Brasil chega a quatro casos de Febre do Nilo Ocidental em 2026; doença já provocou uma morte

Imagem: Divulgação
São Paulo confirmou os primeiros registros humanos da infecção no estado, enquanto Santa Catarina contabiliza dois casos, incluindo o óbito de uma mulher de 77 anos; Piauí investiga ainda uma ocorrência provável
Por Paloma de Sá |GNEWSUSA

O Brasil soma quatro casos confirmados de Febre do Nilo Ocidental em 2026, segundo informações do Ministério da Saúde divulgadas nesta segunda-feira (24). São dois registros em São Paulo, os primeiros casos humanos identificados no estado, e dois em Santa Catarina, onde uma mulher de 77 anos morreu após desenvolver manifestações neurológicas. Há ainda um caso provável em investigação no Piauí. Transmitida principalmente pela picada de mosquitos do gênero Culex que se infectam ao picar aves contaminadas, a doença costuma passar despercebida na maioria das pessoas, mas pode evoluir para quadros graves que atingem o sistema nervoso central.

A confirmação dos novos casos ampliou a atenção das autoridades sanitárias para a circulação do vírus no país. Em São Paulo, as infecções foram identificadas em duas mulheres do interior do estado: uma paciente de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto, que já se recuperou, e uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto, que permanece internada.

Os dois casos foram confirmados por exames laboratoriais realizados pelo Instituto Adolfo Lutz e ainda estão sob investigação epidemiológica para determinar onde ocorreu a transmissão.

A paciente de 34 anos relatou uma viagem recente à região amazônica, informação que está sendo considerada na investigação. Até o momento, porém, não é possível afirmar que ela tenha sido infectada durante a viagem. O segundo caso, envolvendo a jovem de 18 anos, também ainda não teve o local provável de infecção determinado.

Santa Catarina registra primeira morte

Em Santa Catarina, a situação ganhou um agravante. A Secretaria de Estado da Saúde confirmou dois casos da doença e a primeira morte relacionada à Febre do Nilo Ocidental registrada na história do estado.

A vítima era uma mulher de 77 anos, residente em Imbituba, no litoral sul catarinense. Ela morreu em 8 de agosto. O segundo paciente é um homem de 56 anos, morador de Caçador, no Meio-Oeste do estado. Ele apresentou manifestações neurológicas, precisou ser internado, mas se recuperou e recebeu alta.

Os dois casos catarinenses continuam sendo investigados pelas autoridades para identificar os prováveis locais de infecção e compreender se existe circulação do vírus entre mosquitos e animais nas regiões relacionadas aos pacientes.

Com os registros de São Paulo e Santa Catarina, o Ministério da Saúde informou que o país possui quatro casos confirmados em 2026 e um caso provável no Piauí. A pasta acompanha as investigações estaduais e informou que prepara orientações técnicas atualizadas para reforçar a vigilância da doença.

O que é a Febre do Nilo Ocidental?

A Febre do Nilo Ocidental é uma infecção viral provocada pelo vírus do Nilo Ocidental, um arbovírus — grupo que também inclui os vírus responsáveis por dengue, Zika, chikungunya e febre amarela.

O Ministério da Saúde explica que a transmissão ocorre principalmente pela picada de mosquitos infectados, sobretudo do gênero Culex. Esses insetos adquirem o vírus ao se alimentar do sangue de aves infectadas. As aves funcionam como importantes hospedeiras e amplificadoras do vírus na natureza.

O ciclo de transmissão ocorre, principalmente, da seguinte maneira:

  • aves infectadas carregam o vírus;

  • mosquitos Culex picam essas aves e adquirem o vírus;

  • os mosquitos infectados podem transmitir o vírus para outras aves;

  • seres humanos e equinos podem ser infectados de forma acidental.

Isso significa que o ser humano não desempenha papel relevante na manutenção do ciclo natural da doença. Pessoas infectadas são consideradas hospedeiros acidentais e terminais porque, em geral, não apresentam quantidade suficiente do vírus no sangue para infectar novos mosquitos.

A doença já está circulando em São Paulo?

Ainda não é possível afirmar que os dois casos paulistas tenham sido adquiridos dentro do próprio estado.

