Lítio pode ser uma peça-chave na proteção do cérebro contra Alzheimer, aponta estudo

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Pesquisa conduzida por cientistas de Harvard indica que o mineral, encontrado naturalmente no cérebro, diminui nos estágios iniciais da doença e pode estar ligado à preservação da memória e das conexões entre neurônios
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Escola de Medicina de Harvard identificou uma possível relação entre o lítio naturalmente presente no cérebro e a proteção contra alterações associadas ao envelhecimento cerebral e à doença de Alzheimer. O estudo, publicado na revista Nature, aponta que pessoas cognitivamente saudáveis apresentam níveis mais elevados do mineral no cérebro, enquanto indivíduos com comprometimento cognitivo leve e Alzheimer apresentam uma redução significativa. Em modelos animais, a deficiência de lítio acelerou o acúmulo de proteínas relacionadas à doença, a inflamação cerebral e a perda de conexões entre neurônios.

Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores ressaltam que a descoberta ainda não significa que o lítio possa ser utilizado como tratamento ou prevenção do Alzheimer em seres humanos. Os principais experimentos terapêuticos foram realizados em camundongos, e a segurança e a eficácia da estratégia precisam ser demonstradas em ensaios clínicos.

O que os cientistas descobriram

A investigação acompanhou diferentes aspectos da relação entre o lítio e o funcionamento cerebral. Os pesquisadores analisaram tecidos cerebrais humanos, amostras de sangue e modelos experimentais de Alzheimer.

Entre aproximadamente 30 metais avaliados, o lítio foi o elemento que apresentou a alteração mais significativa entre pessoas cognitivamente saudáveis, indivíduos com comprometimento cognitivo leve e pacientes com Alzheimer. O mineral estava presente em níveis mais elevados no cérebro de pessoas sem alterações cognitivas e diminuía à medida que a doença avançava.

O achado chamou a atenção porque o comprometimento cognitivo leve pode representar uma etapa anterior ao Alzheimer. Para os pesquisadores, isso levanta a possibilidade de que alterações na disponibilidade do lítio ocorram relativamente cedo no processo da doença.

A equipe de Bruce Yankner, professor de genética da Harvard Medical School, propõe que a perda da disponibilidade do mineral pode contribuir para uma sequência de alterações celulares associadas à neurodegeneração. A própria Harvard descreve o lítio como um elemento fisiológico recentemente identificado no cérebro, com possível participação no envelhecimento e na função cognitiva.

Como o lítio pode se relacionar com o Alzheimer

Um dos mecanismos investigados envolve a proteína beta-amiloide.

No Alzheimer, fragmentos de beta-amiloide podem se acumular no cérebro e formar placas. A pesquisa indica que, nos estágios iniciais da doença, o lítio pode ser sequestrado por esses depósitos, tornando o mineral menos disponível para as células cerebrais.

Isso cria uma hipótese de ciclo prejudicial: quanto mais beta-amiloide se acumula, maior pode ser a retenção do lítio pelas placas; com menos lítio disponível, mecanismos de proteção e manutenção das células cerebrais podem ser prejudicados, favorecendo alterações relacionadas à doença.

Os pesquisadores também encontraram relação entre a deficiência de lítio e a proteína tau, outra peça importante da biologia do Alzheimer. Em modelos animais, a redução do mineral aumentou o acúmulo de tau fosforilada, além da deposição de beta-amiloide.

A deficiência de lítio afetou neurônios e memória

Para entender o que aconteceria quando a quantidade do mineral fosse reduzida, os cientistas diminuíram o lítio disponível na alimentação de camundongos.

Os animais passaram a apresentar níveis cerebrais de lítio semelhantes aos observados em pessoas com Alzheimer. A deficiência foi associada a uma série de alterações: aumento da inflamação cerebral, perda de sinapses, danos a axônios e mielina e piora do desempenho cognitivo.

