Convocação de chanceleres foi aprovada por 29 países; México se absteve em votação realizada após avanço de medidas do governo Ortega que podem restringir a participação da oposição nas eleições
Por Gilvania Alves|GNEWSUSA
A Organização dos Estados Americanos (OEA) convocou uma reunião de emergência de ministros das Relações Exteriores para discutir a crise política e eleitoral na Nicarágua. A decisão foi aprovada nesta quarta-feira (19) pelo Conselho Permanente da entidade, com 29 votos favoráveis, apenas um contrário — do Brasil — e uma abstenção, do México.
Declaração de Ortega agravou a crise
A decisão ocorre após uma declaração de Daniel Ortega que aumentou a preocupação internacional sobre o futuro político da Nicarágua. Em 19 de julho, durante um discurso em comemoração ao aniversário da Revolução Sandinista, o presidente afirmou que “não haverá mais eleições” no país.
A declaração foi interpretada como um anúncio do fim das eleições como mecanismo para permitir a alternância de poder. Ortega também justificou a medida com críticas à oposição e a setores que, segundo seu governo, tentaram derrubá-lo.
Dias depois, integrantes do governo passaram a afirmar que haverá eleições, mas defenderam mudanças nas regras para impedir a participação de opositores classificados pelas autoridades como “golpistas“. É nesse cenário que a reforma constitucional atualmente em discussão ganhou importância.
Reforma pode restringir oposição
O projeto apresentado pelo governo prevê mudanças nas regras políticas e eleitorais. Entre elas está a possibilidade de impedir determinadas pessoas de disputar eleições por serem consideradas contrárias ao Estado.
A proposta também aumenta de seis para sete anos o mandato presidencial. Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, ocupam atualmente a copresidência do país.
A reforma ainda não foi aprovada. A Assembleia Nacional, controlada pelo grupo político de Ortega, adiou a votação do texto para setembro.
Entenda a crise política na Nicarágua
A atual crise é resultado de um processo de concentração de poder que se intensificou nos últimos anos. Em 2018, protestos contra o governo foram reprimidos pelas forças de segurança, deixando centenas de mortos, segundo organismos internacionais. O período seguinte foi marcado por prisões de opositores, fechamento de organizações civis e restrições à imprensa independente.
Nas eleições de 2021, importantes nomes da oposição foram presos ou impedidos de disputar a Presidência. Ortega venceu o pleito e permaneceu no poder, enquanto organismos internacionais questionaram as condições para uma disputa eleitoral livre.
Em 2025, outra reforma constitucional transformou Ortega e Murillo em copresidentes e aumentou o mandato presidencial de cinco para seis anos.
Brasil foi o único voto contrário
A posição brasileira foi diferente da adotada pela maioria dos integrantes da OEA. Dos 31 países que participaram da votação, 29 apoiaram a convocação da reunião, o Brasil foi o único a votar contra e o México se absteve.
O governo brasileiro defendeu o diálogo político e considerou que a convocação dos chanceleres não seria o caminho mais adequado naquele momento.
Os Estados Unidos e a maioria dos demais países apoiaram a realização do encontro diante do agravamento da situação política nicaraguense.
OEA deve definir próximos passos
O governo Ortega-Murillo afirma que as mudanças têm como objetivo proteger a soberania da Nicarágua e impedir interferências externas. Rosario Murillo declarou que a reforma pretende garantir um processo eleitoral “livre, digno e soberano”.
Organismos internacionais, porém, demonstram preocupação com as restrições à oposição e com a concentração de poder no governo.
A data da reunião de emergência ainda não foi definida. A OEA informou que o encontro deverá ocorrer “assim que possível”, quando os chanceleres deverão discutir a situação da Nicarágua e possíveis respostas da organização.
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