Pesquisa do CDC identifica, na Carolina do Norte, carrapatos capazes de transmitir diferentes bactérias associadas a doenças como Lyme e febre recorrente; especialistas defendem maior vigilância e atenção médica fora das regiões tradicionalmente consideradas de risco
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA
Uma investigação conduzida por pesquisadores ligados aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) encontrou evidências de que carrapatos transmissores de doenças estão presentes em áreas onde a circulação desses agentes infecciosos historicamente recebeu menos atenção. Na Carolina do Norte, cientistas identificaram carrapatos-de-pernas-pretas carregando bactérias associadas à doença de Lyme, à anaplasmose e à febre recorrente transmitida por carrapatos. O resultado reforça uma preocupação crescente da saúde pública americana: a distribuição dos vetores e dos microrganismos que eles carregam está mudando, enquanto parte da população e dos próprios profissionais de saúde ainda pode não reconhecer o risco em regiões consideradas pouco afetadas.
Uma pesquisa recente realizada na Carolina do Norte trouxe novas evidências de que o mapa das doenças transmitidas por carrapatos nos Estados Unidos está mudando. O estudo concentrou-se em Biltmore Forest, comunidade localizada na região montanhosa próxima a Asheville, e encontrou uma elevada proporção de carrapatos-de-pernas-pretas infectados com bactérias capazes de provocar doenças em seres humanos.
O levantamento foi realizado entre novembro de 2024 e agosto de 2025. Durante o período, pesquisadores coletaram 373 carrapatos em 22 propriedades residenciais. A espécie predominante foi o carrapato-de-pernas-pretas (Ixodes scapularis), também conhecido como carrapato-de-veado.
O achado mais relevante foi a presença de Borrelia burgdorferi, bactéria responsável pela doença de Lyme. Segundo os dados divulgados na investigação, aproximadamente 40% dos carrapatos adultos da espécie analisada apresentavam a bactéria.
A descoberta chama atenção porque a doença de Lyme é historicamente associada sobretudo ao Nordeste e ao Alto Meio-Oeste dos Estados Unidos. O próprio CDC, entretanto, mantém atualmente mapas de vigilância que mostram a presença de Borrelia burgdorferi, Borrelia mayonii e Borrelia miyamotoi em populações de carrapatos-de-pernas-pretas.
Um problema que pode estar subestimado
A expansão geográfica dos carrapatos não significa necessariamente que todas as regiões onde eles são encontrados apresentem o mesmo nível de transmissão de doenças. O CDC ressalta que a simples presença de uma espécie de carrapato não comprova, por si só, que determinada doença esteja sendo transmitida naquele local.
A transmissão depende de uma combinação de fatores, entre eles a presença do agente infeccioso, animais hospedeiros, condições ambientais, comportamento humano, acesso aos serviços de saúde e capacidade de diagnóstico e notificação.
É justamente essa combinação que torna a pesquisa da Carolina do Norte importante. Além da Borrelia burgdorferi, os pesquisadores identificaram outros agentes infecciosos nos carrapatos analisados.
Foram encontrados exemplares carregando Anaplasma phagocytophilum, bactéria relacionada à anaplasmose, e Borrelia miyamotoi, agente associado à chamada febre recorrente transmitida por carrapatos.
As duas infecções podem provocar sintomas inicialmente semelhantes aos de uma gripe, como febre, calafrios, dor de cabeça, dores musculares e cansaço. Isso pode dificultar o reconhecimento da doença, principalmente quando o paciente vive em uma região onde essas enfermidades não são tradicionalmente consideradas comuns.
Doença de Lyme ainda é um dos principais desafios
A doença de Lyme permanece como uma das principais doenças transmitidas por carrapatos nos Estados Unidos. O CDC estima que centenas de milhares de pessoas sejam diagnosticadas e tratadas anualmente por essa infecção.
A enfermidade é causada por bactérias do complexo Borrelia burgdorferi e pode apresentar diferentes manifestações.
Nos estágios iniciais, algumas pessoas desenvolvem uma lesão característica na pele conhecida como eritema migratório. Também podem surgir febre, dor de cabeça, fadiga, dores musculares e articulares.
Sem tratamento adequado, a infecção pode evoluir e comprometer articulações, sistema nervoso e, em determinados casos, o coração.
Um dos problemas destacados pelos especialistas é que os sintomas nem sempre aparecem de maneira típica. Além disso, uma pessoa pode não perceber que foi picada, já que os carrapatos são pequenos e a exposição pode ocorrer durante atividades aparentemente comuns, como caminhar por gramados, jardins, trilhas ou áreas próximas à vegetação.
O fator climático
A mudança na distribuição dos carrapatos também está relacionada às transformações ambientais. O CDC explica que temperaturas mais elevadas, invernos mais amenos e temporadas quentes mais longas podem alterar a distribuição geográfica e a sazonalidade de vetores de doenças.
Isso não significa que o aquecimento do planeta seja o único responsável pelo avanço dos carrapatos. Segundo o CDC, outros elementos também exercem influência, incluindo mudanças no uso do solo, expansão urbana, alterações na população de animais hospedeiros, comportamento humano e acesso aos serviços de saúde.
Em áreas onde florestas e ambientes naturais se aproximam de bairros residenciais, por exemplo, aumenta a possibilidade de contato entre pessoas, animais e carrapatos.
A agência americana destaca que alterações climáticas podem modificar a distribuição e a duração das temporadas de atividade de diferentes vetores. Verões mais longos e invernos mais curtos e amenos podem criar condições favoráveis à sobrevivência e à atividade de algumas populações de carrapatos.
