Dor nas pernas à noite pode ser “dor do crescimento”? Estudo testa novo tratamento em crianças

imagem: iStock
Pesquisa brasileira com nove crianças avaliou combinação de laser de baixa intensidade e ultrassom; resultado inicial indica segurança e possível redução da dor, mas estudos maiores ainda são necessários
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Choro durante a noite, dor nas pernas e preocupação dos pais: esse é um cenário comum na infância e pode estar relacionado à chamada “dor do crescimento”, uma condição geralmente benigna, mas cuja causa ainda não é totalmente compreendida pela ciência.

Um estudo brasileiro publicado em 2026 investigou uma alternativa para aliviar esse desconforto: a combinação de laser de baixa intensidade e ultrassom. O trabalho acompanhou apenas nove crianças e encontrou redução da dor entre aquelas que receberam o tratamento ativo, sem registro de efeitos adversos atribuídos à técnica.

Os próprios pesquisadores, porém, fazem uma ressalva importante: trata-se de um estudo piloto, com uma amostra muito pequena. Portanto, os resultados não são suficientes para afirmar que a terapia funciona de maneira definitiva ou que já possa substituir as formas convencionais de controle da dor.

A pesquisa foi realizada por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC/USP) e de instituições parceiras. O artigo foi publicado em 29 de abril de 2026 no Journal of Biophotonics.

O que é a chamada dor do crescimento?

Apesar do nome popular, a chamada dor do crescimento não é considerada uma consequência comprovada do crescimento dos ossos.

A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o quadro como uma dor recorrente nos membros, geralmente nas pernas, observada principalmente em crianças e adolescentes. Os episódios costumam aparecer no fim do dia, durante a noite ou até despertar a criança durante o sono. Pela manhã, entretanto, a dor geralmente desaparece.

Outra característica é que a criança normalmente permanece bem durante o dia. Ela consegue caminhar, correr e brincar sem apresentar uma limitação persistente.

As dores podem atingir coxas, panturrilhas, canelas ou a região posterior dos joelhos e, frequentemente, aparecem nos dois lados do corpo.

Uma revisão científica sobre o tema também aponta que as dores são tipicamente intermitentes, aparecem no final da tarde ou durante a noite e não costumam estar acompanhadas de sinais objetivos de inflamação.

Uma condição comum, mas ainda cercada de dúvidas

A frequência da chamada dor do crescimento varia bastante entre os estudos porque não existe uma definição universalmente aceita para a condição.

Uma revisão publicada pela Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria, analisou 145 estudos e identificou grande falta de consenso sobre os critérios usados para definir o problema. Dor nos membros inferiores, ocorrência à noite, caráter recorrente, exame físico normal e dor bilateral aparecem entre as características mais frequentemente descritas.

A prevalência estimada também varia conforme a população estudada e os critérios utilizados.

Uma revisão sistemática publicada anteriormente encontrou estimativas que variavam de aproximadamente 2,6% a 36,9%. O trabalho concluiu que a causa da condição ainda não está completamente esclarecida.

Mais recentemente, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu 37 estudos e mais de 16 mil participantes. Os pesquisadores encontraram possíveis associações com fatores como menor concentração de vitamina D, menor densidade óssea, atividade física ou hipermobilidade, além de possíveis componentes genéticos e psicossociais. No entanto, os autores ressaltaram que a heterogeneidade dos estudos exige cautela na interpretação dos resultados.

Novo estudo brasileiro aposta em laser e ultrassom

Foi justamente diante da falta de opções específicas de tratamento que pesquisadores brasileiros decidiram investigar uma abordagem não medicamentosa.

O estudo publicado no Journal of Biophotonics avaliou a combinação de laser de baixa intensidade e ultrassom em crianças diagnosticadas com dor do crescimento.

A pesquisa teve como objetivo principal avaliar a segurança da técnica e obter evidências preliminares sobre um possível efeito analgésico.

Foram recrutadas inicialmente 17 crianças. Após avaliação médica, oito foram excluídas porque não apresentavam critérios suficientes para o diagnóstico de dor do crescimento e tinham outras possíveis causas para os sintomas.

