invasões e medo. “Hoje, ninguém mais deixa a porta aberta”, conta Jocely Garcia, moradora local. “Se tiver algo de valor, é roubado.”
Foi nessa região que autoridades identificaram a atuação do Tren de Aragua, uma das gangues mais temidas da América Latina, com origem na Venezuela. O governo chileno afirma ter prendido centenas de integrantes, mas especialistas alertam que o foco excessivo em grupos estrangeiros pode desviar a atenção do crime nacional.
“Grande parte das gangues e dos presos ainda é chilena”, lembra Dammert. “A criminalidade no país vai além da imigração — e exige respostas mais profundas.”
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