Nos animais geneticamente utilizados como modelos de Alzheimer, a redução do lítio também acelerou a formação das placas beta-amiloides e o acúmulo de tau.

O resultado reforçou a hipótese de que o mineral não seria apenas um elemento presente incidentalmente no cérebro, mas poderia exercer uma função biológica importante na manutenção da saúde cerebral.

O papel da inflamação cerebral

Outro ponto relevante da pesquisa envolve as células da micróglia, que fazem parte do sistema de defesa do cérebro.

Com o envelhecimento, essas células podem apresentar alterações em sua capacidade de eliminar substâncias potencialmente prejudiciais. Os experimentos indicaram que a deficiência de lítio estava associada a uma maior ativação inflamatória.

Em camundongos idosos, o tratamento com uma forma específica de lítio reduziu sinais de inflamação e aumentou a capacidade da micróglia de captar e degradar beta-amiloide.

Isso é importante porque a remoção de proteínas acumuladas no cérebro é considerada um dos mecanismos envolvidos na manutenção da saúde cerebral.

Por que os pesquisadores testaram o orotato de lítio

Depois de observar que o lítio poderia ser capturado pelas placas de beta-amiloide, os pesquisadores procuraram uma forma do mineral que permanecesse mais disponível para as células cerebrais.

Entre diferentes sais de lítio analisados, o orotato de lítio apresentou características que reduziram sua ligação às placas amiloides. Por isso, ele foi escolhido para os experimentos seguintes.

Nos camundongos, doses fisiológicas de orotato de lítio reduziram a formação de placas beta-amiloides e o acúmulo de tau. O composto também apresentou efeitos sobre a inflamação, as sinapses e a mielina.

Em determinados modelos animais, os pesquisadores observaram ainda recuperação de funções relacionadas à memória. Em camundongos mais velhos com alterações avançadas, o tratamento também reduziu a quantidade de beta-amiloide e estruturas associadas à tau.

Resultado chama atenção por usar doses muito baixas

Um dos aspectos que mais despertaram interesse na pesquisa foi a quantidade de lítio utilizada nos experimentos.

Os pesquisadores trabalharam com doses muito inferiores às tradicionalmente associadas ao uso clínico do lítio. Segundo o estudo, a concentração utilizada buscava manter os níveis do mineral dentro de uma faixa semelhante à encontrada naturalmente no organismo.

Em camundongos tratados durante grande parte da vida adulta, não foram observados sinais de toxicidade com a baixa dose utilizada no experimento.

Isso, porém, não significa que a mesma dose seja segura ou eficaz em seres humanos. A fisiologia dos camundongos e a dos humanos apresenta diferenças importantes, e a segurança de qualquer intervenção precisa ser estabelecida em estudos clínicos específicos.

A descoberta pode ajudar a explicar por que algumas pessoas envelhecem melhor

Uma das questões que a pesquisa tenta responder é por que algumas pessoas apresentam alterações cerebrais características do Alzheimer sem desenvolver o mesmo grau de comprometimento cognitivo.

A equipe de Harvard trabalha com a hipótese de que pessoas capazes de manter níveis mais elevados de lítio no cérebro podem apresentar maior resistência a determinadas alterações associadas à neurodegeneração. A própria instituição destaca que os pesquisadores encontraram correlação entre os níveis cerebrais do mineral e a função cognitiva em pessoas durante o envelhecimento.

Essa hipótese ainda precisa ser testada de forma mais ampla em seres humanos.

E a água com lítio?

Os pesquisadores também relacionaram os resultados a estudos populacionais anteriores que encontraram associação entre níveis mais elevados de lítio no ambiente — inclusive na água potável — e menores taxas de demência.

Essa observação é considerada interessante porque sugere que a exposição ambiental ao mineral pode ter alguma relação com a saúde cerebral. No entanto, uma associação populacional não demonstra que o lítio presente na água seja responsável pela redução dos casos de demência.