Animais também participam desse processo
O avanço dos carrapatos não ocorre de maneira independente. Esses parasitas dependem de animais para completar parte de seu ciclo de vida.
Veados, camundongos e outros pequenos mamíferos podem participar da manutenção e disseminação das populações de carrapatos e dos agentes infecciosos presentes no ambiente.
Quando esses animais ampliam sua presença em áreas suburbanas ou quando mudanças no uso do solo alteram seus habitats, os carrapatos podem acompanhar essa movimentação.
O próprio CDC aponta que mudanças no uso da terra, incluindo processos de reflorestamento e expansão suburbana, podem aumentar as populações de veados e aproximar pessoas, animais, carrapatos e microrganismos causadores de doenças.
O alerta para os médicos
Um dos principais impactos da mudança no mapa epidemiológico é o risco de atrasos no diagnóstico.
Quando uma doença é considerada rara ou improvável em determinada região, pacientes com sintomas compatíveis podem inicialmente receber diagnósticos diferentes. Isso pode retardar o início do tratamento.
No caso da doença de Lyme, o diagnóstico envolve a avaliação dos sintomas, histórico de exposição e exames laboratoriais. A interpretação dos testes pode ser especialmente desafiadora nas fases iniciais da infecção.
Por isso, a expansão dos vetores exige que os profissionais de saúde acompanhem também as mudanças na distribuição geográfica das doenças.
A vigilância epidemiológica precisa acompanhar não apenas quantas pessoas adoecem, mas também onde os carrapatos estão presentes e quais microrganismos estão circulando entre eles.
Outras doenças também estão mudando de cenário
A preocupação não se limita à doença de Lyme.
O CDC acompanha diversas enfermidades transmitidas por carrapatos nos Estados Unidos, incluindo anaplasmose, babesiose, febre maculosa das Montanhas Rochosas, doença de Powassan e outras infecções.
O vírus Powassan é particularmente preocupante porque pode provocar encefalite ou meningite. Dados históricos atualizados pelo CDC mostram que os Estados Unidos registraram 60 casos humanos em 2024, o maior número apresentado na série disponível na plataforma da agência.
O crescimento das notificações não significa que todas essas doenças estejam se espalhando de maneira uniforme pelo território americano. A distribuição varia conforme a espécie de carrapato, os hospedeiros disponíveis, as condições ambientais e a circulação dos agentes infecciosos.
Mesmo assim, o conjunto de evidências reforça a necessidade de vigilância contínua.
Um mapa que está em transformação
O próprio CDC reconhece que alterações climáticas e ambientais podem contribuir para mudanças na distribuição dos vetores. A agência ressalta, porém, que o fenômeno é complexo e não pode ser explicado exclusivamente pelo clima.
Pesquisas científicas indicam que temperatura, umidade e precipitação interferem no ciclo de vida dos carrapatos. Ao mesmo tempo, mudanças no habitat e na distribuição dos animais hospedeiros podem alterar as oportunidades de sobrevivência e reprodução desses parasitas.
Por isso, pesquisadores defendem estudos de longo prazo que combinem dados ambientais, vigilância de carrapatos, monitoramento de animais e registros de doenças humanas.
Esse modelo permite identificar não apenas onde os carrapatos estão, mas também se eles carregam agentes capazes de infectar pessoas.
Como reduzir o risco
O avanço dos carrapatos torna medidas preventivas ainda mais importantes, principalmente para quem frequenta áreas de mata, jardins, gramados e trilhas.
Entre as principais recomendações de prevenção estão:
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usar roupas que cubram braços e pernas durante atividades em áreas com vegetação;
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aplicar repelente adequado para pele e roupas, conforme as orientações do produto;
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evitar permanecer desnecessariamente em áreas de vegetação alta;
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realizar uma inspeção cuidadosa do corpo depois de atividades ao ar livre;
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verificar roupas, mochilas e equipamentos;
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examinar animais domésticos depois de passeios em áreas onde possam existir carrapatos;
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remover rapidamente qualquer carrapato encontrado preso à pele.
A identificação de um carrapato não significa automaticamente que a pessoa desenvolverá uma doença. Entretanto, a presença do parasita deve ser levada a sério, principalmente quando surgem sintomas posteriormente.
A principal preocupação é perder tempo
Para especialistas, o desafio não está apenas em acompanhar a expansão dos carrapatos, mas em fazer com que a informação chegue rapidamente à população e aos profissionais de saúde.
O CDC destaca que quase meio milhão de pessoas são diagnosticadas e tratadas anualmente por doenças transmitidas por carrapatos nos Estados Unidos. A agência também ressalta que os números registrados podem ser influenciados por diferenças na vigilância, diagnóstico e notificação entre regiões.
A pesquisa realizada na Carolina do Norte acrescenta uma peça importante a esse cenário. Ao encontrar carrapatos infectados por diferentes bactérias em uma região que não ocupava o centro histórico da transmissão da doença de Lyme, o estudo mostra que o risco pode mudar de localização antes que a percepção pública acompanhe essa transformação.
O resultado serve, portanto, como um alerta para médicos, autoridades sanitárias e moradores: o mapa das doenças transmitidas por carrapatos não é estático.
À medida que os vetores ocupam novos ambientes, a vigilância precisa avançar junto com eles. Identificar onde os carrapatos estão, quais agentes carregam e quais pessoas estão sendo infectadas pode ser decisivo para reduzir diagnósticos tardios e impedir que uma doença tratável se transforme em um problema de saúde prolongado.
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