Câncer colorretal em jovens pode estar ligado a pesticidas, aponta estudo internacional

Pesquisa identifica herbicida como possível fator de risco e reforça influência de hábitos de vida e condições socioeconômicas
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Um estudo publicado na revista Nature Medicine revelou uma possível associação entre o aumento de casos de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos e a exposição a pesticidas, especialmente o herbicida picloram. A pesquisa, liderada por cientistas do Instituto de Oncologia Vall d’Hebron (VHIO), também confirmou o papel de fatores já conhecidos, como dieta, tabagismo e nível educacional, no risco da doença.

Crescimento preocupante entre jovens

O câncer colorretal é atualmente o terceiro tipo mais comum no mundo e a segunda principal causa de morte por câncer. Embora historicamente esteja associado ao envelhecimento, com cerca de 90% dos casos ocorrendo após os 50 anos, dados recentes mostram um crescimento desproporcional entre pacientes mais jovens.

Além do aumento na incidência, especialistas alertam que os casos precoces tendem a ser mais agressivos, frequentemente diagnosticados em estágios avançados e com maior presença de metástases.

Herbicida surge como possível fator de risco

Um dos principais achados do estudo foi a associação consistente entre o câncer colorretal precoce e o herbicida picloram, utilizado globalmente desde a década de 1960.

Os pesquisadores observaram que pacientes mais jovens apresentavam maior exposição à substância em comparação com aqueles diagnosticados mais tarde. Essa relação foi confirmada por meio de diferentes análises, incluindo uma meta-análise com nove grupos independentes e dados populacionais de 94 condados dos Estados Unidos ao longo de 21 anos.

Segundo o pesquisador Jose A. Seoane, os tumores associados à exposição ao pesticida apresentaram menor frequência de mutações no gene APC, fundamental na regulação do crescimento celular, indicando que o picloram pode influenciar o desenvolvimento do câncer por vias alternativas.

Apesar disso, os próprios autores reforçam que o estudo é observacional e não estabelece relação de causa e efeito, apenas associações.

Exposoma: o impacto do ambiente ao longo da vida

A pesquisa analisou 29 fatores ligados ao chamado exposoma, conjunto de exposições ambientais ao longo da vida, como poluição, hábitos alimentares e contato com substâncias químicas.

Como nem sempre há dados diretos sobre exposição, os cientistas utilizaram marcadores epigenéticos, que são alterações químicas no DNA, como indicadores indiretos dessas influências.

Os resultados sugerem que a exposição contínua a pesticidas, possivelmente desde a infância, pode desempenhar papel relevante no desenvolvimento do câncer colorretal precoce.

Fatores já conhecidos também pesam

Além dos pesticidas, o estudo reforçou fatores de risco já estabelecidos:

  • Tabagismo elevado
  • Dieta pouco saudável

Por outro lado, padrões como a dieta mediterrânea e maior escolaridade foram associados a menor risco da doença.

Alterações biológicas reforçam hipótese

Os pesquisadores também identificaram mudanças moleculares nos tumores de pacientes com maior exposição ao picloram, incluindo alterações em genes e vias biológicas relacionadas ao crescimento tumoral.

Outros pesticidas, como glifosato, atrazina, nicosulfuron e esfenvalerato, também apresentaram associação, embora menos consistente.

Comunidade científica pede cautela e mais pesquisas

Especialistas do Hospital Universitário Vall d’Hebron destacam que, embora os achados sejam relevantes, ainda não é possível afirmar causalidade.

A oncologista Elena Élez ressalta que o câncer colorretal em jovens apresenta características clínicas distintas, mas sem alterações genômicas específicas que expliquem totalmente o aumento dos casos.

Já o pesquisador Iosune Baraibar afirma que as causas desse crescimento ainda são pouco compreendidas, o que reforça a necessidade de novos estudos.

Implicações para saúde pública

Os autores defendem que os resultados devem acender um alerta para políticas públicas e estratégias de prevenção, considerando não apenas o estilo de vida, mas também exposições ambientais ainda pouco exploradas.

A pesquisa aponta que o avanço do câncer colorretal entre jovens pode estar relacionado a uma combinação complexa de fatores, exigindo respostas igualmente abrangentes da ciência e dos sistemas de saúde.

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