Para estabelecer uma relação de causa e efeito seriam necessários estudos controlados, com acompanhamento de grandes grupos de pessoas durante períodos prolongados.

Lítio não deve ser usado por conta própria

Apesar da repercussão da descoberta, os resultados não autorizam a utilização de suplementos de lítio ou orotato de lítio como estratégia para prevenir Alzheimer.

O lítio já é utilizado na medicina em determinadas condições psiquiátricas, mas apresenta uma janela terapêutica estreita. Em concentrações elevadas, pode causar efeitos adversos importantes, e o risco de toxicidade exige acompanhamento médico.

Os próprios pesquisadores alertam para os riscos de extrapolar resultados obtidos em camundongos diretamente para seres humanos. A Harvard Medical School também destaca que os resultados dos modelos animais são encorajadores, mas que a eficácia do orotato de lítio contra Alzheimer só poderá ser determinada por ensaios clínicos randomizados.

Portanto, a descoberta deve ser interpretada como uma pista científica, e não como uma recomendação de tratamento.

O próximo passo: testar a hipótese em pessoas

A principal questão agora é saber se o mecanismo identificado nos animais também ocorre da mesma maneira no cérebro humano e, principalmente, se a reposição de lítio poderá alterar o curso do Alzheimer.

Segundo a Harvard Medical School, o grupo de Yankner está colaborando com pesquisadores e médicos do Massachusetts General Hospital e do Brigham and Women’s Hospital para investigar a segurança e a eficácia do orotato de lítio em pessoas com envelhecimento cerebral, comprometimento cognitivo inicial e Alzheimer.

Se os resultados forem confirmados, o impacto potencial seria significativo. O lítio poderia passar a ser estudado não apenas como medicamento, mas como parte de um mecanismo fisiológico relacionado à manutenção da saúde cerebral.

Outra possibilidade seria utilizar a medição dos níveis de lítio no cérebro ou no organismo como um possível indicador de risco. Essa aplicação, contudo, ainda depende de validação científica.

Uma nova frente na pesquisa contra o Alzheimer

O estudo abre uma perspectiva diferente para compreender a doença. Em vez de olhar exclusivamente para o acúmulo de beta-amiloide e tau, os pesquisadores propõem que alterações na disponibilidade de um mineral naturalmente presente no cérebro podem fazer parte das etapas iniciais da neurodegeneração.

A publicação na Nature descreve a deficiência de lítio como uma possível alteração precoce na trajetória do Alzheimer e aponta que restaurar a disponibilidade do mineral com sais que escapem ao sequestro pelas placas pode representar uma estratégia futura de prevenção ou tratamento.

Ainda há, entretanto, um longo caminho entre uma descoberta em modelos animais e uma terapia disponível para pacientes. A próxima etapa será determinar se o mecanismo funciona em humanos, qual seria a dose adequada, quais pacientes poderiam se beneficiar e, sobretudo, se os possíveis benefícios superam os riscos.

Por enquanto, o principal resultado da pesquisa é outro: o lítio, antes conhecido principalmente por seu uso farmacológico, surge como um elemento naturalmente presente no cérebro que pode ter um papel importante na manutenção da memória e na resistência ao envelhecimento cerebral.

O que o estudo já mostra

  • O lítio está naturalmente presente no cérebro.

  • Pessoas com comprometimento cognitivo leve e Alzheimer apresentaram níveis cerebrais menores do mineral.

  • A beta-amiloide pode sequestrar o lítio e reduzir sua disponibilidade.

  • A deficiência de lítio acelerou alterações relacionadas ao Alzheimer em camundongos.

  • O orotato de lítio reduziu placas beta-amiloides, alterações de tau, inflamação e perda de conexões neuronais nos modelos estudados.

  • Os animais tratados apresentaram melhora de memória em diferentes experimentos.

  • Ainda não está comprovado que o tratamento funcione em seres humanos.

  • Não há recomendação para que pessoas utilizem lítio ou orotato de lítio por conta própria.

 

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