Ao final, nove crianças entre 7 e 12 anos participaram do estudo: cinco meninos e quatro meninas. Cinco foram incluídas no grupo que recebeu o tratamento ativo e quatro no grupo placebo.

Como foi feita a aplicação?

O procedimento utilizou um equipamento capaz de combinar as duas modalidades de terapia.

Em vez de aplicar o equipamento diretamente nas pernas, os pesquisadores escolheram as palmas das mãos e as plantas dos pés.

Segundo os autores, essas regiões apresentam elevada vascularização e inervação e permitiriam explorar os efeitos sistêmicos da fotobiomodulação.

A aplicação foi feita durante uma única sessão, com o equipamento em contato com a pele por períodos determinados em cada região.

No grupo placebo, o mesmo aparelho foi utilizado, mas sem ativação das fontes terapêuticas. Dessa maneira, crianças, responsáveis e pesquisadores não sabiam qual participante estava recebendo o tratamento ativo.

O estudo utilizou laser vermelho com comprimento de onda de 660 nanômetros e ultrassom em modo pulsado.

Os pesquisadores também estabeleceram áreas específicas para aplicação, evitando regiões próximas às estruturas de crescimento dos dedos.

Essa precaução foi importante porque intervenções físicas em crianças precisam considerar as placas de crescimento ósseo. O artigo destaca que a aplicação foi planejada para minimizar potenciais riscos a essas estruturas.

Crianças apresentaram redução da dor

Para avaliar a resposta ao tratamento, os pesquisadores utilizaram uma escala visual de dor e acompanharam os participantes durante 30 dias.

As avaliações foram feitas antes da intervenção, sete dias depois e novamente após 30 dias.

No grupo que recebeu o tratamento ativo, a redução média da intensidade da dor foi de 3,2 pontos na escala após sete dias e de 4,2 pontos após 30 dias.

No grupo placebo, as reduções médias foram de 2,75 e 4 pontos, respectivamente.

Os números mostram que ambos os grupos apresentaram melhora, mas a redução foi ligeiramente maior entre as crianças submetidas ao tratamento ativo.

Esse detalhe é fundamental para interpretar o resultado: a melhora observada não pode ser atribuída automaticamente ao laser e ao ultrassom, porque também houve redução da dor entre as crianças que receberam placebo.

Os autores consideraram os resultados compatíveis com uma possível ação analgésica da técnica, mas destacaram a necessidade de pesquisas posteriores.

Nenhum efeito adverso foi registrado

Outro objetivo importante era verificar se o procedimento apresentaria problemas de segurança.

Nas avaliações realizadas sete e 30 dias depois, os pesquisadores não identificaram alterações no exame físico relacionadas à intervenção.

Também não foram observadas lesões na pele, mudanças na marcha ou reações sistêmicas atribuídas ao tratamento.

Nenhuma criança ou responsável relatou piora do quadro após o procedimento.

Por esse motivo, a principal conclusão do trabalho está relacionada à segurança preliminar da técnica.

Os pesquisadores consideram que os resultados permitem avançar para estudos maiores, nos quais será possível avaliar com mais precisão se a terapia realmente reduz a dor causada pela condição.

Por que o estudo ainda não prova que o tratamento funciona?

O principal limite da pesquisa está no tamanho da amostra.

Foram apenas nove participantes, divididos entre tratamento ativo e placebo. Uma amostra tão pequena dificulta a obtenção de conclusões estatísticas robustas e impede generalizar os resultados para todas as crianças com dor do crescimento.

O próprio artigo reconhece essa limitação e afirma que estudos posteriores, com mais participantes e acompanhamento mais prolongado, são necessários.

Outro ponto importante é que a dor do crescimento apresenta um comportamento naturalmente variável.

Existem períodos em que a criança sente dor e outros em que permanece completamente sem sintomas. Dessa forma, uma melhora espontânea pode acontecer mesmo sem uma intervenção específica.

Os pesquisadores reconhecem que essa característica torna ainda mais importante a utilização de grupos de comparação e estudos controlados.

Massagem e medidas simples continuam sendo utilizadas

Enquanto novas terapias são investigadas, o tratamento continua concentrado principalmente no alívio dos sintomas.

