Depressão em idosos é subdiagnosticada no Brasil e afeta mais de 6 em cada 10 que relatam sintomas

Estudo com quase 7 mil brasileiros aponta falhas na identificação do transtorno na terceira idade e reforça a necessidade de escuta qualificada na atenção básica
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

A depressão entre idosos brasileiros segue amplamente subdiagnosticada. Dados de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e da University College London revelam que apenas quatro em cada dez idosos que relatam sintomas compatíveis com depressão receberam diagnóstico médico. O levantamento, baseado em informações nacionais do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), acende um alerta para lacunas na detecção e no cuidado com a saúde mental da população com 60 anos ou mais.

Descompasso entre sintomas e diagnóstico clínico

A pesquisa analisou dados de 6.872 idosos, coletados entre 2019 e 2021, período que inclui os impactos sociais e emocionais da pandemia de Covid-19. Segundo os resultados, 15,6% dos entrevistados relataram sintomas depressivos, como tristeza persistente, solidão, perda de interesse por atividades antes prazerosas e piora da qualidade do sono.

Apesar disso, apenas 12,2% afirmaram ter recebido diagnóstico médico de depressão, e somente 8,1% relataram uso de medicamentos antidepressivos. Isso significa que 62,7% dos idosos que se sentiam deprimidos nunca tiveram a condição reconhecida clinicamente.

Para os pesquisadores, o dado evidencia uma importante falha no sistema de saúde. “Muitos idosos convivem com sofrimento psíquico sem diagnóstico ou acompanhamento adequado, o que contribui para piora da qualidade de vida e aumento da vulnerabilidade”, aponta Jefferson Traebert, um dos autores do estudo.

Quem tem mais chance de ser diagnosticado

A análise identificou fatores associados à maior probabilidade de diagnóstico de depressão entre idosos. Entre eles estão:

  • Ser mulher

  • Ter menos de oito anos de escolaridade

  • Não praticar atividade física regularmente

Esses fatores sugerem que questões sociais, educacionais e comportamentais influenciam tanto a ocorrência quanto o reconhecimento da doença.

Especialistas destacam que homens idosos tendem a relatar menos sintomas emocionais e buscar menos os serviços de saúde, o que pode contribuir para o subdiagnóstico nesse grupo.

Sintomas confundidos com envelhecimento natural

Um dos principais obstáculos à identificação da depressão na terceira idade é a semelhança entre seus sintomas e manifestações comuns do envelhecimento, como fadiga, alterações do sono, redução da libido, lapsos de memória e irritabilidade.

Estudos anteriores já indicavam que cerca de metade dos idosos com depressão não era diagnosticada na Atenção Primária à Saúde, justamente pela tendência de naturalizar esses sinais como parte do envelhecer.

Os autores do estudo reforçam que depressão não é consequência inevitável da idade e deve ser tratada com a mesma seriedade que doenças crônicas físicas, como diabetes e hipertensão.

Importância da escuta e do rastreamento estruturado

Segundo os pesquisadores, a combinação entre autorrelato do idoso, instrumentos de rastreamento padronizados e avaliação clínica qualificada é fundamental para reduzir o subdiagnóstico.

“O estudo mostra que ouvir o idoso, valorizar sua percepção de sofrimento e incorporar essa escuta na prática clínica são estratégias decisivas para melhorar o cuidado em saúde mental”, afirma Traebert.

A recomendação é fortalecer a capacitação de profissionais da Atenção Primária, ampliar o uso de instrumentos de triagem e reduzir o estigma associado à depressão na velhice.

Envelhecimento da população exige novas prioridades

O Brasil vive um rápido processo de envelhecimento populacional. Projeções do IBGE indicam que, nas próximas décadas, os idosos representarão uma parcela crescente da população. Nesse contexto, especialistas defendem que a saúde mental deve ser tratada como pilar central do envelhecimento saudável.

A depressão, quando não tratada, está associada a maior risco de isolamento social, declínio funcional, agravamento de doenças crônicas e aumento da mortalidade.

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