Essa é uma das principais questões da investigação epidemiológica. A confirmação de uma pessoa infectada não determina automaticamente o local onde ocorreu a transmissão. É necessário analisar o histórico de deslocamento do paciente, o período de incubação e os dados obtidos pela vigilância de mosquitos e animais.

No caso da mulher de 34 anos, a viagem recente à Amazônia é uma informação relevante para os investigadores. Entretanto, a viagem, por si só, não comprova que o vírus tenha sido adquirido naquela região.

No caso da jovem de São José do Rio Preto, as autoridades ainda buscam informações que possam indicar onde ocorreu a exposição.

A mesma cautela vale para Santa Catarina. Os dois registros do estado não permitem, isoladamente, determinar que exista uma cadeia de transmissão sustentada na população local. É necessário encontrar evidências da circulação do vírus entre mosquitos e animais para estabelecer o cenário epidemiológico.

Por que as aves são tão importantes?

As aves ocupam uma posição central no ciclo da Febre do Nilo Ocidental.

Diferentemente dos seres humanos, algumas espécies de aves conseguem desenvolver uma quantidade elevada de vírus no sangue. Isso permite que mosquitos que se alimentam delas sejam infectados e posteriormente transmitam o vírus para outros animais.

Por essa razão, o Ministério da Saúde recomenda que a vigilância não se limite aos pacientes humanos.

A ocorrência de aves silvestres ou equinos com sinais neurológicos pode funcionar como um alerta para a possível circulação do vírus em determinada área. A pasta orienta a intensificação da vigilância de eventos envolvendo aves e equídeos, especialmente quando apresentam manifestações neurológicas.

Cerca de 80% dos infectados não apresentam sintomas

Um dos principais obstáculos para identificar a doença é o fato de que a maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas.

Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que aproximadamente 20% dos infectados desenvolvam manifestações clínicas. Na prática, isso significa que cerca de 80% das infecções podem passar despercebidas.

Quando aparecem, os sintomas costumam ser inespecíficos e podem ser confundidos com diversas outras doenças virais.

Entre os principais sinais estão:

  • febre de início abrupto;

  • dor de cabeça;

  • mal-estar;

  • fraqueza;

  • dores musculares;

  • náuseas;

  • vômitos;

  • manchas na pele;

  • aumento de gânglios em alguns casos.

Essa apresentação clínica pouco específica dificulta a identificação da doença, principalmente em um país onde arboviroses como dengue, Zika e chikungunya são muito mais conhecidas e frequentes.

Quando a doença se torna grave?

Embora a maioria das infecções seja assintomática ou leve, uma pequena parcela dos pacientes desenvolve comprometimento neurológico.

Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente um em cada 150 infectados desenvolve doença neurológica grave. Entre as manifestações possíveis estão meningite, encefalite e paralisia flácida aguda.

Os casos graves podem apresentar:

  • alteração do estado mental;

  • confusão;

  • fraqueza muscular intensa;

  • dificuldade de coordenação;

  • convulsões;

  • encefalite;

  • meningite;

  • paralisia.

O risco de evolução grave aumenta especialmente entre pessoas mais velhas e indivíduos com determinadas condições que comprometem o sistema imunológico.

A morte registrada em Santa Catarina envolveu justamente uma paciente de 77 anos, embora a idade, isoladamente, não permita determinar a causa da evolução clínica de cada paciente.

Por que a Febre do Nilo pode ser confundida com dengue?

O diagnóstico pode representar um desafio adicional porque o vírus do Nilo Ocidental pertence à família dos flavivírus, assim como os vírus da dengue, Zika e febre amarela.

O Ministério da Saúde alerta que determinados testes sorológicos podem apresentar reação cruzada. Isso significa que anticorpos produzidos pelo organismo em resposta a outro flavivírus podem interferir no resultado de determinados exames.

Por isso, um resultado positivo em um teste sorológico nem sempre é suficiente para estabelecer sozinho o diagnóstico definitivo.

Dependendo da situação clínica, podem ser necessários exames complementares, incluindo técnicas moleculares, testes de neutralização e análise de amostras de sangue ou líquido cefalorraquidiano.

