FMI alerta para avanço da dívida pública e cobra novas reformas fiscais no Brasil

Relatório divulgado após missão técnica aponta melhora na gestão das contas públicas, mas destaca necessidade de medidas estruturais para conter o crescimento do endividamento e garantir estabilidade econômica
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

O Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou nesta segunda-feira (1º) que o Brasil avançou na condução de sua política fiscal nos últimos anos, mas ainda precisará implementar reformas estruturais significativas para impedir o crescimento contínuo da dívida pública e assegurar a sustentabilidade das contas governamentais no longo prazo.

A análise foi divulgada após uma missão técnica da instituição ao país, realizada como parte das consultas periódicas previstas no Artigo IV do FMI, mecanismo pelo qual especialistas acompanham o desempenho econômico dos países-membros e avaliam riscos e perspectivas futuras.

Embora tenha reconhecido a resiliência da economia brasileira diante de desafios internos e externos, o organismo internacional demonstrou preocupação com o elevado nível de endividamento do setor público, que atingiu seu maior patamar em quase cinco anos.

FMI reconhece avanços, mas pede medidas mais ambiciosas

Em seu relatório, o Fundo destacou que o governo brasileiro adotou iniciativas importantes para fortalecer o equilíbrio fiscal, incluindo a implementação do novo arcabouço fiscal, aprovado em 2023 para substituir o antigo teto de gastos.

No entanto, a instituição considera que os esforços atuais ainda não são suficientes para colocar a dívida pública em uma trajetória consistente de redução.

Segundo o documento, a preservação das receitas extraordinárias provenientes da exploração de petróleo, associada a um ajuste fiscal mais robusto, poderia aumentar a confiança dos investidores, reduzir os custos de financiamento da dívida pública e abrir espaço para investimentos considerados prioritários.

“O Brasil precisa de reformas fiscais significativas para colocar a dívida pública em uma trajetória firme de queda”, destacou o FMI em sua avaliação.

Dívida pública alcança maior nível desde 2021

Dados divulgados recentemente pelo Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral alcançou 80,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em abril de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 10,44 trilhões.

O resultado representa aumento de 0,4 ponto percentual em relação ao mês anterior e configura o maior nível desde junho de 2021, quando o indicador atingiu 80,6% do PIB.

Desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023, a dívida pública brasileira acumulou crescimento de 8,7 pontos percentuais.

Economistas apontam que essa expansão está relacionada principalmente ao aumento dos gastos públicos, ao crescimento das despesas obrigatórias e ao impacto dos juros elevados sobre o custo da dívida.

Diferença entre os cálculos do Banco Central e do FMI

Embora o Banco Central estime a dívida em 80,4% do PIB, o FMI utiliza metodologia diferente, considerada padrão internacional para comparações entre países.

Pelo critério adotado pela instituição, que inclui títulos públicos mantidos na carteira do Banco Central, o endividamento brasileiro alcançou 93,1% do PIB em abril.

Esse percentual coloca o Brasil em posição menos favorável quando comparado a outras economias emergentes e até mesmo a diversos países desenvolvidos.

De acordo com estimativas do FMI para o fim de 2025:

  • Brasil: 93,4% do PIB;

  • América Latina: 61,5% do PIB;

  • Países emergentes: 73,6% do PIB;

  • Zona do Euro: 88,7% do PIB;

  • África Subsaariana: 48% do PIB.

Os números evidenciam que o Brasil apresenta nível de endividamento superior à média dos países emergentes e também acima da média dos países da Zona do Euro.

Arcabouço fiscal tenta conter crescimento da dívida

Para enfrentar a deterioração das contas públicas, o governo federal aprovou em 2023 o novo arcabouço fiscal.

A regra estabelece limites para o crescimento das despesas públicas e busca garantir maior previsibilidade para investidores e agentes econômicos.

Entre os principais mecanismos estão:

  • Crescimento das despesas limitado a 70% do aumento da arrecadação;

  • Expansão real dos gastos limitada a 2,5% ao ano;

  • Metas de resultado primário para reduzir gradualmente o déficit público.

A proposta foi apresentada como uma alternativa ao teto de gastos, considerado excessivamente rígido por parte dos economistas e gestores públicos.

Entretanto, especialistas alertam que o sucesso do arcabouço depende da adoção de medidas adicionais para controlar despesas obrigatórias e revisar mecanismos de crescimento automático dos gastos governamentais.

Mercado prevê aumento do endividamento

Mesmo com a existência das novas regras fiscais, projeções do mercado financeiro continuam apontando para um crescimento significativo da dívida pública ao longo da próxima década.

Segundo estimativas coletadas pelo Banco Central junto a instituições financeiras, a dívida brasileira poderá atingir 99,4% do PIB em 2035 pelo conceito utilizado internamente pelo governo.

Caso seja aplicada a metodologia do FMI, esse percentual poderá se aproximar de 110% do PIB.

Para analistas fiscais, esse cenário elevaria a percepção de risco do país, pressionando taxas de juros, aumentando os custos de financiamento do governo e reduzindo a capacidade de investimento público.

Economia brasileira mantém desempenho resiliente

Apesar das preocupações relacionadas às contas públicas, o FMI avaliou que a economia brasileira continua demonstrando capacidade de adaptação diante de diversos choques econômicos.

A instituição destacou o crescimento da atividade econômica, a recuperação do mercado de trabalho e a condução da política monetária pelo Banco Central.

O relatório também considerou adequada a decisão da autoridade monetária de reduzir a taxa básica de juros em março e abril deste ano, observando que a medida permaneceu alinhada ao regime de metas de inflação adotado pelo país.

Segundo o Fundo, a combinação entre disciplina fiscal e estabilidade monetária será determinante para que o Brasil consiga manter o crescimento econômico sem comprometer a sustentabilidade de suas finanças públicas.

Desafio para os próximos anos

A avaliação do FMI reforça um debate que vem ganhando força entre economistas, investidores e formuladores de políticas públicas: como equilibrar crescimento econômico, investimentos sociais e responsabilidade fiscal.

Enquanto o governo busca ampliar programas sociais e estimular a atividade econômica, especialistas alertam que a trajetória da dívida pública exigirá ajustes estruturais para evitar pressões futuras sobre juros, inflação e capacidade de investimento.

A mensagem central do organismo internacional é clara: embora o Brasil tenha avançado na organização das contas públicas, o desafio de controlar o endividamento permanece um dos principais temas econômicos da próxima década.

  • Leia mais:

Porta-voz dos EUA diz que Trump quer eliminar PCC e CV após classificação como terroristas

Casos suspeitos de ebola colocam autoridades de saúde em alerta no Brasil, mas especialistas descartam risco de surto

Operação flagra 249 imigrantes ilegais conduzindo veículos em rodovias da Flórida

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*