Após surto em navio de cruzeiro, 21 países unem forças para desvendar mistérios do hantavírus Andes

Nova iniciativa científica internacional busca compreender como o vírus se comporta no organismo humano e fortalecer a capacidade global de resposta a futuras emergências sanitárias
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Um surto do vírus Andes (Andv), uma das variantes mais perigosas da família dos hantavírus, ocorrido em maio deste ano a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius, desencadeou uma mobilização científica sem precedentes. Pesquisadores e instituições de 21 países lançaram uma iniciativa internacional de investigação denominada Navis, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre o comportamento do vírus, seus mecanismos de transmissão e os fatores que levam ao desenvolvimento de formas graves da doença. A ação, coordenada com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), é considerada um marco na preparação global para futuras emergências sanitárias.

Segundo a OMS, o projeto demonstra como sistemas internacionais de pesquisa podem ser rapidamente ativados diante de surtos emergentes, permitindo que evidências científicas sejam produzidas ainda durante a fase crítica das crises de saúde pública.

O estudo Navis foi concebido como uma pesquisa de história natural da doença, acompanhando indivíduos expostos ao vírus Andes para compreender aspectos que permanecem pouco conhecidos pela comunidade científica. Entre os principais objetivos estão a análise dos períodos de incubação, as respostas imunológicas do organismo, o comportamento biológico do vírus e os determinantes que levam alguns pacientes a desenvolverem quadros graves.

Especialistas destacam que surtos de doenças emergentes representam oportunidades científicas raras e de curta duração. Sem mecanismos previamente estruturados de cooperação e protocolos harmonizados entre países, informações valiosas para o enfrentamento de futuras epidemias podem ser perdidas.

O vírus Andes pertence à família dos hantavírus, um grupo de agentes infecciosos transmitidos principalmente por roedores silvestres. Diferentemente de outras variantes, o Andv é uma das poucas cepas para as quais existem evidências de transmissão entre seres humanos, fator que aumenta as preocupações das autoridades de saúde pública.

A infecção pelo hantavírus pode provocar a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), doença grave caracterizada inicialmente por febre, dores musculares, fadiga e sintomas semelhantes aos de uma gripe comum. Em sua evolução, porém, a enfermidade pode causar insuficiência respiratória aguda, comprometimento cardiovascular e elevado risco de morte.

Participam da iniciativa científica instituições de:

  • África do Sul;

  • Alemanha;

  • Austrália;

  • Bélgica;

  • Canadá;

  • Dinamarca;

  • Espanha;

  • Estados Unidos;

  • França;

  • Grécia;

  • Irlanda;

  • Itália;

  • Japão;

  • Países Baixos;

  • Nova Zelândia;

  • Reino Unido;

  • República Democrática do Congo;

  • Singapura;

  • Suíça;

  • Turquia.

Para o infectologista iraniano Yazdan Yazdanpanah, um dos especialistas envolvidos no projeto, a rapidez com que a iniciativa foi implementada demonstra o valor da preparação antecipada.

“O rápido lançamento do Navis em 21 países mostra o que é possível quando as redes de investigação são estabelecidas antes que os surtos ocorram”, afirmou o especialista.

A Organização Mundial da Saúde alerta que a preparação para futuras emergências sanitárias não pode ser concentrada apenas em países de alta renda. Segundo a agência, as regiões onde os surtos surgem ou onde determinados agentes patogênicos circulam devem desempenhar papel central na produção de conhecimento científico e na geração de evidências.

A cientista-chefe da OMS, Sylvie Briand, ressaltou que a pesquisa em meio às crises sanitárias precisa tornar-se parte integrante das respostas internacionais.

“A geração de evidências científicas durante surtos deve ser operacional, coordenada e imediatamente acionável”, destacou.

Para a especialista, as futuras respostas a epidemias precisam partir de estruturas de investigação já estabelecidas, evitando a improvisação em momentos de crise.

O lançamento do Navis ocorre em um contexto de crescente preocupação global com doenças zoonóticas emergentes — aquelas transmitidas entre animais e seres humanos. A experiência adquirida durante a pandemia de Covid-19 e os recentes surtos de gripe aviária, vírus Nipah, Ébola e hantavírus reforçaram a necessidade de investimentos permanentes em vigilância epidemiológica, cooperação científica internacional e sistemas de resposta rápida.

Para a OMS, a iniciativa representa mais do que um estudo sobre o vírus Andes. Trata-se de um modelo de colaboração internacional que poderá servir de referência para o enfrentamento de futuras ameaças biológicas em um mundo cada vez mais interconectado, onde novos patógenos podem atravessar fronteiras em questão de horas.

Ao reunir cientistas de quatro continentes, o projeto Navis busca transformar uma emergência sanitária em uma oportunidade de aprendizado global, fortalecendo a capacidade da comunidade internacional de responder de maneira mais rápida, coordenada e eficaz aos desafios impostos pelas doenças emergentes.

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