A Sociedade Brasileira de Pediatria destaca que medidas como massagem e alongamento podem fazer parte da abordagem. A avaliação médica também é importante para confirmar se o padrão apresentado pela criança é compatível com dor recorrente benigna.

Revisões científicas também apontam massagem, alongamentos musculares e medicamentos analgésicos entre as estratégias utilizadas para controle dos sintomas, embora as evidências sobre tratamentos específicos ainda sejam limitadas.

O uso de medicamentos em crianças, entretanto, deve seguir orientação de profissional de saúde, especialmente em relação à dose e à indicação.

Nem toda dor na perna é dor do crescimento

Esse é um dos pontos mais importantes para os pais.

Uma criança que reclama de dor nas pernas não deve receber automaticamente o diagnóstico de “dor do crescimento”.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, o padrão típico envolve dor recorrente, geralmente bilateral, que aparece no final do dia ou à noite e desaparece pela manhã, sem provocar alterações persistentes na movimentação.

Quando o quadro foge desse padrão, é necessário investigar outras causas.

Entre os sinais que merecem avaliação médica estão:

  • dor persistente durante o dia;

  • dor concentrada sempre em uma mesma perna;

  • dificuldade para caminhar ou correr;

  • inchaço;

  • vermelhidão ou outros sinais inflamatórios;

  • febre;

  • perda de peso sem explicação;

  • manchas roxas;

  • cansaço excessivo;

  • alteração persistente do movimento.

Esses sintomas podem estar relacionados a diferentes condições e não devem ser atribuídos automaticamente ao crescimento. A literatura médica ressalta que infecções, lesões, doenças reumatológicas e outras condições precisam ser consideradas no diagnóstico diferencial.

O próprio nome pode induzir ao erro

A expressão “dor do crescimento” permanece popular, mas a relação direta entre crescimento acelerado e dor não foi comprovada.

Uma revisão sistemática publicada em 2026, por exemplo, não encontrou evidência que sustente uma associação entre crescimento rápido e a condição.

É justamente por isso que a literatura científica utiliza também expressões como “dor recorrente nos membros” ou “dor benigna noturna dos membros da infância”.

O termo popular, entretanto, continua sendo amplamente utilizado porque descreve uma queixa reconhecida na prática pediátrica.

O que os pesquisadores querem descobrir agora?

O estudo brasileiro representa uma primeira etapa de investigação.

Os pesquisadores pretendem utilizar os resultados para estruturar pesquisas futuras com maior número de participantes, acompanhamento mais longo e metodologia capaz de determinar com mais segurança a eficácia da terapia.

O artigo publicado no Journal of Biophotonics deixa claro que os resultados são promissores, mas ainda preliminares. A conclusão é de que a combinação de laser de baixa intensidade e ultrassom mostrou segurança clínica no pequeno grupo estudado e potencial efeito analgésico, justificando novos ensaios clínicos.

Por enquanto, portanto, não é correto apresentar a técnica como um tratamento comprovado ou disponível como padrão para todas as crianças.

Um problema comum que a ciência ainda tenta entender

A chamada dor do crescimento é um exemplo de como sintomas aparentemente simples podem permanecer difíceis de explicar pela medicina.

A criança sente uma dor real, muitas vezes suficientemente intensa para interromper o sono, mas apresenta exame físico normal e fica bem no dia seguinte.

A ciência já conhece algumas características do quadro, mas ainda não possui uma explicação única para sua origem. Estudos apontam possíveis relações com fatores musculares, neurossensoriais, genéticos e outros mecanismos, mas nenhuma hipótese explica todos os casos.

O novo estudo brasileiro acrescenta uma possibilidade à busca por alternativas de tratamento.

Mas o caminho entre um resultado promissor em nove crianças e uma terapia comprovadamente eficaz é longo. Serão necessários estudos maiores, com grupos mais numerosos e acompanhamento adequado, para determinar se a combinação de laser e ultrassom realmente representa um avanço no tratamento da dor infantil.

Até lá, a recomendação mais importante continua sendo reconhecer o padrão dos sintomas, evitar diagnósticos automáticos e procurar avaliação pediátrica quando a dor apresentar características diferentes do quadro típico.

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