Menina de 8 anos morre nos EUA após infecção rara por “ameba comedora de cérebro”

Lillian Smart foi infectada por Naegleria fowleri, provavelmente durante um banho no Lago Claiborne, na Louisiana; caso é extremamente raro, mas a doença provoca uma infecção cerebral que evolui rapidamente e apresenta alta taxa de mortalidade
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Uma menina de 8 anos morreu na Louisiana, nos Estados Unidos, após contrair uma rara infecção causada pela Naegleria fowleri, organismo popularmente conhecido como “ameba comedora de cérebro”. Lillian Smart, moradora de Ruston, estava internada desde 15 de agosto e, segundo autoridades de saúde, provavelmente teve contato com a ameba enquanto nadava no Lago Claiborne, no norte do estado. A infecção provocou uma forma grave de meningoencefalite e evoluiu rapidamente. A morte foi confirmada pela família no fim de semana.

A morte de Lillian chamou a atenção para uma doença que, embora extremamente rara, pode ser devastadora. Dados atualizados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontam que, entre 1937 e 2025, foram registrados 173 casos de meningoencefalite amebiana primária (PAM) no país. A Louisiana contabiliza quatro casos no período, segundo a base de dados da agência.

No caso de Lillian, autoridades de saúde da Louisiana consideram que a exposição provavelmente ocorreu durante uma atividade recreativa no Lago Claiborne. A confirmação da infecção havia sido divulgada pelo Departamento de Saúde da Louisiana (LDH) em 19 de agosto, quando a criança ainda estava hospitalizada. A imprensa local posteriormente identificou a paciente como Lillian Smart.

A menina permaneceu internada desde 15 de agosto. Segundo a família, apesar dos esforços da equipe médica, os danos provocados pela infecção no cérebro foram graves demais para permitir sua recuperação. Lillian morreu no fim de semana, pouco depois de completar oito anos.

Uma infecção extremamente rara

A Naegleria fowleri é uma ameba de vida livre, microscópica, encontrada naturalmente no ambiente. Ela se desenvolve principalmente em água doce quente, incluindo lagos, rios, lagoas e fontes termais. A ocorrência é mais comum em períodos de temperaturas elevadas, especialmente durante o verão nos estados do sul dos Estados Unidos.

O perigo surge quando a água contaminada entra pelo nariz. A ameba pode migrar pela cavidade nasal até o cérebro e provocar a chamada meningoencefalite amebiana primária, ou PAM, uma infecção que destrói tecido cerebral e pode causar intenso inchaço no cérebro.

Apesar do apelido assustador, a expressão “ameba comedora de cérebro” não significa que o organismo ataque pessoas de maneira comum. O risco de infecção é extraordinariamente baixo. O CDC informa que, nos Estados Unidos, normalmente são registrados menos de dez casos de PAM por ano. Entre 1962 e 2024, foram contabilizados 167 casos, dos quais apenas quatro pacientes sobreviveram.

Como a Naegleria fowleri chega ao cérebro

A principal porta de entrada é o nariz. Durante mergulhos, brincadeiras ou natação em água doce quente, a água pode entrar pelas cavidades nasais. Em situações muito raras, a exposição também pode ocorrer por meio de água contaminada utilizada para lavar as cavidades nasais.

É importante destacar que beber água contaminada não provoca a infecção, de acordo com o CDC. Da mesma forma, a PAM não é transmitida de uma pessoa para outra.

A exposição também não significa necessariamente que a pessoa ficará doente. A infecção é considerada excepcionalmente rara mesmo em locais onde a ameba pode estar presente naturalmente.

Doença começa com sintomas parecidos com meningite

Um dos principais problemas relacionados à doença é a velocidade com que ela pode evoluir. Os primeiros sintomas geralmente aparecem cerca de cinco dias após a exposição, embora possam surgir entre um e 12 dias.

No início, os sinais podem incluir:

  • dor de cabeça;

  • febre;

  • náusea;

  • vômitos.

À medida que a infecção avança, podem aparecer rigidez na nuca, confusão, desorientação, perda de equilíbrio, convulsões, alucinações e coma. O CDC alerta que a doença pode ser confundida inicialmente com formas mais comuns de meningite.