A definição correta do diagnóstico é importante não apenas para tratar o paciente, mas também para a saúde pública. A confirmação de um caso pode desencadear investigações para descobrir se o vírus está circulando em determinada região.

Existe tratamento para a doença?

Atualmente, não existe vacina disponível no Brasil nem tratamento antiviral específico recomendado para a Febre do Nilo Ocidental.

O tratamento é principalmente de suporte e varia de acordo com a gravidade do quadro. Pacientes com manifestações neurológicas podem precisar de hospitalização e, nos casos mais graves, atendimento em unidade de terapia intensiva.

A assistência médica pode incluir controle dos sintomas, hidratação, suporte respiratório quando necessário e tratamento das complicações.

Por isso, a identificação precoce de sinais neurológicos é importante, principalmente diante de uma síndrome febril sem causa definida.

Como prevenir a infecção?

Como a principal forma de transmissão é a picada do mosquito infectado, a prevenção está diretamente relacionada à redução da exposição aos vetores.

Entre as medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde estão:

  • utilizar repelente;

  • usar roupas que reduzam a exposição da pele;

  • instalar telas em portas e janelas;

  • evitar locais com grande presença de mosquitos;

  • reduzir criadouros de mosquitos;

  • evitar exposição aos vetores principalmente nos períodos de maior atividade;

  • comunicar às autoridades o encontro de aves silvestres ou equinos com sinais neurológicos suspeitos.

O Ministério da Saúde também orienta que eventos envolvendo aves silvestres ou equídeos com sintomas neurológicos sejam notificados às autoridades de saúde para investigação.

Há transmissão de pessoa para pessoa?

A principal cadeia de transmissão não ocorre entre seres humanos.

O ciclo natural envolve aves e mosquitos. Pessoas infectadas são consideradas hospedeiros acidentais porque, em condições habituais, não mantêm quantidade suficiente de vírus no sangue para infectar novos mosquitos.

Existem, entretanto, formas raras de transmissão que não dependem da picada do mosquito. O Ministério da Saúde cita, entre elas, transfusão de sangue, transplante de órgãos, aleitamento materno e transmissão transplacentária.

Isso não significa que a doença esteja sendo transmitida normalmente entre pessoas no cotidiano.

Vigilância precisa ir além dos hospitais

Os novos casos registrados em São Paulo e Santa Catarina mostram por que a vigilância da Febre do Nilo Ocidental precisa combinar diferentes fontes de informação.

Como aproximadamente 80% das infecções não apresentam sintomas, depender exclusivamente da identificação de pacientes deixa parte importante da circulação viral invisível.

A vigilância deve acompanhar simultaneamente:

Vigilância humana: identificação e investigação de pessoas com quadros compatíveis.

Vigilância entomológica: monitoramento de mosquitos capazes de transmitir o vírus.

Vigilância animal: investigação de aves e equinos que apresentem sinais neurológicos ou mortes sem explicação.

Essa estratégia permite que as autoridades tentem identificar a circulação do vírus antes mesmo que apareça um número maior de casos humanos. O próprio Ministério da Saúde considera eventos envolvendo aves silvestres e equídeos com manifestações neurológicas relevantes para a vigilância epidemiológica.

O que os quatro casos significam para o Brasil?

Os quatro casos confirmados em 2026 não permitem afirmar, por si só, que o Brasil esteja diante de uma nova epidemia da doença.

O cenário, neste momento, é de casos humanos confirmados em diferentes estados, com investigações em andamento para determinar os locais prováveis de infecção e verificar a existência ou não de circulação viral local. Em São Paulo, os dois primeiros casos históricos do estado ainda têm a origem da infecção sob investigação. Em Santa Catarina, os dois pacientes também estão vinculados a investigações epidemiológicas.

O caso provável no Piauí acrescenta mais um ponto de atenção ao mapa epidemiológico nacional.

A confirmação de novos casos, portanto, não deve ser interpretada isoladamente. O dado mais importante para as autoridades será descobrir onde o vírus está circulando, quais mosquitos estão envolvidos e se existem animais infectados nas áreas relacionadas aos pacientes.

Enquanto essas investigações avançam, especialistas e autoridades reforçam que a prevenção contra picadas de mosquitos continua sendo a principal forma de reduzir o risco individual.

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