Depois do início dos sintomas, a evolução costuma ser muito rápida. Segundo o CDC, a morte geralmente ocorre cerca de cinco dias após os primeiros sinais, embora o intervalo possa variar de um a 18 dias.

Por que a água quente favorece a ameba?

A Naegleria fowleri é adaptada a ambientes quentes. O CDC informa que a ameba pode ser encontrada em águas doces aquecidas naturalmente e que casos de infecção costumam estar associados a períodos de temperaturas elevadas.

Por isso, lagos e rios de água doce podem representar um risco potencial durante períodos de calor intenso. A agência ressalta, entretanto, que não é possível eliminar completamente a presença natural da ameba em ambientes como rios e lagos.

A Louisiana possui orientações específicas sobre a Naegleria fowleri. O Departamento de Saúde estadual explica que a exposição costuma ocorrer durante atividades em lagos e rios de água doce quente e mantém informações de prevenção para a população.

Não existe teste ambiental de rotina para todos os lagos

Outro fator que dificulta a prevenção é que a presença da Naegleria fowleri não pode ser simplesmente descartada com base em uma análise comum da água.

O CDC informa que a ameba é difícil de detectar e que os testes laboratoriais para confirmar uma infecção também estão disponíveis em apenas alguns laboratórios especializados nos Estados Unidos. O diagnóstico pode exigir exames específicos, incluindo técnicas moleculares capazes de identificar o organismo em líquido cefalorraquidiano ou tecidos.

Por esse motivo, a ausência de um alerta sobre determinado lago não significa que seja possível garantir que a Naegleria fowleri não esteja presente.

Como reduzir o risco durante atividades na água

Embora não seja possível eliminar completamente o risco em ambientes naturais, algumas medidas podem diminuir a possibilidade de exposição.

O CDC recomenda, quando a pessoa decide entrar em água doce quente, evitar que a água entre pelo nariz. Entre as medidas sugeridas estão manter a cabeça fora da água ou utilizar um prendedor nasal. A agência também recomenda evitar atividades em águas doces quentes durante períodos de temperaturas elevadas e não revolver sedimentos em áreas rasas e aquecidas.

Outra recomendação importante envolve a lavagem nasal. Quando for necessário realizar irrigação ou limpeza das cavidades nasais, deve-se utilizar somente água considerada segura para esse fim, seguindo as orientações sanitárias apropriadas.

Caso mobilizou moradores de Ruston

A morte de Lillian provocou uma mobilização da comunidade de Ruston, cidade onde a menina vivia. Moradores, estabelecimentos comerciais e organizações locais participaram de ações de apoio à família durante o período em que ela permaneceu hospitalizada.

Uma campanha chamada “Love for Lillian” foi criada para reunir apoio à família. Segundo veículos locais, empresas e moradores organizaram iniciativas de solidariedade durante os dias de internação da criança.

O governador da Louisiana, Jeff Landry, também lamentou publicamente a morte da menina.

A família confirmou o falecimento em uma publicação nas redes sociais e afirmou que os danos cerebrais provocados pela infecção eram graves demais para que Lillian pudesse se recuperar.

Um alerta sobre uma doença rara — e não sobre a natação em geral

Apesar da gravidade do caso, especialistas e autoridades sanitárias tratam a infecção por Naegleria fowleri como um evento extremamente incomum. O risco não significa que todas as pessoas que frequentam lagos ou rios de água doce estejam sujeitas a contrair a doença.

O principal ponto de atenção está na combinação de água doce quente e entrada de água contaminada pelo nariz. A própria estatística americana demonstra a raridade: o CDC registrou 173 casos em quase nove décadas, de 1937 a 2025.

O caso de Lillian Smart, porém, evidencia a rapidez com que a PAM pode evoluir quando ocorre a infecção. Por isso, pessoas que desenvolverem febre, dor de cabeça intensa, náuseas, vômitos ou rigidez na nuca após contato recente com água doce quente devem procurar atendimento médico imediatamente, informando a possível exposição.

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